A Maçonaria revela-se menos como uma instituição formal e mais
como um método vivo de educação moral, estruturado para trabalhar com a
matéria-prima mais complexa que existe: o próprio homem. A diversidade de
obediências, ritos e organizações, tantas vezes interpretada como sinal de
fragilidade, surge, sob análise filosófica mais profunda, como expressão
coerente de um sistema que respeita a liberdade, a consciência crítica e a
imperfeição constitutiva da natureza humana. Assim como um prisma de cristal
revela múltiplas cores sem deixar de ser uno, a Maçonaria manifesta-se em
múltiplas formas sem perder sua essência.
A filosofia maçônica parte de um princípio caro à filosofia
clássica: o homem não nasce pronto, constrói-se. Em Aristóteles, a virtude é
hábito adquirido pelo exercício contínuo; não é dádiva, mas obra. Essa noção
encontra respaldo direto no simbolismo da pedra bruta, que não deve ser
rejeitada por suas imperfeições, mas trabalhada com método, tempo e
perseverança. O erro, nesse contexto, não é falência moral, mas indício de
movimento. Tal como o escultor que só encontra a forma ao retirar o excesso do
mármore, o maçom encontra sua medida ética ao confrontar seus limites.
A pluralidade interna da Maçonaria pode ser comparada a um
grande rio que, ao longo de seu curso, se divide em braços e canais sem jamais
perder a nascente. A unidade não reside no leito único, mas na origem comum e
na direção compartilhada. Platão, ao tratar da justiça na pólis, já advertia
que a harmonia não nasce da igualdade absoluta, mas da justa ordenação das
diferenças. Da mesma forma, a Maçonaria não busca uniformizar consciências, mas
alinhá-las a princípios universais, permitindo que cada uma expresse sua
singularidade.
O conflito, inevitável onde há convivência humana, não é negado
pelo sistema maçônico; é educado. Essa postura conversa com o pensamento de
Heráclito, para quem a tensão entre os opostos é a fonte do movimento e da
harmonia do mundo. O arco só cumpre sua função porque suas extremidades se
opõem; sem tensão, não há impulso. Assim, divergências internas, quando
tratadas eticamente, tornam-se forças propulsoras de amadurecimento coletivo.
Quando não há mais possibilidade de convivência fraterna, a separação
administrativa surge não como ruptura moral, mas como preservação do método,
mantendo-se o vínculo simbólico comum.
A ciência moderna reforça essa leitura simbólica. A evolução biológica
demonstra que a vida progride por mutações, desequilíbrios e adaptações, nunca
por estabilidade absoluta. O equilíbrio total é sinônimo de inércia, e a
inércia, de morte. A Maçonaria, ao aceitar a imperfeição como ponto de partida,
alinha-se a essa lógica universal. O próprio Grande Arquiteto do Universo,
enquanto princípio ordenador, manifesta-se não pela eliminação do erro, mas
pela capacidade de transformá-lo em aprendizado e evolução.
A multiplicação de lideranças, decorrente da diversidade organizacional,
constitui outro aspecto virtuoso do sistema. Liderar, na tradição iniciática,
não é dominar, mas servir. Essa concepção aproxima-se da ética estoica, na qual
o homem sábio governa primeiro a si mesmo. Cada maçom, ao assumir
responsabilidades em sua loja ou obediência, torna-se multiplicador de valores
morais, irradiando para a sociedade os frutos de seu trabalho interior. É como
uma tocha acesa a partir de outra: a chama se divide, mas a luz aumenta.
Como sugestão construtiva, inspira-se a valorização consciente
da diferença como instrumento pedagógico. Em vez de buscar eliminar
divergências, o maçom pode aprender a escutá-las, analisá-las e integrá-las
quando possível. Outra proposta ilustrativa é encarar a loja como um
laboratório ético, onde o erro não é motivo de exclusão imediata, mas
oportunidade de correção fraterna. O maço e o cinzel, nesse sentido, não devem
ser aplicados com violência, mas com discernimento: força sem razão quebra a
pedra; razão sem força não a transforma.
Em síntese, a Maçonaria ensina que a obra não é erguer edifícios
perfeitos, mas homens conscientes. Como afirmou Immanuel Kant, o homem deve ser
tratado sempre como fim, nunca apenas como meio. Ao trabalhar homens
imperfeitos com um método imperfeito apenas na aparência, a Maçonaria permanece
fiel à sua vocação mais elevada: oferecer ao ser humano um caminho de liberdade
responsável, evolução contínua e serviço à humanidade, sob a inspiração
constante do Grande Arquiteto do Universo.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin
Claret, 2001. Obra fundamental para a compreensão da virtude como hábito
adquirido, conceito que dialoga diretamente com a pedagogia simbólica da
lapidação da pedra bruta na Maçonaria;
2.
CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. São Paulo:
Cultrix, 1991. Livro que aproxima ciência moderna e tradições filosóficas,
oferecendo metáforas úteis para compreender a Maçonaria como sistema alinhado
às leis da natureza;
3.
HERÁCLITO. Fragmentos. São Paulo: Loyola, 2012.
Conjunto de pensamentos que elucidam a noção de tensão criadora entre opostos,
aplicável à compreensão do conflito como motor de evolução moral;
4.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos
Costumes. Lisboa: Edições 70, 2007. Obra que sustenta a dignidade do homem como
fim em si mesmo, princípio ético central à filosofia maçônica;
5.
PLATÃO. A República. São Paulo: Perspectiva,
2006. Texto clássico que fundamenta a ideia de harmonia social baseada na
ordenação das diferenças, oferecendo paralelo filosófico à diversidade interna
do sistema maçônico;

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