Charles Evaldo Boller
A Maçonaria não foi concebida para produzir eruditos afastados
da vida, encerrados em abstrações intelectuais incapazes de transformar a
realidade interior. O maçom não é filósofo apenas na acepção acadêmica do
termo. Seu filosofar possui finalidade prática, moral e espiritual. A
verdadeira filosofia maçônica não se mede pela quantidade de livros lidos, nem
pela habilidade retórica em citar autores célebres, mas pela capacidade de converter
conhecimento em conduta, símbolo em hábito e reflexão em transformação do
caráter. A pedra bruta não se lapida com discursos. Exige golpes constantes do
maço da consciência e cortes precisos do cinzel da disciplina moral.
Aristóteles afirmava que a excelência moral nasce da repetição
dos atos virtuosos. Jung compreendia a individuação como processo profundo de
integração entre consciência e inconsciente. Viktor Frankl ensinava que o homem
somente encontra plenitude quando descobre significado para sua existência. A
Maçonaria, na medida em que reúne simbolismo, espiritualidade, racionalidade e
convivência fraterna, transforma-se numa verdadeira oficina de reconstrução
humana. Não se trata de mera transmissão de informações. Trata-se de despertar
interior.
Uma antiga parábola oriental narra que um discípulo pediu ao
mestre que lhe ensinasse o segredo da iluminação sem precisar abandonar o
conforto de sua casa. O mestre entregou-lhe uma semente e disse: "Ela
contém toda a floresta." O discípulo guardou-a numa caixa de ouro e passou
anos contemplando-a. Nada nasceu. Somente quando a colocou na terra, sob chuva,
vento e sol, a vida emergiu. Assim também ocorre na Maçonaria. O símbolo
isolado, estudado apenas intelectualmente, permanece estéreo. Precisa ser colocado
no terreno vivo da convivência humana para germinar.
A presença física nas sessões maçônicas possui significado muito
mais profundo do que simples formalidade institucional. O templo não é apenas
construção material. Representa um campo simbólico onde consciências interagem
silenciosamente. A ciência contemporânea reconhece que o ser humano influencia
e é influenciado pelo ambiente, pelas emoções coletivas, pelos gestos, pelo
olhar e pela linguagem não verbal. Os antigos iniciados já intuíram essa realidade
muito antes da psicologia moderna. Por isso os ritos insistem na presença, na
circulação, no toque, na postura, no silêncio e na palavra pronunciada diante
dos irmãos.
A retirada da venda na Iniciação representa uma das mais
profundas metáforas da liberdade humana. Até aquele instante, o iniciado era
conduzido pelo experto. Após receber a Luz, passa a responder pela própria
caminhada. Eis a essência da iniciação: ninguém pode viver a consciência do
outro. O mestre pode indicar a porta, mas somente o discípulo pode
atravessá-la. Platão descreveu situação semelhante no mito da caverna. O homem
acostumado às sombras teme inicialmente a claridade. Contudo, apenas
enfrentando a luz alcança compreensão mais elevada da realidade.
A filosofia humanista espiritualista da Maçonaria pretende
justamente conduzir o homem da dependência psicológica para a autonomia
consciente. Não mediante submissão dogmática, mas pelo exercício do livre
pensamento. A Arte Real não aprisiona. Liberta. Porém, liberdade não significa
ausência de disciplina. O rio alcança o mar porque respeita suas margens. O
iniciado alcança autorrealização porque aprende a dirigir suas forças
interiores com equilíbrio, prudência e consciência moral.
A convivência presencial torna-se indispensável porque o homem
não se transforma sozinho. O ferro afia-se pelo contato com outro ferro. O
olhar sereno de um irmão experiente pode ensinar mais do que longos tratados
filosóficos. Um debate sincero em Loja pode produzir mudanças interiores
impossíveis de serem obtidas na solidão intelectual. O templo torna-se, então,
laboratório vivo da consciência humana, onde cada irmão atua simultaneamente
como aprendiz e espelho do outro.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin
Claret, 2003. - Obra fundamental para compreender a formação das virtudes pela
repetição consciente dos hábitos, conceito profundamente compatível com a
prática moral maçônica;
2.
FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido.
Petrópolis: Vozes, 2019. - Reflexão indispensável sobre propósito existencial,
sofrimento e autorrealização, aproximando-se da dimensão espiritual do
aperfeiçoamento humano presente na iniciação;
3.
JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente.
Petrópolis: Vozes, 2016. - Desenvolve o conceito de individuação, essencial
para compreender a jornada iniciática como integração progressiva da
personalidade;
4.
MASLOW, Abraham. Introdução à Psicologia do Ser.
Rio de Janeiro: Eldorado, 1970. - Analisa a autorrealização como estágio
elevado do desenvolvimento humano, aproximando-se da finalidade filosófica da
autoconstrução maçônica;
5.
PAPUS. O Simbolismo Hermético na Relação com a
Filosofia Oculta e a Francomaçonaria. São Paulo: Pensamento, 2003. - Estudo
clássico sobre a dimensão esotérica, simbólica e espiritual da tradição
iniciática ocidental;
6.
PLATÃO. A República. São Paulo: Edipro, 2019. -
O mito da caverna oferece poderosa metáfora da passagem das sombras da
ignorância para a luz do conhecimento consciente;

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