sábado, 7 de fevereiro de 2026

Justiça, Tolerância e a Ativação do Ser Maçônico

 Charles Evaldo Boller

O Despertar da Justiça Interior

A jornada maçônica revela que justiça e tolerância não são conceitos abstratos, mas forças estruturantes da consciência humana. O iniciado descobre que seu maior adversário não é o mundo exterior, mas a tendência íntima ao prazer imediato, à impulsividade, à vingança travestida de justiça. Nesse confronto silencioso, a Ordem oferece não dogmas, mas instrumentos simbólicos que funcionam como chaves de transformação interior. O esquadro, a régua e o malho deixam de ser apenas objetos ritualísticos e tornam-se metáforas do equilíbrio, da medida e da firmeza moral. O mistério reside em aprender a usar esses instrumentos na vida diária, lapidando vícios, moderando paixões, despertando a razão que ilumina o julgamento. Justiça, aqui, é a arte de acessar o ponto exato em que tolerância e correção se encontram; é compreender que eliminar o mal não significa destruir o indivíduo, mas transformar seu horizonte. O cavaleiro moderno combate não com espada, mas com consciência ativa, capaz de transmutar impulsos destrutivos em energia criadora. Ao perceber que cada decisão colapsa possibilidades éticas, o leitor é convidado a explorar como ciência, filosofia e espiritualidade convergem para ativar o homem interior, transformando-o em agente de equilíbrio e luz no mundo.

A Senda da Vigilância Interior

A condição humana, marcada por desejos imediatos e paixões turbulentas, impõe ao iniciado a necessidade de constante vigilância. A natureza instintiva empurra o homem para aquilo que proporciona prazer rápido, conforto emocional e satisfação momentânea. A Maçonaria, desde a Câmara de Reflexões até o mais elevado dos graus, recorda ao neófito que esta tendência deve ser domada se ele pretende erguer um templo interior sólido. O processo não é trivial: exige conhecimento, autodisciplina e coragem. A luta do maçom não é contra o mundo exterior, mas contra suas sombras internas; é contra o impulso que o arrasta para os vícios, para a negligência moral, para a tirania das emoções desencontradas.

Assim como um alquimista que vigia sua retorta para que o fogo não se extinga nem transborde, o maçom vela sobre si mesmo. A pedra bruta que traz dentro de si precisa ser incessantemente polida; caso contrário, o descuido reativa antigas asperezas. A vigilância é, portanto, o esforço contínuo de observar cada ação, palavra e pensamento como se estivessem gravados no Livro da Vida. As paixões, se não orientadas, desviam o indivíduo de sua reta intenção. Os vícios, se não enfrentados, corroem o alicerce da virtude. Por isso, a ativação do ser maçônico começa pela consciência de sua própria fragilidade.

O Princípio da Transformação pela Educação Iniciática

A Maçonaria oferece um método para transformar o homem comum em um ser equilibrado, justo e consciente. Não promete salvação mística, mas propõe um caminho educativo. Seu laboratório é o rito; seus instrumentos são símbolos; seus mestres são gerações de homens que percorreram o mesmo itinerário. Enquanto as paixões estimulam a impulsividade e a imediata retribuição do mal, a Ordem ensina que justiça não é vingança. É equilíbrio, correção, harmonia.

O iniciado aprende que, na história humana, a tentação de agir como justiceiro sempre foi uma brecha perigosa. O desejo de corrigir o mundo pela força costuma gerar mais ruína do que benefício. Na pólis grega, Sócrates advertia que a justiça nasce da proporção interior, não da imposição externa. O cavaleiro medieval, inspiração presente na estética das lojas, sabia que a espada só tem sentido quando guiada pelo espírito de honra, jamais pela fúria. Assim, a Maçonaria introduz em seu educando o princípio da medida: a tolerância deve ser exercida em proporções conscientes, avaliando circunstâncias, contextos e pessoas.

A justiça sem sabedoria é tirania; a sabedoria sem justiça é omissão. Por isso, o maçom, ao fortalecer sua mente com estudo e introspecção, abandona a postura primitiva do vingador e assume a postura civilizatória daquele que constrói instituições e respeita leis. A evolução moral ocorre quando a energia da vingança é transmutada em energia de educação, diálogo, estruturação de princípios. Nesse ponto, a Maçonaria se alinha à física quântica: toda energia emocional pode ser colapsada em estados diferentes conforme o foco da consciência. O impulso destrutivo, se iluminado pela reflexão ética, transforma-se em força criadora.

Justiça como Princípio Universal e Fundamento Civilizatório

A justiça, enquanto valor simbólico e social, deve ser distribuída a todos os cidadãos, independentemente de raça, credo ou posição social. No Templo maçônico, todos são iguais sob o olhar do Grande Arquiteto do Universo; na sociedade, a justiça deve espelhar este princípio. Assim como a luz do Sol ilumina bons e maus sem distinção, a justiça deve premiar o justo e punir o injusto, garantindo equilíbrio e segurança.

Quando o crime não é punido, estabelece-se a sensação de impunidade, que alimenta o caos social. Aristóteles já advertia que a cidade justa é aquela que harmoniza direitos e deveres, castigando o mal na medida exata do dano causado. Eliminar o perjuro não é intolerância desmedida; é a defesa da própria tolerância. A sociedade só pode permitir a liberdade quando protege seus cidadãos da violência e da anarquia. Desse modo, a justiça torna-se o pilar invisível que sustenta a convivência humana.

Na Metafísica maçônica, o mal não reina porque a justiça existe como correção permanente. O Tetragrama, símbolo da Lei eterna, lembra que a ordem divina se manifesta através da ordem humana quando esta é racional, equilibrada e moralmente orientada. A justiça humana é imperfeita, mas tende ao ideal quando busca refletir a justiça eterna.

A Simbologia do Cavaleiro como Modelo de Conduta

Entre as diversas linguagens simbólicas da Maçonaria, a figura do cavaleiro destaca-se como modelo ético. O cavaleiro não é apenas guerreiro; é protetor dos fracos, defensor dos oprimidos, combatente das injustiças. Seus instrumentos, como a espada e o escudo, reaparecem transfigurados na Loja como esquadro, compasso, régua e malho. O esquadro representa a retidão moral; o compasso, a moderação dos impulsos; a régua, a pontualidade e responsabilidade; o malho, a firmeza necessária para combater o mal.

A dureza do malho não é violência física, mas energia moral. É a força interior que resiste ao erro, que sustenta o bem, que corrige desvios. O maçom aprende que a intolerância justa é a intolerância contra o mal. Ser tolerante com a injustiça é abandonar os princípios que definem a própria tolerância civilizada. A retidão do esquadro orienta a ação justa; a estabilidade da régua confere equilíbrio à decisão; a firmeza do malho representa a execução ética da correção.

O cavaleiro moderno, que é o maçom, nunca toma a justiça nas próprias mãos. Sua espada é simbólica: corta ilusões, não cabeças; fere a ignorância, não corpos; destrói vícios, não pessoas. A justiça é aplicada pelas instituições, não pelos indivíduos. O papel do maçom é construir, fortalecer e aperfeiçoar essas instituições, não as substituir.

O Jogo Quântico das Escolhas Morais

A física quântica, quando interpretada de forma metafórica, oferece uma chave de leitura interessante para a ética maçônica. O princípio da complementaridade mostra que partículas apresentam comportamentos diferentes conforme o observador. A consciência influencia o colapso das possibilidades. Da mesma forma, cada gesto humano nasce de infinitos potenciais. Uma palavra pode ser construtiva ou destrutiva; uma emoção pode elevar ou degradar; uma decisão pode pacificar ou incendiar.

A dualidade onda-partícula lembra a dualidade humana: há instinto e razão, sombra e luz. O maçom, ao ativar-se interiormente, escolhe conscientemente qual aspecto deseja manifestar. A virtude, nesse sentido, é uma decisão reiterada. A justiça, uma construção consciente que emerge do diálogo entre liberdade e responsabilidade. A tolerância, uma vibração mental que modula a realidade ao redor.

Metaforicamente, cada Loja é um laboratório quântico onde se treinam estados mentais. As energias emocionais são reconfiguradas; as ideias tornam-se luz; a disciplina transforma potenciais em atos. O rito não é apenas memória; é mecanismo de reprogramação ética.

Religião, Ciência e o Princípio do Equilíbrio

A Maçonaria transita entre religião e ciência porque compreende que ambas buscam, à sua maneira, a Verdade. A religião oferece valores transcendentes; a ciência, métodos de validação. A ética maçônica é como uma ponte, onde o mistério dialoga com a razão, a fé encontra a lógica e o símbolo nutre o experimento. Justiça e tolerância são princípios que se situam nesse ponto de encontro.

A religião ensina a amar o próximo; a ciência demonstra que sociedades harmoniosas prosperam. A filosofia clássica afirma que o bem é aquilo que promove a ordem. A Maçonaria sintetiza essas dimensões e as apresenta como um caminho de aperfeiçoamento interior. A ativação do maçom é, portanto, o despertar de sua capacidade de equilibrar instinto, intelecto e espiritualidade.

Aplicações Práticas para a Vida do Maçom

·         Praticar o autocontrole emocional. Antes de reagir, o maçom observa sua emoção como um fenômeno quântico que pode colapsar em diferentes direções. Respira, pondera, escolhe.

·         Desenvolver tolerância proporcional. A tolerância não é fraqueza: é estratégia civilizatória. O maçom aprende a dosar sua reação conforme o contexto, sempre buscando o bem comum.

·         Apoiar as instituições de justiça. Em vez de agir como vingador, o maçom fortalece os mecanismos sociais de correção: conselhos, comunidades, órgãos de governança e sistemas legais.

·         Defender os vulneráveis. O cavaleiro moderno não empunha espada, mas usa sua influência, voz e exemplo para proteger os que sofrem injustiças.

·         Combater o mal sem destruir pessoas. O erro deve ser corrigido; o indivíduo, educado sempre que possível. Esta é a ética da construção social.

·         Polir a si mesmo diariamente. O trabalho interior é constante. O silêncio meditativo, a leitura, a prática ritual e o diálogo fraterno são ferramentas de aprimoramento.

A Ativação do Ser Maçônico

O maçom está ativado quando integra em si os princípios da tolerância equilibrada e da justiça correta. Não se inclina à vingança, não se entrega à impulsividade, não julga segundo paixões. Ele mede suas palavras pelo compasso da razão, orienta seus atos pelo esquadro da moral e conduz sua vida pela régua da sabedoria. Ativado, torna-se um agente de equilíbrio no mundo, um irradiador de virtude, um construtor da paz social.

No centro de seu templo interior, descobre que justiça e tolerância são mais que virtudes: são forças espirituais que moldam realidades, transformam destinos e elevam consciências. Um maçom ativado é, acima de tudo, um homem que aprendeu a governar a si mesmo.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: abril Cultural, 1973. Obra estruturante da filosofia moral ocidental, apresenta a noção de virtude como hábito equilibrado, iluminando o entendimento maçônico de justiça e temperança, essenciais para a formação do homem iniciado;

2.      EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. Reflete sobre ética, ciência e espiritualidade, reforçando que o progresso moral acompanha o avanço científico, perspectiva que integra a síntese maçônica entre razão e transcendência;

3.      ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Explora a experiência simbólica e ritual, permitindo compreender como o rito maçônico organiza a percepção do mundo e molda o comportamento ético por meio da sacralização da vida cotidiana;

4.      HEISENBERG, Werner. Física e filosofia. Brasília: UnB, 1995. Relaciona princípios da mecânica quântica a reflexões filosóficas, fornecendo base para as metáforas sobre consciência, escolhas e estados potenciais aplicadas à ética maçônica;

5.      PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Claret, 2006. Discute a justiça como fundamento da vida social e da alma ordenada, convergindo com a visão maçônica de que a ordem interior precede a ordem exterior;

6.      PONDÉ, Luiz Felipe. A filosofia da adúltera. São Paulo: Leya, 2013. Embora contemporâneo e provocativo, oferece análises sobre moral, prazer e responsabilidade, que, reinterpretadas, dialogam com a vigilância interior exigida do maçom;

Nenhum comentário: