quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A Diversidade como Método de Aperfeiçoamento Humano

 Charles Evaldo Boller

A Maçonaria revela-se menos como uma instituição formal e mais como um método vivo de educação moral, estruturado para trabalhar com a matéria-prima mais complexa que existe: o próprio homem. A diversidade de obediências, ritos e organizações, tantas vezes interpretada como sinal de fragilidade, surge, sob análise filosófica mais profunda, como expressão coerente de um sistema que respeita a liberdade, a consciência crítica e a imperfeição constitutiva da natureza humana. Assim como um prisma de cristal revela múltiplas cores sem deixar de ser uno, a Maçonaria manifesta-se em múltiplas formas sem perder sua essência.

A filosofia maçônica parte de um princípio caro à filosofia clássica: o homem não nasce pronto, constrói-se. Em Aristóteles, a virtude é hábito adquirido pelo exercício contínuo; não é dádiva, mas obra. Essa noção encontra respaldo direto no simbolismo da pedra bruta, que não deve ser rejeitada por suas imperfeições, mas trabalhada com método, tempo e perseverança. O erro, nesse contexto, não é falência moral, mas indício de movimento. Tal como o escultor que só encontra a forma ao retirar o excesso do mármore, o maçom encontra sua medida ética ao confrontar seus limites.

A pluralidade interna da Maçonaria pode ser comparada a um grande rio que, ao longo de seu curso, se divide em braços e canais sem jamais perder a nascente. A unidade não reside no leito único, mas na origem comum e na direção compartilhada. Platão, ao tratar da justiça na pólis, já advertia que a harmonia não nasce da igualdade absoluta, mas da justa ordenação das diferenças. Da mesma forma, a Maçonaria não busca uniformizar consciências, mas alinhá-las a princípios universais, permitindo que cada uma expresse sua singularidade.

O conflito, inevitável onde há convivência humana, não é negado pelo sistema maçônico; é educado. Essa postura conversa com o pensamento de Heráclito, para quem a tensão entre os opostos é a fonte do movimento e da harmonia do mundo. O arco só cumpre sua função porque suas extremidades se opõem; sem tensão, não há impulso. Assim, divergências internas, quando tratadas eticamente, tornam-se forças propulsoras de amadurecimento coletivo. Quando não há mais possibilidade de convivência fraterna, a separação administrativa surge não como ruptura moral, mas como preservação do método, mantendo-se o vínculo simbólico comum.

A ciência moderna reforça essa leitura simbólica. A evolução biológica demonstra que a vida progride por mutações, desequilíbrios e adaptações, nunca por estabilidade absoluta. O equilíbrio total é sinônimo de inércia, e a inércia, de morte. A Maçonaria, ao aceitar a imperfeição como ponto de partida, alinha-se a essa lógica universal. O próprio Grande Arquiteto do Universo, enquanto princípio ordenador, manifesta-se não pela eliminação do erro, mas pela capacidade de transformá-lo em aprendizado e evolução.

A multiplicação de lideranças, decorrente da diversidade organizacional, constitui outro aspecto virtuoso do sistema. Liderar, na tradição iniciática, não é dominar, mas servir. Essa concepção aproxima-se da ética estoica, na qual o homem sábio governa primeiro a si mesmo. Cada maçom, ao assumir responsabilidades em sua loja ou obediência, torna-se multiplicador de valores morais, irradiando para a sociedade os frutos de seu trabalho interior. É como uma tocha acesa a partir de outra: a chama se divide, mas a luz aumenta.

Como sugestão construtiva, inspira-se a valorização consciente da diferença como instrumento pedagógico. Em vez de buscar eliminar divergências, o maçom pode aprender a escutá-las, analisá-las e integrá-las quando possível. Outra proposta ilustrativa é encarar a loja como um laboratório ético, onde o erro não é motivo de exclusão imediata, mas oportunidade de correção fraterna. O maço e o cinzel, nesse sentido, não devem ser aplicados com violência, mas com discernimento: força sem razão quebra a pedra; razão sem força não a transforma.

Em síntese, a Maçonaria ensina que a obra não é erguer edifícios perfeitos, mas homens conscientes. Como afirmou Immanuel Kant, o homem deve ser tratado sempre como fim, nunca apenas como meio. Ao trabalhar homens imperfeitos com um método imperfeito apenas na aparência, a Maçonaria permanece fiel à sua vocação mais elevada: oferecer ao ser humano um caminho de liberdade responsável, evolução contínua e serviço à humanidade, sob a inspiração constante do Grande Arquiteto do Universo.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2001. Obra fundamental para a compreensão da virtude como hábito adquirido, conceito que dialoga diretamente com a pedagogia simbólica da lapidação da pedra bruta na Maçonaria;

2.      CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. São Paulo: Cultrix, 1991. Livro que aproxima ciência moderna e tradições filosóficas, oferecendo metáforas úteis para compreender a Maçonaria como sistema alinhado às leis da natureza;

3.      HERÁCLITO. Fragmentos. São Paulo: Loyola, 2012. Conjunto de pensamentos que elucidam a noção de tensão criadora entre opostos, aplicável à compreensão do conflito como motor de evolução moral;

4.      KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Lisboa: Edições 70, 2007. Obra que sustenta a dignidade do homem como fim em si mesmo, princípio ético central à filosofia maçônica;

5.      PLATÃO. A República. São Paulo: Perspectiva, 2006. Texto clássico que fundamenta a ideia de harmonia social baseada na ordenação das diferenças, oferecendo paralelo filosófico à diversidade interna do sistema maçônico;

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