sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Debate como Oficina Viva do Aperfeiçoamento Humano

 Charles Evaldo Boller

O debate, quando compreendido como exercício consciente da razão em comunhão, constitui um dos mais elevados instrumentos de aperfeiçoamento humano no seio da Maçonaria. Na loja, o homem não se limita a ouvir; ele participa, confronta, pondera e reelabora suas próprias convicções na medida em que se expõe ao pensamento do outro. Esse processo não é meramente intelectual, mas profundamente formativo, pois transforma a experiência coletiva em patrimônio comum, capaz de enriquecer cada participante de modo singular. A vida em grupo, regulada por valores e princípios, torna-se assim um laboratório vivo de transmissão de experiências, no qual o saber não se impõe verticalmente, mas circula horizontalmente como fruto da reciprocidade.

A metáfora da cooperativa intelectual revela-se particularmente fecunda para compreender esse fenômeno. Assim como pequenas poupanças, reunidas, geram capital capaz de promover desenvolvimento econômico e social, as contribuições individuais, quando somadas em debate bem conduzido, produzem dividendos imediatos de ordem moral, cultural e prática. Cada maçom torna-se depositário do conhecimento do outro, não como mero acúmulo passivo, mas como capital vivo pronto a ser aplicado no mundo. O investimento intelectual realizado na loja retorna sob a forma de discernimento, prudência e capacidade de ação, qualificando o indivíduo como construtor da sociedade.

Do ponto de vista esotérico e simbólico, o debate pode ser compreendido como a lapidação coletiva da pedra bruta. Cada intervenção é um golpe de malhete que, ao atingir não apenas a própria pedra, mas também a do irmão, produz faíscas de entendimento capazes de iluminar o conjunto. Não se trata de suprimir diferenças, mas de transmutá-las em harmonia, tal como numa orquestra em que instrumentos diversos produzem uma única obra sonora. Nesse espaço simbólico, desaparecem as etiquetas profanas, cargos, títulos, funções sociais, e permanece apenas o valor intrínseco do pensamento. A palavra humilde, quando carregada de experiência vivida, pode revelar-se mais preciosa do que o discurso erudito destituído de vida.

Essa dinâmica realiza, em termos práticos, o antigo imperativo socrático do "conhece-te a ti mesmo". O autoconhecimento não nasce do isolamento, mas do espelho que o outro nos oferece. Ao ouvir e ser ouvido, o maçom confronta suas certezas, reconhece suas limitações e descobre potencialidades adormecidas. A hierarquia ritualística, longe de sufocar a liberdade, organiza o fluxo da palavra e preserva o respeito mútuo, garantindo que a liberdade de expressão não se converta em desordem. A autoridade exercida é funcional e simbólica, jamais despótica, pois sua finalidade é manter o eixo do debate e assegurar a igualdade essencial entre os participantes.

Em oposição à oratória unilateral, que frequentemente conduz à passividade e à dispersão, o debate mantém todos em estado de vigília intelectual. A expectativa de participação contínua estimula a atenção, a memória e a capacidade de síntese. Trata-se de um exercício de ócio criativo, no qual o pensamento trabalha com prazer, e o prazer, por sua vez, potencializa o aprendizado. Assim, a loja cumpre sua vocação de escola viva, não de reprodução mecânica de saberes, mas de formação integral do homem livre e responsável.

Ao final de cada sessão, o maçom retorna para a sua casa fortalecido, mais apto a discernir, dialogar e agir em benefício da comunidade. O debate não se encerra no templo; ele continua na vida cotidiana, orientando escolhas e atitudes. Dessa forma, o trabalho coletivo realizado sob a égide da liberdade, igualdade e fraternidade converte-se em honra e glória ao Grande Arquiteto do Universo, na medida em que transforma o homem e, por meio dele, a própria sociedade.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2014. Obra fundamental para compreender a dimensão ética da vida em comunidade, na qual o autor demonstra que a virtude se aperfeiçoa na prática e na convivência, ideia plenamente consonante com o debate maçônico como exercício formativo;

2.      DE MASI, Domenico. Ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. O autor desenvolve o conceito de ócio criativo como espaço em que trabalho, estudo e prazer se integram, oferecendo base teórica contemporânea para compreender o valor cultural e humano dos debates em loja;

3.      PLATÃO. Apologia de Sócrates. São Paulo: Edipro, 2016. O texto apresenta o ideal socrático do diálogo como via de autoconhecimento e busca da verdade, fornecendo fundamento filosófico clássico para a prática do debate como método de aperfeiçoamento interior;

4.      SPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2013. Ao tratar da potência coletiva dos indivíduos reunidos sob leis comuns, Spinoza oferece elementos conceituais para compreender o fortalecimento do indivíduo na vida em grupo, em harmonia com os princípios maçônicos;

5.      VITRUVIO. Tratado de arquitetura. São Paulo: Martins Fontes, 2007. Embora voltada à arquitetura material, a obra fornece metáforas valiosas para a construção simbólica do homem e da sociedade, permitindo analogias fecundas com a edificação interior promovida pelo debate em loja;

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