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sexta-feira, 9 de maio de 2025

Em que Nível se Encontra o Processo de Estudos de uma Potência Maçônica?

 Charles Evaldo Boller

 

Para avaliar o nível de desenvolvimento de um processo de estudos em uma potência maçônica, é essencial partir de um diagnóstico elementar da situação observada. Esse diagnóstico deve considerar elementos concretos e subjetivos que compõem as práticas educativas dentro da instituição, levando em conta a estrutura organizacional, os objetivos do ensino e os resultados obtidos até o momento.

 

O processo de estudos em uma potência maçônica pode se situar em três níveis distintos: instrutivo, educativo ou formativo. A identificação do nível depende de como os conteúdos são abordados e do impacto que essas práticas exercem sobre os membros da organização.

 

O nível instrutivo caracteriza-se pela transmissão de conhecimentos específicos, geralmente voltados para a compreensão de rituais, símbolos e práticas tradicionais da Maçonaria. Nesse contexto, a ênfase recai sobre a repetição e a memorização, com o objetivo de consolidar práticas ritualísticas e normativas. O aprendizado instrutivo, embora fundamental para a preservação dos costumes, tende a ser mais rígido e pouco reflexivo.

 

Já o nível educativo amplia a abordagem instrutiva ao integrar reflexões sobre os conteúdos transmitidos. Ele promove uma compreensão crítica e contextualizada, incentivando os membros a estabelecer conexões entre os saberes maçônicos e suas experiências pessoais e sociais. No âmbito educativo, o maçom não apenas memoriza, mas compreende e aplica os ensinamentos em situações diversas, o que fortalece a interiorização dos princípios éticos e filosóficos da Ordem.

 

Por fim, o nível formativo representa o estágio mais profundo e abrangente do processo de estudos maçônicos. Nessa etapa, os conhecimentos adquiridos são ressignificados continuamente, promovendo o autodesenvolvimento e a transformação pessoal. O aprendizado formativo desperta a consciência crítica, aprimora a capacidade de liderança e fortalece o compromisso com os valores humanitários e filosóficos da Maçonaria. Ele não se limita ao contexto maçônico, mas se expande para a vida cotidiana do iniciado.

 

Para determinar em que nível se encontra uma potência maçônica, é necessário observar os métodos de estudo adotados, os objetivos estabelecidos e os resultados percebidos na prática diária dos irmãos. Se a ênfase recai exclusivamente na instrução ritualística, pode-se dizer que o processo está no nível instrutivo. Caso as atividades promovam reflexões e debates sobre os ensinamentos, caminhando para uma aplicação prática e crítica, identifica-se o nível educativo. Se, no entanto, o processo está voltado para a formação integral do maçom, com foco no desenvolvimento humano e filosófico, conclui-se que se encontra no nível formativo.

 

A evolução de um processo maçônico do nível instrutivo para o formativo requer um planejamento de ensino coerente, que valorize tanto a preservação das tradições quanto a reflexão crítica e o desenvolvimento pessoal. A potência maçônica que almeja fortalecer seu processo de estudos precisa investir em práticas educativas diversificadas, promover espaços de diálogo e incentivar a aplicação dos conhecimentos na vida prática.

 

Em conclusão, identificar o nível em que se encontra o processo de estudos em uma potência maçônica possibilita direcionar ações pedagógicas que contribuam para o aprimoramento contínuo dos irmãos. A partir de um diagnóstico claro e fundamentado, é possível elaborar estratégias que garantam uma formação mais completa, contemplando tanto a tradição quanto a modernidade na busca do aperfeiçoamento humano.

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Alegria de Mestre Maçom

Consideração ideal ressaltando o que motiva o mestre maçom em sua arte de facilitador de treinamento em loja.

Charles Evaldo Boller


O mestre maçom tem compromisso fundamental para com a Humanidade: servir como facilitador ao crescimento de seus irmãos.

Esta séria responsabilidade faz dele multiplicador dos fundamentos que a ordem maçônica pretende com toda a sua estrutura filosófica voltada para a evolução humana. A grande alegria do mestre maçom está ligada diretamente à sua consciência de concorrer para o objetivo comum, com as perspectivas de desenvolvimento permanente dos que estão ao seu lado, em loja.

O ânimo do mestre maçom é resultado de trabalho entusiástico junto a seus irmãos, onde aplica critérios para obter a Verdade que alimenta necessidades metafísicas, com vistas a progredir em sentido lato. Sempre disposto a ouvir mais que falar, sua mente encontra-se aberta para escutar novas e inusitadas propostas filosóficas de seus pares. Está consciente que a sociedade humana carece de novas ideias para orientar-se, e que ele e seus irmãos têm a possibilidade de desenvolverem pensamentos de novas e inusitadas ideias para a evolução humana.

Em loja o mestre maçom desenha ideias na prancha de traçar, de onde podem eclodir novas propostas intelectuais depois de submetidas ao crivo da razão. Nessa linha ele se confronta com argumentações diversas, o que anima o ambiente de forma lúdica. Em loja questiona-se tudo para propiciar a obtenção de novos horizontes na iluminação dos sentidos e da razão no objetivo de elucidar o porquê da existência do Universo e do seu papel nesse drama cósmico.

O mestre maçom não é professor.

Tem o dever de ensinar fazendo os outros pensarem. O modelo vem de Sócrates e sua maiêutica, onde ele efetuava perguntas e provocações verbais de modo a induzir aquele que com ele conversava a descobrir, pela razão, a sua própria verdade adormecida na mente. O objetivo era apenas despertar as ideias ou, como afirmava o sábio, "parir" novos pensamentos. O uso da técnica socrática fica evidente numa das definições do Rito Escocês Antigo e Aceito, quando este é descrito como um sistema de numerosos graus, dentro do qual o ensino é permanente, não pelas palavras do presidente ou do orador, mas principalmente pelo trabalho intelectual árduo desenvolvido pelo adepto. O mestre maçom é apenas o facilitador que assiste ao "parto" das novas ideias.

A partir dessa base o adepto precisa saber o motivo que o leva a aprender alguma coisa e qual o ganho pessoal que advirá desse esforço. O maçom em processo evolutivo justifica o esforço em aprender quando o assunto liga-se a situações reais do cotidiano. Fica mais interessado em obter Conhecimento se o aprendizado trata de valores intrínsecos de autoestima, desenvolvimento pessoal e possibilidade de melhoria da qualidade de vida. Sócrates discutia em diálogos, os mestres maçons o fazem em grupo, em loja, o que potencializa os resultados e o interesse em pensar com liberdade. Usam dicotomias para encontrar soluções práticas que permitam aos presentes melhorarem como pessoa. Assim, em múltiplas fases de tese, antítese e síntese desenvolvidas em loja o método é exemplo aperfeiçoado de ensino que, inclusive, serve de exemplo para as instituições de ensino superior e de adultos na sociedade.

Não é método pedagógico onde o treinando não participa da construção do currículo nem da formação do conteúdo, portanto passivo, mas usa de técnica que ensina e estimula o obreiro a pensar com discernimento e em assunto do seu interesse, com conteúdo, nível e ritmo ditado pelos próprios participantes da sessão. O facilitador fornece o tema e orienta os trabalhos sem participar dos debates nem apoiar um dos lados, preferencialmente deixa os presentes conduzirem o assunto e só atua para trazer o assunto de volta ao tema em casos de desvios. O facilitador pode ser qualquer mestre maçom da loja, não necessariamente luzes ou dignidades.

O mestre maçom é facilitador por excelência para transmitir e adquirir conhecimentos numa via de mão dupla onde o facilitador e os presentes numa sessão transmitem conhecimentos uns para os outros. Em sentido lato o sistema ensina basicamente a viver bem e de acordo com valores e princípios de disciplina e moralidade elevadas. O maçom evoluído dentro desse sistema ensina a desfrutar a vida em equilíbrio com a Natureza onde ele acaba por viver em harmonia dentro da sociedade o que retorna para ele de diversas formas positivas.

A grande alegria do mestre maçom facilitador é a sua probabilidade de encaminhar outros para a plenitude humanitária: aquela que treina a consciência apurada enquanto pessoa. Isso não é possível se o maçom não colocar o espírito acima da matéria, o que constitui um dos princípios basilares do aprendizado e da vida: sem isso o método não funciona. A espiritualidade proporciona a paz dentro do homem e conduz à prática de Justiça, prudência e serenidade que levam o adepto a viver sua liberdade conquistada.

Essa liberdade é incutida no maçom desde seus primeiros passos na cerimônia de iniciação, ocasião em que, de cego conduzido passa a obter visão para combater sua heteronomia, caracterizada pelo medo de tomar conta da própria vida ou falta de coragem de livrar-se da imposição da vontade de outrem. Quando finalmente vê a Luz ele passa a cultivar o valor da autonomia. Assim, ele obtém orientação para livrar-se do materialismo que leva o cidadão a se escravizar por objetos, vícios degradantes, apego ao brilho de joias e desejos que conspurcam o magnífico templo que é seu corpo em todas as suas dimensões. Dessa forma o mestre maçom distingue-se dos demais cidadãos, o que pode durar pelo resto de seus dias de multiplicador de laços de amor. Ele entende a lição onde aquele que ama a instrução também ama o Conhecimento.

O amor dá ênfase de viver os dias em equilíbrio com a Natureza. Nessa liberdade que convive com outras liberdades: metafísica, política, moral, econômica e outras, o mestre maçom obtém alegria ao desfrutar da liberdade como possibilidade, onde ele pode decidir-se por caminhos diferentes que conduzem ao mesmo fim e a tornar-se livre em sentido lato. A liberdade é para o maçom uma questão de escolha por motivação orientada para o bem. Não se trata de autodeterminação absoluta, de tudo ou nada, mas de problemas onde ele é chamado a decidir a medida, a condição ou qual o caminho seguir para garantir liberdade continuada. Algo que pode ser considerado causa em si mesma e garantida dentro de certas possibilidades que aumentam conforme treina e especializa as percepções sutis com o desenvolvimento equilibrado de racionalidade e espiritualidade.

Desperta a alegria que nutre a satisfação de estar vivo, mesmo que debaixo do perigoso sistema de coisas que o homem inventou para seu próprio prejuízo. A liberdade desperta a alegria que leva o mestre maçom a desempenhar seu ofício apenas pelo prazer de abrir novos e inusitados caminhos, marcado por possibilidades, haja vista o estado progressivamente selvagem da sociedade que o cerca. Surge a Fraternidade, o ambiente repleto de afeto que o leva a propósitos acertados e conduzidos por consciência treinada no convívio com outros maçons. O ambiente de confiança cria um espaço energeticamente positivo ao fortalecimento espiritual, disciplinado, erudito onde o mestre maçom não tem compromisso com o erro e abre sua mente para despejar seus pensamentos ao grupo. Não existe o medo de passar vergonha diante dos outros porque vigora a tolerância ao seu pensamento.

O alimento para a alegria do mestre maçom facilitador vem da satisfação de ver seus irmãos usufruindo da vida pela aprendizagem que faz sentido para o bem viver, onde a razão leva à compreensão do sentido da vida. O maçom evolui e a sociedade progride, sai da progressiva barbárie em andamento.

O mestre maçom facilitador alegra-se ao ver o irmão crescer de todas as formas e se fortalece para avançar pela estrada das virtudes por seus próprios méritos. Ele entende que o maçom em evolução, depois que lhe foi dada a luz, é responsável para dirigir seus passos e tomar decisões na sua vida. Desta forma o homem estudioso conquista para si o tratamento que lhe permite ser visto pelos outros com respeito e afirma o quanto é autônomo e capaz de dirigir-se através de seu próprio discernimento.

A alegria do facilitador fundamenta-se essencialmente no crescimento que ele pode levar ao seu irmão e onde o Conhecimento se torna rocha e fortaleza. É impossível de retratar para aquele que ainda não experimentou em si mesmo a felicidade de ver o outro evoluir com ética, envolvido e comprometido em cuidados para si mesmo, sua família e a sociedade. É indescritível o júbilo resultante daquilo que a ação propicia ao fazer outros responderem com estudo e criatividade para as demandas de um mundo em permanente mudança. Heráclito argumentou que "tudo se move", "tudo escorre", "nada permanece imóvel e fixo", "tudo muda e se transmuta", até mesmo a rocha é fluída em seu tempo relativo, quanto mais o pensamento do homem. O mundo muda constantemente e o homem treinado tem mais chance de sobreviver com qualidade mesmo se o ambiente é hostil ao cidadão honesto e correto. Pela experiência da felicidade que promove para os outros o facilitador vai se desconstruindo e reconstruindo constantemente: seu pensamento possui a fluidez do átomo e a tenacidade do aço.

A Maçonaria "empurra" o maçom a encontrar recursos dentro de si mesmo onde absorveu o Conhecimento que o torna versátil e engenhoso para escapar às armadilhas do sistema humano. Ao observar o panorama ao seu redor, decorrente de seu sucesso, o facilitador sente prazer em conhecer o sentido da vida porque está munido com o escudo analítico e a espada da crítica. Sua alegria é resultado do fato de garantir seu futuro apoiado na garantia de haver propiciado futuro melhor para outros. Essa consciência o faz servir a humanidade enquanto serve sua própria vida.

A Maçonaria tem por alvo a ação moral dentro da meta de cada adepto manter-se livre e de bons costumes. Os temas que debatem em loja estão usualmente ligados com a vida criada pelo Grande Arquiteto do Universo. Assuntos que não despertam interesse são evitados para não perder tempo. Se o mestre maçom facilitador não simplifica o entendimento de seu irmão com sua própria alma é certo que aquele que recebe a instrução não o fará com entusiasmo. Conhecimento que não desperta interesse de nada serve!

O estudo sério e sereno tem necessidade de alegrar quem participa do processo de aprendizagem. Convém usar de metodologia e didática que ressaltem a formação ética e despertem valores adormecidos dentro do maçom em evolução. A sociedade, infelizmente, a todos condiciona para servirem quais escravos. O conhecimento desenvolvido em grupo, em loja, desenvolve-se porque oportuniza e cria o ambiente apropriado para lidar com questões de valores que servem para a vida e desenvolvimento de competências às quais se atribui valor. Principalmente valores que permitem ao adepto tomar conta de sua vida como pessoa livre, com qualidade, e repleta de reais valores humanos.

O ambiente de estudo é sério, mas também lúdico e agradável, anima a assimilação de conteúdos e facilita a compreensão e o estudo. O facilitador fica extasiado quando obtém sucesso em passar Conhecimento que seja colocado logo em prática e facilita a vida dos irmãos. Principalmente se os resultados venham em resultado do despertar moral que conduz a progresso espiritual e material.

A experiência de vida do maçom em crescimento é base do aprendizado. Todos os maçons possuem inteligência e desenvoltura que precisa ser compartilhada. Disso o facilitador se aproveita para obter das diferenças individuais a dinâmica de grupo que possibilita o treinamento eficiente e lúdico de onde vem o sucesso dos irmãos e constitui o grande prêmio do facilitador! Dá-lhe significado à vida e trabalho dentro do objetivo político-social da Maçonaria. Valoriza seu trabalho assumido como missão e vocação. O resultado prático é para o facilitador uma massagem para a alma e regozijo ao coração. É a sua forma de alegrar-se porque cresce a possibilidade de contribuir para a edificação de sociedade melhor e justa. Tirar o homem selvagem da barbárie de uma sociedade em progressiva degradação e conduzi-lo a um estado evoluído é sublime, pois vai ao encontro dos desígnios do Grande Arquiteto do Universo.

O maçom aprende melhor quando os conceitos e Conhecimentos em que está trabalhando estejam relacionados com alguma aplicação prática e que de alguma forma lhe sejam úteis. O facilitador se alegra quando o seu irmão melhora porque consegue aplicar o Conhecimento na prática, tornando-se mais humano e por suas qualidades se destaca na sociedade.

O facilitador motivado e alegre não dá aulas. Ele passa informações assimiláveis e práticas porque o maçom que estuda não é gravador ou máquina é um ser que pensa, processa informações. O dever do facilitador é contribuir com a formação do outro de modo que aquele possa tornar-se pessoa melhor. O maçom em formação apenas deseja saber, obter o Conhecimento com o qual possa trabalhar em seu ofício e de replicar esse mesmo Conhecimento para outros, funcionando assim como multiplicador de maravilhosa filosofia de vida.

Colocado em prática o Conhecimento conduz os irmãos a serem mais humanos. Predispõem ao desenvolvimento do ambiente fraterno onde se encontra o afeto que a sociedade não supre. Alimenta a convivência em paz e trato amistoso onde vigoram preceitos de tolerância aos seus pensamentos e crenças. Com isso desenvolve-se a única força no Universo capaz de resolver todos os problemas humanos: o Amor Fraterno.

A tolerância possibilita aceitar os outros irmãos assim como são e isso eleva a autoestima de todos os envolvidos no processo de desenvolvimento do Conhecimento. Tal ambiente especial desenvolve a confiança e a fé que responde ao desejo do facilitador elevar-se à plenitude de sua missão de ensinar. O facilitador alegre não aplica lições aos demais, apenas facilita a passagem daqueles que escalam os mesmos graus em direção ao Conhecimento que liberta. Sua grande lição é a alegria em deduzir que dessa lide toda o que ele mais aprende é conhecer a si mesmo para honra e à glória do Grande Arquiteto do Universo.

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Rousseau e a Educação Natural

Educação natural e liberdade.

Charles Evaldo Boller


Rousseau (1712-1778) disse que: "Toda a nossa sabedoria consiste em preconceitos servis; todos os nossos usos não são senão sujeição, embaraço e constrangimento. O homem civil nasce, vive e morre na escravidão; ao nascer, envolvem-no em um cueiro; ao morrer, envolvem-no em um caixão; enquanto conserva sua figura humana está acorrentado a nossas instituições". (Emílio, ou da Educação, Rousseau, São Paulo, Difel). Rousseau foi o mentor inicial da educação natural, cujas ideias foram depois reforçadas, melhor definidas e ampliadas por Kant (1724-1804). Estabeleciam um gradativo retorno à natureza, não de forma a transformar o homem em selvagem, mas pela naturalização comportamental e espontaneidade dos sentimentos.

Papéis significativos foram também desempenhados por Diderot (1713-1784) e Helvétius (1715-1771), quanto à importância no desenvolvimento pessoal usando como mola propulsora as paixões positivas e que rejuvenesceriam o mundo moral. Para obter a liberdade individual, as paixões positivas desempenhariam valor vivificador no mundo moral. Os combates às paixões do maçom dizem respeito àquelas associadas ao vício e licenciosidade, já as paixões ligadas às virtudes e benéficas à educação natural do homem são fortemente incentivadas.

A escravidão sempre se baseia na falta de educação; é muito mais fácil dominar o ignorante, violento e amoral que o indivíduo esclarecido, ou iluminado pela educação. Quando a escola era domínio da religião, ela disseminava a semente da dominação absoluta do rei para assuntos políticos e da religião para assuntos metafísicos; assim compartilhavam o poder apenas entre si. A educação antiga só era de fato acessível às elites e em todas as eras sempre representa uma forma de poder. Desde a invenção da escrita a manutenção do Estado era realizada pelo escriba, cargo que só os mais ricos e influentes obtinham. Em quase todas as civilizações a educação era controlada pela Teocracia - isto sempre restringiu o acesso ao conhecimento técnico aos iniciados na religião do Estado. No antigo Egito, Mesopotâmia, China, Índia, na tradição hebraica, enfim, todas as civilizações centralizaram o conhecimento nas castas mais abastadas da população, e principalmente, em iniciados em mistérios religiosos da religião do Estado. Assim funcionava até que os iluministas introduziram modificações na educação.

A educação natural, aquela voltada para a felicidade individual, laica e não intelectualizada reduziu a dominação absolutista. Normalmente em convulsões revolucionárias. O grande valor do trabalho de Rousseau na pedagogia é o fato de dar ao ensino público uma conotação política e de valorização do homem em todos os níveis sociais, disposição exposta quando afirma que a educação pública deve passar necessariamente por formação cívica, de identidade do cidadão com o país. Afirmava não ser a educação pública ideia dele e quem tivesse interesse, que lesse 'A República', de Platão. O ensino público e gratuito foi o veículo mais importante do Iluminismo que preconizava pelo uso da razão no combate às superstições e obscurantismo religiosos.

A Maçonaria é instrumento importante, não o único, na defesa da escola leiga, não relacionada a religião e função do Estado. Entre outras acusações, mas principalmente pelo posicionamento para a educação, a Ordem Maçônica foi objeto de violentas reações do poder dos estados, bem como, de bulas papais de condenação; ódio que até hoje não foi revogado. O medo dos poderosos não é tanto pela forma esotérica das reuniões dos maçons, mas principalmente pelo fato de pela educação natural libertar o pensamento do cidadão, conscientizando-o de seu papel na sociedade e no Universo. A ordem maçônica não concorda com posicionamentos radicais ou de concentração de poder, e isto lhe rende poderosos inimigos. A vingança de insidiosos perseguiu maçons; miríades morreram para manter a ação de educar o homem do povo em direção à liberdade.

Em sua época, Rousseau teve de fugir diversas vezes da perseguição. As bases de suas considerações pedagógicas declaravam que o homem em estado natural é bom, mas a sociedade dominada pela hipocrisia das instituições o corrompe, destruindo sua liberdade; dizia: - "o homem nasce livre e por toda parte encontra-se a ferros". Em termos políticos defendia que o povo é soberano, e para tal há necessidade de educar o ser humano integral; desenvolveu a ideia da educação natural - nos moldes do que os nobres praticavam em certa fase histórica de Atenas, na Grécia antiga, e hoje, na Maçonaria, tal procedimento é representado simbolicamente pelo homem esculpindo a si mesmo de dentro da rocha disforme.

A educação natural rejeita toda e qualquer tentativa de intelectualização da educação; na Maçonaria qualquer pessoa tem acessos e facilitadores a complexos pensamentos filosóficos apenas por nutrir-se da vasta coleção de símbolos e alegorias.

A linha de pensamento iluminista foi fortemente influenciada pela obra intelectual de Rousseau na educação, inclusive vai além do ato pedagógico e de formação humana que ele apresenta em 'Emílio' e depois complementa em 'Do Contrato Social'. Em conjunto estes trabalhos estabelecem conceitos de cidadania natural do homem na sociedade. O objetivo de Rousseau sempre foi o homem do povo; do cidadão com vistas ao desenvolvimento do homem natural; que não deve ser confundido com o homem da natureza, analisado em seu 'Discurso Sobre a Origem da Desigualdade Entre os Homens'.

O homem natural é o melhoramento do homem da natureza, o cidadão como essência do homem civil, mesmo quando este convive em ambiente hostil às virtudes como acontece com o maçom hodierno. O afastamento de Emílio da influência perniciosa da sociedade é copiado pela Maçonaria quando suas reuniões acontecem longe e isoladas do mundo externo; num mundo idealizado, igualitário, perfeito para o desenvolvimento da educação do homem natural, que:

  • É completo em si, a unidade e absoluto total, aquele que tem relação apenas para consigo e a coletividade;
  • Como homem civil não é nada mais que uma fração em relação ao corpo social;
  • Como indivíduo usa da razão e da universalidade da natureza do homem para usufruto da felicidade;
  • O homem é em essência um representante da espécie humana que, dotado de razão, deve desenvolver-se através da educação natural para ocupar seu espaço no Universo.

Em seus estudos Rousseau define que o homem não se reduz apenas a sua condição intelectual, não é apenas razão e reflexão, mas condicionável pela educação a controlar sentidos, emoção, instintos e sentimentos, numa educação natural ativa voltada para usufruto da vida, por ação proativa e movimentada pela curiosidade. Algo assim é absorvido na vivência da rígida disciplina ritualística existente nos templos da Maçonaria, local onde muito de seu pensamento voltado para a educação natural foi adaptado e veio até nossos dias. A pretensão é a mesma da dos tempos de Rousseau - libertar o homem e torná-lo feliz; a Maçonaria apenas propicia os meios e o local para o homem se autoeducar.

Na ordem maçônica pratica-se a educação de si mesmo, a educação natural; que já é parte do projeto do homem. O entendimento é simples se considerar que o livre arbítrio permite apenas a existência da autoeducação. É bem diferente da educação voltada para o conhecimento, dirigida quase que exclusivamente para a escravidão, à alienação pelo trabalho. A educação natural está voltada para a liberdade do homem em sentido lato e através do qual honra o ato criativo do Grande Arquiteto do Universo.


Bibliografia

1. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda, História da Educação e da Pedagogia, Geral e Brasil, ISBN 85-16-05020-3, terceira edição, Editora Moderna limitada., 384 páginas, São Paulo, 2006;

2. CAPRA, Fritjof, A Teia da Vida, Uma Nova Compreensão Científica dos Sistemas Vivos, título original: The Web of Life, a New Scientific Understandding Ofliving Systems, tradução: Newton Roberval Eichemberg, ISBN 85-316-0556-3, primeira edição, Editora Pensamento Cultrix limitada., 256 páginas, São Paulo, 1996;

3. CAPRA, Fritjof, As Conexões Ocultas, Ciência para a Vida Sustentável, título original: The Hidden Connections, tradução: Marcelo Brandão Cipolla, 13ª edição, Editora Pensamento Cultrix limitada., 296 páginas, São Paulo, 2002;

4. ROHDEN, Humberto, Educação do Homem Integral, primeira edição, Martin Claret, 140 páginas, São Paulo, 2007;

5. ROUSSEAU, Jean- Jacques, Emílio ou Da Educação, R. T. Bertrand Brasil, 1995;

6. ROUSSEAU, Jean-Jacques, A Origem da Desigualdade Entre os Homens, tradução: Ciro Mioranza, primeira edição, Editora Escala, 112 páginas, São Paulo, 2007;

domingo, 17 de setembro de 2023

Busca da Verdade

Arte de modificar-se

Charles Evaldo Boller


Antiga Prece Judaica

Da covardia que foge da nova verdade,
Da preguiça que se contenta com meias-verdades,
Da arrogância que pensa que sabe toda a verdade,
Oh! Deus da verdade, livrai-nos!

Modificar-se é doloroso!

Por isso, na Maçonaria isto é feito em grupos denominados lojas.

A poucos é dado perceber o significado da Iluminação da iniciação em espírito: ocasião em que o maçom acorda!

A saída da minoridade da qual o próprio homem é responsável é a incapacidade de usar dos próprios recursos intelectuais, físicos e espirituais sem a direção de outra pessoa. A culpa desta menoridade é do próprio homem quando a causa não é resultado de pouco entendimento, mas na ausência de coragem de servir-se de seus próprios potenciais sem que outro o dirija. O crescimento só se manifesta quando o homem reúne coragem para usar do próprio entendimento. A isso a Maçonaria denomina iluminação, polidez, esclarecimento.

O obscurantismo bloqueia o homem na iniciativa de busca de pensamentos novos. Aos covardes resta andar pelo meio confortável onde ninguém se sente ameaçado. Permanece sentado em sua zona de conforto e não evolui.

Quando em loja cada maçom está sujeito a modificar-se. A iluminação arma-o com tolerância ao que o outro diz. Todos têm pontos de vista diferentes e isto é o que possibilita a mudança de cada um. É no recôndito da racionalidade individual que surge a vontade de mudança para melhor, baseado naquilo que outros dizem e fazem. Esta é a forma de relacionamento que são encontrados no filosofar do Rito Escocês Antigo e Aceito.

O simples fato de não se possuir resposta para todas as questões leva à postura humilde de tentar entender o que o outro deseja transmitir. A Verdade é construída pela soma dos intelectos e mesmo esta Verdade não é absoluta, final. Cada intelecto possui apenas fragmentos da verdade e de cuja soma todos se beneficiam.

Ser tolerante implica em sofrimento: sem o que deixa de ser tolerância. Excesso de tolerância anula a própria tolerância. Então, mesmo na presença de dor e sofrimento é imperativo receber novas ideias, quando estas passam pelo crivo da própria lógica com sucesso.

Assim funciona a busca pela Verdade Metafísica dentro da Maçonaria. São pequenos passos. Um de cada vez. O que, ao longo dos dias, produz homens sábios que fazem a diferença na sociedade.

A Nível

Espiritualidade estável.

Charles Evaldo Boller


No simbolismo maçônico, estar em nível e a prumo são condições do que está no lugar certo. Situação aprovada. Obreiro com obrigações da loja em dia: tesouraria, tronco de solidariedade, trabalhos filosóficos etc. Nível e prumo são símbolos que representam o trabalho do maçom, como construtor do Universo moral e material. Ambos relacionados com questões esotéricas e filosóficas, trabalhadas pela Maçonaria.

Nível é ferramenta com a qual o profissional de construção verifica se uma superfície está nivelada, já que para a edificação de um alicerce seguro é fundamental uma superfície no nível que representa a ideia que todos os maçons são iguais na Maçonaria no que diz respeito a seus pensamento e crenças.

Prumo é instrumento que permite aferir a verticalidade da parede sendo erigida: condição fundamental para assegurar estabilidade. Nível e prumo são ferramentas que simbolizam a igualdade que existe entre os irmãos e a sua retidão de caráter. O prumo simboliza a retidão do caráter do irmão. Jeová colocou uma regra de conduta ao povo de Israel, a qual deve ser seguida para que o povo escolhido se desenvolva reto como um muro a prumo.

É comum comparar-se o Universo material com a construção de um edifício, e este, simbolizado pelo templo maçônico, inspirado do templo de Jerusalém, é imitação do cosmo. O mapa celeste, conforme visto pelos antigos hierofantes caldeus e persas, é reproduzido no teto do templo maçônico no Rito Escocês Antigo e Aceito, onde a prática maçônica no interior do templo é o exercício da construção cósmica.

Nível e prumo são importantes ferramentas do labor construtivo que o maçom coloca em sua obra de autoconstrução. Com o nível se comprova a horizontalidade que ele adquire em seu trabalho de construção do seu edifício interno. O prumo mostra que o edifício está perfeito em sua verticalidade em busca de aperfeiçoamento espiritual.

Relacionam-se nível e prumo com os dois os sentidos que a Maçonaria dá ao edifício do caráter humano: horizontal, energia yin, vertical, energia yang.

O maçom cresce nos sentidos dos dois raios que formatam o Universo em sua expansão: extensão e profundidade, latitude e longitude, simplicidade e complexidade, tempo e espaço etc. O prumo, eixo vertical indica o sentido da ascensão em direção à sua elevação espiritual. O nível, eixo horizontal, indica o sentido da extensão em direção aos quadrantes da Terra nos assuntos relacionados a sua materialidade.

Na tradição maçônica o templo reflete o cosmo construído a prumo com o eixo do mundo, cujo centro é a estrela polar. Dela desce um eixo imaginário em torno qual o Universo gira. Como eixo do mundo é o instrumento pelo qual o Grande Arquiteto do Universo esquadreja e erige o Universo de horizonte a horizonte e de cima até em baixo.

Na estrutura fisiológica do ser humano utiliza-se a simbologia do nível e do prumo para representar o homem em sua posição horizontal, em equilíbrio com a natureza e na sua posição vertical em sua ascensão espiritual.

Estar à nível aponta a materialidade e estar a prumo representa a evolução espiritual necessária para a evolução conforme o projeto do Grande Arquiteto do Universo.


Bibliografia

1. BOUCHER, Jules, A Simbólica Maçônica, Segundo as Regras da Simbólica Esotérica e Tradicional, título original: La Symbolique Maçonnique, tradução: Frederico Ozanam Pessoa de Barros, ISBN 85-315-0625-5, primeira edição, Editora Pensamento Cultrix Limitada, 400 páginas, São Paulo, 1979;

2. CASTELLANI, José, Dicionário Etimológico Maçônico, M-N-O-P, Coleção Biblioteca do Maçom, ISBN 85-7252-152-6, terceira edição, Editora Maçônica a Trolha Limitada, 151 páginas, Londrina, 2002;

3. CASTELLANI, José, Dicionário Etimológico Maçônico, M-N-O-P, Coleção Biblioteca do Maçom, ISBN 85-7252-152-6, terceira edição, Editora Maçônica a Trolha Limitada, 151 páginas, Londrina, 2002;

4. FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de, Dicionário de Maçonaria, Seus Mistérios, seus Ritos, sua Filosofia, sua História, quarta edição, Editora Pensamento Cultrix Limitada, 550 páginas, São Paulo, 1989;

5. PUSCH, Jaime, ABC do Aprendiz, segunda edição, 146 páginas, Tubarão Santa Catarina, 1982;

6. QUEIROZ, Álvaro de, A Maçonaria Esotérica, Rito Escocês Antigo e Aceito, ISBN 978-85-370-1003-7, primeira edição, Madras Editora Limitada, 158 páginas, São Paulo, 2016;

A Utópica Ética Justa e Perfeita

Como viver uma utopia.

Charles Evaldo Boller


A filosofia maçônica considera a possibilidade de se praticar uma ética justa e perfeita, como um alvo a se atingir e não como possibilidade real. Tem a ver com um jargão comum, usado entre os maçons, que a cada sessão repete que os trabalhos foram justos e perfeitos, quando, em verdade, isso é impossível.

Se os preceitos filosóficos que norteiam as relações humanas contivessem pretensões de se obter o cumprimento de regras éticas, em condição de serem justas e perfeitas, não haveria necessidade de palácios de justiça ao redor do mundo. Todo ser humano compreenderia que a cada ação sua corresponde uma reação. Se a ação fosse baseada no amor, o retorno nas relações interpessoais, seria realizado na mesma moeda.

Mas o homem é extremamente competitivo, e cada um luta em manter o comportamento que lhe dê vantagens, daí os ânimos se acirrarem e a necessidade de se estabelecerem normas de conduta moral, que sustentem um código de ética, para que a convivência tenha um mínimo de respeito a limites preestabelecidos em leis; um recurso fraco inventado pelo homem para permitir uma convivência pacífica relativa. Portanto, considerar a ética como justa e perfeita é parte da visão idealizada da Maçonaria, com vistas a uma sociedade utópica, mas plausível. Sonham com condições ideais, assemelhadas às relações fraternas que vigoram dentro de seus templos.

A simples ideia justa e perfeita implica afirmar a existência de respostas ao comportamento humano, em termos absolutos, que estivessem desligadas das circunstancias envolvidas nas relações interpessoais, na geopolítica, nos contextos e nas culturas. A ética é complexa e envolve intrincado sistema de respostas para questionamentos contingentes e subjetivos.

A ética recebe impulsos de diversas fontes e fatores como, cultura, crença, religião, sociedades, e, principalmente, das necessidades e sonhos pessoais de posse, convivência e sobrevivência. Jean-Jacques Rousseau ilumina uma causa grave de conflitos: "o primeiro homem que inventou de cercar uma parcela de terra e dizer - isto é meu -, foi o autêntico fundador da sociedade civil. De quantos crimes, guerras, assassínios, desgraças e horrores teria livrado a humanidade se aquele, arrancando as cercas, tivesse gritado: - não, impostor!".

O que é ético numa cultura pode ser reprovado por outra. O estabelecimento de regras éticas, normalmente, é resultado de administração de conflitos, valores, ideologias ou princípios impostos por dilemas circunstanciais. Daí, não existe uma ética universalmente justa e perfeita, a não ser, o que intuíram grandes avatares da humanidade como, Cristo, Sócrates, Platão, Krishna, Moisés, Confúcio, Aristóteles e outros, que foram unânimes em recomendar a única lei dada aos cristãos: a lei do amor.

Ética é resultado de convulsões sociais intensas que envolvem filósofos, acadêmicos e elemento das sociedades em geral, que melhor contemplem a vida em comum das mais variadas influências culturais e comportamentais, ligados a situações particulares de cada grupo social, assim como é objeto de debates e estudos da comunidade maçônica mundial.

A Maçonaria, do alto de séculos de prática da dinâmica social, lançou a utopia de obter uma ética justa e perfeita, portanto, absoluta. Não que ela venha a obter isso em sua plenitude, mas, apenas, para fixar o rumo naquilo que o próprio homem estabelece, como sendo a vontade do Grande Arquiteto do Universo, em seu projeto da criatura humana inteligente.

É utopia, sim! Entretanto, o objetivo é tornar feliz a humanidade pelo amor, pelo respeito a diversidade do pensamento livre e à crença de cada um. A crença no poder do amor pleno constitui outra utopia, porque as variáveis são imensas e o comportamento humano dinâmico e emocional. Por isso, nas oficinas maçônicas, são promovidos de forma continuada, oportunidades de reflexão crítica, debates abertos e respeitosos, onde se colocam em prática as palavras de um dos principais nomes do Iluminismo na França, o irmão Voltaire: "não concordo com uma palavra do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo", citada ao livro de Jean-jacques Rousseau, O Contrato Social. Então, cabe continuar a perseguição de atingir a utopia de uma ética justa e perfeita baseada no amor fraterno, de modo a desenvolver homens evoluídos, conforme o que se imagina ser o pensamento e a ação do Grande Arquiteto do Universo.

A utópica ética justa e perfeita é alvo inatingível, mas o maçom tem a felicidade de sonhar com algo inalcançável como a perfeição absoluta, onde faz parte sonhar e trabalhar na busca contínua de uma hipotética e utópica ética apoiada no amor fraterno, justo e perfeito. Tais sonhos inatingíveis são a expressão íntima de busca da liberdade em termos ótimos, utópicos. A discussão permanente da ética maçônica constitui um nobre objetivo para a humanidade onde os obreiros da paz continuam a trabalhar em suas oficinas como aquilo que foi intuído pelos grandes pensadores, do presente e do passado, que gravaram seus pensamentos, para hoje e amanhã permitir uma vida plena de realizações, vivendo na prática aquilo que o homem considera alinhado ao projeto do Grande Projetista do Universo.


Bibliografia

1. ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de Filosofia, Dizionario DI Filosofia, tradução: Alfredo Bosi, ISBN 978-85-336-2356-9, quinta edição, Livraria Martins Fontes Editora Limitada, 1210 páginas, São Paulo, 2007;

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Memética na Maçonaria

A transmissão de conhecimento entre os maçons pela utilização de blocos de códigos simbólicos; estórias e parábolas.

Charles Evaldo Boller


Que fascínio exercem os contadores de histórias, romancistas e dramaturgos? Porque os seres humanos dedicam tantas horas concentrados, até alienados, em assistir filmes, ler livros ou jogar conversa fora? E como é gratificante ouvir o som das palmas de uma criança quando lhe é prometido um conto; júbilo este que se propaga entre adultos. São atitudes que certificam que a espécie humana é a única que troca estórias entre si. O hábito provavelmente estabeleceu-se na pré-história do homem, em momentos de ociosidade dentro das cavernas, onde contavam estórias entre os acontecimentos do dia. Isto propiciou o fato da maioria dos conceitos éticos e morais aportarem no presente por intermédio de parábolas. Em função disto determinou-se que a sociedade humana só está em seu atual desenvolvimento em resultado da transmissão dos mitos e de como estes influenciaram na psique humana; é tanto que, são as ficções as responsáveis pelas explicações das mais diversas realidades espirituais, transcendentais, sociais e cósmicas.

O iniciado na Ordem Maçônica é diversas vezes conduzido em viagens simbólicas; conduzem-no por sendas imaginárias que lhe são dadas a desbravar física, emocional e mentalmente. Para aumentar o impacto e aguçar a sensibilidade emocional e cognitiva, alguns destes passeios são feitos às cegas, com os olhos vendados. Mesmo na rigidez ritualística com que estes deslocamentos físicos são efetuados, em virtude da individualidade, cada indivíduo percebe-os psicológica e racionalmente a sua maneira, alicerçado em seus próprios referenciais, baseado nos mitos e sistemas de crenças previamente fixados pela sua experiência de vida.

Surge um questionamento: até onde estas jornadas da Maçonaria conduzem? Até a morte; a maior ameaça que pode atingir alguém. Cada vez que um maçom passa de grau por iniciação, dispara-se nele simbolicamente uma angústia existencial aterradora, experimenta o fim, a morte. Estas reiteradas mortes fictícias têm por objetivo negociar com o pavor da abominável destruição. Ao homem maçom é dado aprender a morrer para condições anteriores; a valores morais e éticos, e ao mesmo tempo é auxiliado emocionalmente a superar a angústia da morte. Resumindo: aprende a morrer bem, para viver bem. Para Sócrates, o homem virtuoso não pode sofrer nenhum mal, nem da vida, nem da morte. Nem da vida porque os outros podem lhe danificar os haveres ou o corpo, mas não lhe arruinar a harmonia interior e a ordem da alma. Nem na morte, porque, se existe um além, o virtuoso será premiado; se não existe, ele já viveu bem no aquém, ao passo que o além é como um ser no nada" (G. Reale). As religiões criaram mecanismos para atenuação emocional deste trauma: promessa de uma vida futura num jardim de delícias; restauração em um novo sistema de governo mais justo aqui na Terra mesmo; outras declaram que o adepto será levado a um lugar onde será servido por dezenas de virgens pela eternidade. O maçom, por experimentar repetidas mortes simbólicas, e havendo compreendido e praticado seu sentido simbólico, passa a gozar a vida em graus de harmonia correspondentes ao quanto ele absorveu e vivenciou daquelas experiências, e passa a ser afetado de forma positiva no conjunto de circunstâncias físicas e de relacionamento interpessoal; aproveitando no aquém as benesses de levar vida virtuosa.

A morte, por ser única, é destino que a mente humana não aceita, haja vista os genes imporem a sobrevivência a qualquer custo. Os psicodramas vividos nas passagens de grau, sabidamente lendas, objetivam e ensinam a morrer. Ao vivenciar a morte, de imediato o recipiendário normalmente alcança um entendimento razoável da mensagem, e, se mudar os seus parâmetros de vida, passa a viver cada vez melhor desde então. Entretanto, ele também é atingido por sugestões subliminares; outros pensamentos são incompreensíveis por não disporem de referenciais na base de seu entendimento. No exato instante da transferência da informação para o seu cérebro, a informação pode não ficar clara quanto ao objetivo, mas, ao longo do crescimento dentro do contexto da lenda do grau, ou em outros mais elevados, se houver esforço pessoal, despertarão percepções que linguagem alguma teria condições de verbalizar.

Porque os mitos se espalham e se mantém ao longo da linha do tempo? A ideia foi lançada pela primeira vez em 1976, por Richard Dawkins, que partiu do princípio de, em sendo as leis físicas verdadeiras, e, alicerçado na ação biológica da replicação; uma vida gera a outra vida apoiada nos genes, ele transportou os conceitos da imutabilidade das leis físicas e da capacitação replicante da genética para a capacidade humana em transmitir ideias. A cada unidade de informação ele denominou meme. Provinda do verbete grego mimeme, abreviando-o depois para meme apenas para ficar parecido com gene. Sugeriu que, assim como os genes induzem a desejar a sobrevivência pela replicação, também os memes se propagam e reproduzem no tempo pulando de um cérebro para outro. Ao aportarem no receptor, os princípios e conceitos recebidos são agrupados ao referencial existente, fundem-se ao que ele já possui. Se encontradas condições favoráveis, acabam em transformarem-se em algo aceitável, trabalhando no sentido de beneficiar seu utilizador; à semelhança das mortes sucessivas das iniciações maçônicas levarem a intuir o viver bem na vida aquém.

Considerando que "somente o sábio, que esmagou os monstros selvagens das paixões que lhe agitam no peito, é verdadeiramente suficiente a si mesmo: ele se aproxima ao máximo da divindade, do ser que não tem necessidade de nada" (W. Jäger), outras transações meméticas entre os maçons se fazem necessárias para o entendimento do que realmente a Maçonaria intenciona que cada um descubra durante sua edificação interna. Sem a troca memética não é possível descobrir que dentro de si encontra-se a lei que levará ao despertar para o culto do amor fraterno, verdade que a maioria dos grandes iniciados da história descobriram como solução única aos problemas da humanidade.

Que vindes fazer aqui? Se não for para transmitir memes às mentes de teus irmãos, quer perda de tempo maior? Depois de aprender, é só pensar, filosofar, contar histórias, enfim, transmitir memes; propiciar que os interlocutores efetuem ligações neurais e gerem em si o alimento para que se autoconstruam dentro do objetivo do "conhece-te a ti mesmo". Partindo do princípio que todos os seres humanos são tripulantes desta linda nave espacial Terra e dependerem uns dos outros para manter a supremacia como espécie, a memética é fator fundamental para manter esta condição. E como se faz isso na Maçonaria? Apresentando peças de arquitetura; lançando novas ideias; conversando após as sessões; visitando outras lojas; visitando os irmãos em suas residências; visitando aqueles irmãos que passam por situações difíceis; replicando e criticando construtivamente, dicotomizando, reconstruindo pensamentos pelos eternos ciclos de tese, antítese e síntese; derrubando conceitos antigos e construindo novos, num processo continuo de transmissão e replicação memética.

A memética é a técnica utilizada para revelar o conhecimento ao iniciado na ordem maçônica. Com esforço, dedicação e perseverança, o maçom vai misturando as estórias que lhe são contadas ao referencial pessoal e então os insights explodem em fascínio e admiração; outros pensamentos ficam dormentes no limiar da consciência para despertarem mais tarde; outros, nunca aflorarão. Certamente este é um dos caminhos que conduzem ao encontro da luz emanada do Grande Arquiteto do Universo. Como certificar-se disso? Apoiando-se na memética e viajando pelos caminhos da jornada solitária que cada um faz a sua alma, e cuja aplicação é oportunizada em cada encontro maçom.


Bibliografia

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2. ANTISERI, Dario; REALE, Giovanni, História da Filosofia, Antiguidade e Idade Média, Volume 1, ISBN 85-349-0114-7, primeira edição, Paulus, 670 páginas, São Paulo, 1990;

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6. CAMINO, Rizzardo da, Os Grau Inefáveis, Loja de Perfeição, Volume 1, Do Quarto ao Décimo Grau, primeira edição, Editora Maçônica a Trolha limitada., 178 páginas, Londrina, 1995;

7. CASTELLANI, José, Dicionário Etimológico Maçônico, Coleção Biblioteca do Maçom, segunda edição, Editora Maçônica a Trolha limitada., 123 páginas, Londrina, 1996;

8. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, versão 1.0, 2001;

9. FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de, Dicionário de Maçonaria, Seus Mistérios, seus Ritos, sua Filosofia, sua História, quarta edição, Editora Pensamento Cultrix limitada., 550 páginas, São Paulo, 1989;

10. GUIMARÃES, João Francisco, Maçonaria, A Filosofia do Conhecimento, ISBN 85-7374-565-7, primeira edição, Madras Editora limitada., 308 páginas, São Paulo, 2003;

11. LOMAS, Robert, Girando a Chave de Hiram, Tornando a Escuridão Visível, título original: Turning the Hiram Key, Making Drakness Visible, tradução: José Arnaldo de Castro, ISBN 85-3700-044-2, primeira edição, Madras Editora limitada., 288 páginas, São Paulo, 2005;

12. OLIVEIRA FILHO, Denizart Silveira de, Comentários Aos Graus Inefáveis do Ritual Escocês Antigo e Aceito, Coleção Biblioteca do Maçom, ISBN 85-7252-035-X, primeira edição, Editora Maçônica a Trolha limitada., 192 páginas, Londrina, 1997;

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14. SCHURÉ, Edouard, Os Grandes Iniciados, título original: Les Grands Initiés, ISBN 85-7374-620-3, primeira edição, Madras Editora limitada., 352 páginas, São Paulo, 2005;

15. VIDAL, César, Os Maçons a Sociedade Secreta mais Influente da História, tradução: Maria Alzira Brum Lemos, ISBN 85-7316-423-9, primeira edição, Ediouro Publicações S. A., 262 páginas, Rio de Janeiro, 2006;