domingo, 13 de setembro de 2026

O Medo, a Divisão e a Defesa da Liberdade

 Charles Evaldo Boller

Poucas forças alteram tão profundamente a convivência humana quanto o medo. Em situações de crise, ele pode despertar prudência e solidariedade, mas também favorecer intolerância, submissão e ruptura dos vínculos sociais. Ao maçom cabe examinar criticamente esses fenômenos, sem substituir um temor por outro. Defender a liberdade exige discernimento para distinguir autoridade legítima de arbítrio, prevenção de opressão e prudência de servidão.

A filosofia política demonstra que liberdade e segurança convivem em permanente tensão. Thomas Hobbes percebeu que o medo pode levar os homens a transferirem amplos poderes à autoridade em busca de proteção; John Stuart Mill, por sua vez, advertiu para os perigos da coerção exercida não apenas pelo Estado, mas também pela opinião dominante. A lição permanece atual: nenhuma sociedade livre pode dispensar medidas destinadas ao bem comum, mas toda restrição excepcional precisa ser proporcional, fundamentada, fiscalizável e limitada no tempo.

É nesse ponto que o simbolismo maçônico adquire força formativa. A construção do Templo pressupõe homens capazes de trabalhar juntos apesar de suas diferenças. Quando medo, ressentimento, ideologia ou propaganda transformam o outro em inimigo, a fraternidade deixa de constituir princípio vivido e converte-se em palavra vazia. O maçom não deve alimentar divisões indiscriminadamente; deve submetê-las ao esquadro da razão e ao compasso da consciência.

A história oferece numerosos exemplos de crises utilizadas para ampliar poderes governamentais, assim como registra ocasiões em que intervenções públicas extraordinárias foram necessárias para proteger populações. Por isso, o pensamento crítico exige cautela diante de ambos os extremos. Nem toda decisão estatal constitui tirania, assim como nenhuma autoridade deve receber confiança ilimitada. Decretos, políticas sanitárias, decisões judiciais, ações administrativas e discursos públicos devem permanecer sujeitos à Constituição, às evidências, à transparência, ao contraditório e à responsabilização.

Também as informações que circulam socialmente precisam passar pelo mesmo exame. Em momentos de elevada ansiedade coletiva, afirmações extraordinárias, denúncias políticas, explicações conspiratórias e certezas científicas prematuras podem prosperar simultaneamente. A atitude iniciática não consiste em aceitar a narrativa oficial por obediência, nem a rejeitar por princípio. Consiste em investigar, confrontar fontes, distinguir evidência de interpretação e conservar a liberdade interior diante das paixões coletivas.

A fraternidade constitui, portanto, uma resistência moral à fragmentação. Divergências sobre saúde pública, política, segurança, direitos, propriedade ou organização social não deveriam transformar cidadãos em inimigos permanentes. O abraço fraterno simboliza algo mais profundo que a proximidade física: representa o reconhecimento da dignidade do outro. Reconstruir essa proximidade exige coragem para discordar sem odiar e para defender direitos sem abandonar deveres.

A liberdade não desaparece somente quando alguém rompe suas correntes exteriores; pode desaparecer antes, quando o medo domina o julgamento e o adversário deixa de ser reconhecido como irmão. Ao maçom compete vigiar simultaneamente o abuso do poder e os excessos de suas próprias paixões. Sob a inspiração do Grande Arquiteto do Universo, sua tarefa é conservar razão, coragem e fraternidade, fazendo da consciência esclarecida a primeira fortaleza da liberdade.

Bibliografia Comentada

1.      ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. A obra auxilia na compreensão dos mecanismos políticos e sociais pelos quais ideologia, propaganda, isolamento e enfraquecimento dos vínculos humanos podem favorecer formas autoritárias de organização do poder.

2.      HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Fundamenta a reflexão sobre medo, segurança e autoridade, mostrando como a busca humana por proteção participa da formação do poder político e suscita questões permanentes sobre liberdade e obediência.

3.      MILL, John Stuart. Sobre a liberdade. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2017. Oferece fundamento essencial à defesa da autonomia individual e à análise dos limites legítimos da interferência estatal e da pressão exercida pela maioria sobre o indivíduo.

4.      POPPER, Karl R. A sociedade aberta e seus inimigos. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1974. Sustenta a defesa racional das instituições abertas, da crítica e da possibilidade de corrigir decisões políticas, contrapondo o debate crítico às pretensões de poder imunes à contestação.

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