Charles Evaldo Boller
Desde os primórdios da consciência humana, a morte ergue-se como
uma das mais profundas interrogações da existência. Nenhuma civilização,
religião ou escola filosófica deixou de confrontar esse mistério que acompanha
silenciosamente cada nascimento. Entretanto, talvez o verdadeiro desafio não
seja compreender a morte em si, mas aprender a viver de forma suficientemente
lúcida para que sua chegada não seja percebida como derrota, mas como conclusão
natural de uma jornada significativa.
Baruch Espinosa ofereceu ao pensamento universal uma das mais
elegantes interpretações da realidade ao afirmar que Deus e a Natureza
constituem uma única e mesma substância. Nessa visão, o ser humano não ocupa
posição privilegiada acima da criação; é parte integrante da grande tessitura
cósmica. A morte, portanto, não representa uma ruptura da ordem universal, mas
sua continuidade. Assim como a folha desprende-se da árvore no outono para
alimentar o solo que sustentará futuras primaveras, também a existência humana
participa de um ciclo incessante de transformação.
Essa perspectiva encontra ressonância profunda na filosofia
maçônica. O maçom aprende que a vida não deve ser medida pela duração dos anos,
mas pela qualidade da lapidação interior realizada durante sua passagem pela
Terra. A pedra bruta simboliza precisamente essa condição transitória e
imperfeita do ser humano. Cada virtude adquirida corresponde a um golpe
consciente do cinzel sobre as asperezas da personalidade.
Platão ensinava que filosofar é aprender a morrer. Não porque a
filosofia cultive o pessimismo, mas porque conduz o homem à compreensão de sua
verdadeira natureza. Da mesma forma, a iniciação maçônica convida o indivíduo a
transcender o apego excessivo às aparências passageiras e a buscar valores
permanentes. A morte deixa de ser um inimigo oculto para tornar-se uma
conselheira silenciosa da sabedoria.
Pode-se imaginar uma parábola. Havia um viajante que atravessava
um vasto deserto carregando um precioso vaso de cristal. Durante toda a
caminhada, vivia atormentado pelo medo de deixá-lo cair. Não contemplava o céu,
não admirava as estrelas, não percebia as flores raras que surgiam entre as
pedras. Sua atenção permanecia exclusivamente voltada para o vaso. Um velho
sábio, ao observá-lo, perguntou:
— Quando o vaso inevitavelmente se quebrar, o que restará de sua
viagem?
Somente então o viajante compreendeu que havia protegido o
recipiente, mas esquecido de viver o caminho.
Assim ocorre com muitos seres humanos. Temem tanto a morte que
deixam de viver plenamente. Espinosa recorda que o homem livre pensa menos na
morte do que na vida. Sua sabedoria consiste em direcionar a consciência para
aquilo que pode construir, amar, compreender e transformar.
Os cuidados paliativos modernos oferecem extraordinária
confirmação dessa verdade filosófica. Quando a proximidade da morte dissolve
ilusões de controle e poder, emergem os elementos essenciais da existência:
afeto, reconciliação, gratidão e sentido. Viktor Frankl observou que mesmo
diante do sofrimento inevitável permanece intacta a liberdade de escolher a
própria atitude. Essa liberdade interior constitui uma das mais elevadas
expressões da dignidade humana.
Uma metáfora maçônica pode ilustrar essa compreensão. A vida
assemelha-se à construção de uma catedral invisível. Cada ato de bondade
representa uma pedra assentada. Cada virtude cultivada fortalece seus
alicerces. Cada gesto fraterno eleva suas colunas. Quando chega a morte, o
construtor abandona as ferramentas, mas a obra permanece.
Também Sêneca advertia que não recebemos uma vida curta;
tornamo-la curta pelo desperdício do tempo. Marco Aurélio, por sua vez,
ensinava que tudo o que ocorre está em conformidade com a ordem da Natureza.
Ambos convergem para uma mesma conclusão: a serenidade nasce quando deixamos de
lutar contra aquilo que é inevitável e passamos a viver em harmonia com a
realidade.
Na perspectiva esotérica maçônica, a morte pode ser compreendida
como uma passagem simbólica. Não se trata apenas do encerramento de um ciclo
biológico, mas da recordação permanente de que toda transformação exige
desprendimento. Assim como a lagarta deve abandonar sua forma para tornar-se
borboleta, também o ser humano é constantemente convidado a morrer para os
próprios vícios, ilusões e limitações.
A consciência da finitude não obscurece a existência; ilumina-a.
O homem que reconhece a brevidade do tempo passa a valorizar o instante
presente com maior profundidade. Descobre que a imortalidade não reside na
permanência física, mas nas marcas éticas deixadas no coração da humanidade.
Talvez seja essa a grande lição compartilhada por Espinosa,
pelos cuidados paliativos e pela Maçonaria: a morte não diminui a vida. Ao
contrário, é sua inevitabilidade que confere valor a cada gesto de amor, a cada
ato de justiça e a cada passo dado no caminho do aperfeiçoamento humano.
Bibliografia Comentada
1.
ESPINOSA, Baruch. Ética. São Paulo: Edipro,
2021. Obra fundamental para compreender a concepção racional de Deus, da
Natureza e da condição humana, oferecendo bases filosóficas para uma visão
serena da finitude;
2.
FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido.
Petrópolis: Vozes, 2022. Clássico da psicologia existencial que demonstra como
o ser humano pode encontrar significado mesmo diante do sofrimento e da
proximidade da morte;
3.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis:
Vozes, 2015. Desenvolve a noção do homem como ser consciente de sua finitude,
mostrando como a aceitação da morte favorece uma existência autêntica;
4.
MACKEY, Albert Gallatin. Enciclopédia da
Maçonaria. São Paulo: Madras, 2018. Importante referência para a compreensão
dos símbolos maçônicos relacionados à transitoriedade da existência e ao
aperfeiçoamento moral;
5.
MARCO AURÉLIO. Meditações. São Paulo: Penguin
Classics Companhia das Letras, 2019. Fonte essencial da filosofia estoica,
ensinando serenidade, autocontrole e aceitação da ordem natural do universo;
6.
SÊNECA. Sobre a Brevidade da Vida. Porto Alegre:
L&PM, 2021. Reflexão clássica sobre o uso consciente do tempo e a
necessidade de viver com sabedoria diante da inevitabilidade da morte;
7.
WALDOW, Vera Regina. Cuidado Humano: o Resgate
Necessário. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 2019. Apresenta fundamentos
humanísticos do cuidado que dialogam diretamente com os princípios
contemporâneos dos cuidados paliativos;

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