Charles Evaldo Boller
Poucas forças alteram tão profundamente a convivência humana
quanto o medo. Em situações de crise, ele pode despertar prudência e
solidariedade, mas também favorecer intolerância, submissão e ruptura dos
vínculos sociais. Ao maçom cabe examinar criticamente esses fenômenos, sem
substituir um temor por outro. Defender a liberdade exige discernimento para
distinguir autoridade legítima de arbítrio, prevenção de opressão e prudência
de servidão.
A filosofia política demonstra que liberdade e segurança
convivem em permanente tensão. Thomas Hobbes percebeu que o medo pode levar os
homens a transferirem amplos poderes à autoridade em busca de proteção; John
Stuart Mill, por sua vez, advertiu para os perigos da coerção exercida não
apenas pelo Estado, mas também pela opinião dominante. A lição permanece atual:
nenhuma sociedade livre pode dispensar medidas destinadas ao bem comum, mas
toda restrição excepcional precisa ser proporcional, fundamentada, fiscalizável
e limitada no tempo.
É nesse ponto que o simbolismo maçônico adquire força formativa.
A construção do Templo pressupõe homens capazes de trabalhar juntos apesar de
suas diferenças. Quando medo, ressentimento, ideologia ou propaganda
transformam o outro em inimigo, a fraternidade deixa de constituir princípio
vivido e converte-se em palavra vazia. O maçom não deve alimentar divisões
indiscriminadamente; deve submetê-las ao esquadro da razão e ao compasso da
consciência.
A história oferece numerosos exemplos de crises utilizadas para
ampliar poderes governamentais, assim como registra ocasiões em que
intervenções públicas extraordinárias foram necessárias para proteger
populações. Por isso, o pensamento crítico exige cautela diante de ambos os
extremos. Nem toda decisão estatal constitui tirania, assim como nenhuma
autoridade deve receber confiança ilimitada. Decretos, políticas sanitárias,
decisões judiciais, ações administrativas e discursos públicos devem permanecer
sujeitos à Constituição, às evidências, à transparência, ao contraditório e à
responsabilização.
Também as informações que circulam socialmente precisam passar
pelo mesmo exame. Em momentos de elevada ansiedade coletiva, afirmações
extraordinárias, denúncias políticas, explicações conspiratórias e certezas
científicas prematuras podem prosperar simultaneamente. A atitude iniciática
não consiste em aceitar a narrativa oficial por obediência, nem a rejeitar por
princípio. Consiste em investigar, confrontar fontes, distinguir evidência de
interpretação e conservar a liberdade interior diante das paixões coletivas.
A fraternidade constitui, portanto, uma resistência moral à
fragmentação. Divergências sobre saúde pública, política, segurança, direitos,
propriedade ou organização social não deveriam transformar cidadãos em inimigos
permanentes. O abraço fraterno simboliza algo mais profundo que a proximidade
física: representa o reconhecimento da dignidade do outro. Reconstruir essa
proximidade exige coragem para discordar sem odiar e para defender direitos sem
abandonar deveres.
A liberdade não desaparece somente quando alguém rompe suas
correntes exteriores; pode desaparecer antes, quando o medo domina o julgamento
e o adversário deixa de ser reconhecido como irmão. Ao maçom compete vigiar
simultaneamente o abuso do poder e os excessos de suas próprias paixões. Sob a
inspiração do Grande Arquiteto do Universo, sua tarefa é conservar razão,
coragem e fraternidade, fazendo da consciência esclarecida a primeira fortaleza
da liberdade.
Bibliografia Comentada
1.
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São
Paulo: Companhia das Letras, 2012. A obra auxilia na compreensão dos mecanismos
políticos e sociais pelos quais ideologia, propaganda, isolamento e
enfraquecimento dos vínculos humanos podem favorecer formas autoritárias de
organização do poder.
2.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins
Fontes, 2003. Fundamenta a reflexão sobre medo, segurança e autoridade,
mostrando como a busca humana por proteção participa da formação do poder
político e suscita questões permanentes sobre liberdade e obediência.
3.
MILL, John Stuart. Sobre a liberdade. São Paulo:
Penguin Classics Companhia das Letras, 2017. Oferece fundamento essencial à
defesa da autonomia individual e à análise dos limites legítimos da
interferência estatal e da pressão exercida pela maioria sobre o indivíduo.
4.
POPPER, Karl R. A sociedade aberta e seus
inimigos. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1974. Sustenta a defesa
racional das instituições abertas, da crítica e da possibilidade de corrigir
decisões políticas, contrapondo o debate crítico às pretensões de poder imunes
à contestação.

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