Charles Evaldo Boller
Todo desenvolvimento humano surge primeiro na mente. Antes que
uma obra seja edificada, uma descoberta seja realizada ou uma transformação
aconteça, existe sempre uma ideia que antecede a ação. Essa verdade, tão
simples quanto profunda, encontra na filosofia maçônica uma de suas expressões
mais elevadas. A Maçonaria compreende que a iluminação não consiste em acumular
conhecimentos de forma mecânica, mas em despertar a capacidade de pensar
livremente, compreender a realidade e buscar a felicidade mediante o
aperfeiçoamento contínuo da própria consciência.
Ninguém escraviza aquele que se tornou livre-pensador. Correntes
podem prender os membros, mas não conseguem aprisionar uma mente educada para
raciocinar por si mesma. Por isso, a iniciação maçônica simboliza uma jornada
de libertação intelectual e moral. O homem iluminado conquista a liberdade do
pensamento. Não necessita mais da tutela permanente de terceiros nem da
condução cega por autoridades externas. Desenvolve a coragem de utilizar a
própria razão, conforme ensinava Kant ao afirmar que o esclarecimento consiste
na saída do homem de sua menoridade intelectual.
A educação, portanto, torna-se o principal instrumento de
progresso. Rousseau defendia uma educação natural, voltada ao desenvolvimento
harmonioso das potencialidades humanas. Kant complementou essa visão ao
destacar que o ser humano somente alcança sua plenitude quando aprende a pensar
autonomamente. A educação maçônica aproxima-se dessa perspectiva ao estimular a
observação, a reflexão, o estudo e o aprimoramento constante. O único caminho
seguro para progredir sob qualquer sistema social é educar-se. Estudar as
coisas para subsistir com qualidade, ampliar possibilidades de sucesso,
desenvolver virtudes e construir uma vida mais feliz constitui parte essencial
da missão iniciática.
Uma antiga parábola ilustra essa verdade. Dois viajantes
caminhavam por uma floresta escura. O primeiro carregava uma lanterna
emprestada. O segundo aprendera a produzir fogo. Quando a lanterna se apagou, o
primeiro permaneceu perdido. O segundo, porém, acendeu uma nova chama e
continuou seu caminho. Assim acontece com o conhecimento. Aquele que depende
apenas da luz dos outros permanece vulnerável; quem aprende a gerar sua própria
luz conquista verdadeira liberdade.
Sob o ponto de vista simbólico, o Grau de Aprendiz apresenta uma
das mais belas representações dessa realidade por meio do compasso. Kant
desenvolveu a chamada dedução transcendental para demonstrar como a mente
participa ativamente da construção do conhecimento. O simbolismo maçônico
oferece uma imagem semelhante. O ponto central representa o indivíduo
consciente de si mesmo. O círculo simboliza os limites de sua ação e de sua
compreensão. As paralelas recordam os princípios que orientam a vida humana.
Cada pessoa é um ponto semelhante a nós. Todos os pontos, reunidos em harmonia,
compõem um grande conjunto que encontra seu centro no Grande Arquiteto do
Universo.
Essa concepção evita aprisionar a espiritualidade em definições
dogmáticas. O conceito de Grande Arquiteto do Universo, adotado pela Maçonaria
sob influência do pensamento iluminista, não pretende encerrar o mistério em
uma fórmula rígida. Busca antes criar um espaço de convergência para a
investigação da Verdade. Filósofos como Kant e pensadores modernos
preocupavam-se menos em definir a essência última das coisas e mais em
compreender aquilo que é acessível ao entendimento humano.
A todos sobrevém o desejo de saber de onde vieram, o que são e
para onde vão. Entretanto, a sabedoria frequentemente se encontra nas coisas
simples. O pedreiro que compreende a função de cada pedra consegue erguer uma
catedral sem conhecer todos os segredos da arquitetura. Da mesma forma, o
iniciado busca compreender gradualmente a grande obra da existência.
Uma metáfora esclarece essa ideia. O conhecimento humano
assemelha-se a uma nascente subterrânea. A água já existe no interior da terra,
mas necessita ser alcançada. O convívio social, o estudo, a experiência e a
reflexão funcionam como instrumentos que removem as camadas de solo até que a
fonte apareça. O conhecimento não é apenas algo que recebemos; é também algo
que despertamos.
Assim, a Maçonaria procura transformar cada iniciado em uma
pedra polida da sociedade humana. Ao educar-se continuamente, o homem amplia
sua liberdade, fortalece sua capacidade de julgamento e aproxima-se daquilo que
há de mais elevado em sua natureza. Descobre que faz parte de algo muito maior
do que si mesmo e que o verdadeiro esclarecimento não consiste em possuir todas
as respostas, mas em desenvolver a coragem de buscar continuamente a verdade.
Bibliografia Comentada
1.
DURANT, Will. A História da Filosofia. Rio de
Janeiro: Record, 2000. Panorama das principais correntes filosóficas que
influenciaram a formação do pensamento moderno e os ideais de liberdade
intelectual presentes na tradição iluminista;
2.
HESSEN, Johannes. Teoria do Conhecimento. São
Paulo: Martins Fontes, 2003. Introdução acessível aos fundamentos
epistemológicos que auxiliam a compreender a relação entre sujeito,
conhecimento e realidade;
3.
KANT, Immanuel. Resposta à Pergunta: Que é o
Esclarecimento? Petrópolis: Vozes, 1985. Obra fundamental para compreender a
ideia de autonomia intelectual e a coragem de pensar por si mesmo, conceito
profundamente relacionado à busca maçônica pela liberdade da consciência;
4.
MACKSEY, Albert G. Enciclopédia da Maçonaria.
São Paulo: Madras, 2012. Fonte clássica para a compreensão dos símbolos,
alegorias e princípios filosóficos da tradição maçônica;
5.
PIKE, Albert. Moral e Dogma. São Paulo: Madras,
2010. Explora a dimensão filosófica, simbólica e espiritual dos graus
maçônicos, relacionando conhecimento, liberdade e desenvolvimento moral;
6.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou Da Educação.
São Paulo: Martins Fontes, 2004. Apresenta a educação natural como instrumento
de desenvolvimento humano integral, oferecendo importantes paralelos com o
processo iniciático de aperfeiçoamento gradual;

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