sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O Triângulo como Chave de Harmonia Entre Conhecimento e Mistério

 Charles Evaldo Boller

O simbolismo do triângulo oferece uma das mais fecundas chaves de leitura para harmonizar campos do saber que, à primeira vista, parecem irreconciliáveis: Maçonaria, filosofia, ciência, religião e mesmo a moderna física quântica. Longe de se tratar de mera figura geométrica, o triângulo revela-se como um arquétipo universal da ordem, da manifestação e da unidade possível no plano humano, funcionando como ponte entre o visível e o invisível, o racional e o simbólico, o mensurável e o mistério.

Na tradição maçônica, o triângulo exprime a superação da dualidade pela síntese consciente. A Unidade absoluta, incognoscível, permanece além de qualquer definição; a dualidade introduz a diferença, o contraste e o conflito; o ternário, porém, integra sem anular, harmoniza sem suprimir. Esse movimento encontra notável paralelo na filosofia clássica. Em Platão, a justiça nasce da harmonia entre as partes da alma; em Aristóteles, a virtude reside no justo meio; em Pitágoras, o número é a estrutura secreta do cosmos. Em todos esses sistemas, a perfeição não é excesso nem ruptura, mas proporção.

Quando a religião recorre ao ternário, como no dogma cristão da Trindade ou nas tríades orientais do Logos, não o faz por convenção teológica, mas por intuição simbólica: três é o menor número capaz de expressar relação viva. Um é silêncio absoluto; dois é tensão; três é diálogo. A Maçonaria, ao adotar o triângulo como símbolo central, preserva essa intuição e a traduz em método iniciático e moral, afastando-se tanto do dogmatismo religioso quanto do materialismo estreito.

A ciência moderna, especialmente a física quântica, oferece inesperadas convergências com essa visão simbólica. O observador, o observado e o ato de observação formam um ternário inseparável, rompendo com a antiga ilusão de um mundo puramente objetivo. A realidade, como sugerem os físicos contemporâneos, não se manifesta sem relação. Essa estrutura relacional ecoa o simbolismo do triângulo, no qual nenhuma linha existe isoladamente e a forma só surge quando o conjunto se fecha. A metáfora é clara: a realidade não é ponto, nem linha, mas superfície relacional.

Nesse contexto, o triângulo pode ser comparado a um campo de forças estável. Assim como na física um sistema atinge equilíbrio quando forças opostas se compensam por meio de uma terceira resultante, na vida moral e espiritual o homem encontra estabilidade quando integra razão, sentimento e vontade. O maçom, ao trabalhar simbolicamente esse arquétipo, aprende que o aperfeiçoamento não consiste em negar partes de si, mas em ordená-las segundo uma medida justa.

Essa medida, central no ritual e na ética maçônica, não é arbitrária. Ela nasce do reconhecimento dos limites humanos diante do infinito. O homem não se torna absoluto, mas torna-se consciente. Como ensinava Immanuel Kant, a razão humana deve reconhecer seus limites para alcançar sua verdadeira dignidade. O triângulo simboliza exatamente isso: uma unidade construída, finita, porém verdadeira, capaz de refletir, na matéria e na ação, a ordem do princípio universal.

A metáfora final talvez seja a mais simples e a mais profunda: o triângulo é uma ponte. Uma ponte entre ciência e religião, porque permite pensar o mistério sem negar a razão; entre filosofia e simbolismo, porque traduz conceitos abstratos em imagens vivas; entre o indivíduo e o Todo, porque ensina que a unidade interior é condição da harmonia exterior. Assim, o simbolismo maçônico não se opõe ao saber moderno, mas o completa, lembrando que todo conhecimento, para ser plenamente humano, deve também ser sabedoria.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Antônio C. A. Gomes. São Paulo: Martin Claret, 2001. Obra fundamental para a compreensão da virtude como justo meio, oferecendo base conceitual sólida para o entendimento da medida, da proporção e do equilíbrio moral presentes no simbolismo ternário maçônico;

2.      CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. Tradução de Newton Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 1983. Obra que estabelece pontes entre a física moderna e as tradições filosóficas e espirituais, auxiliando na harmonização entre ciência contemporânea e simbolismo metafísico;

3.      ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Estudo essencial sobre a função dos símbolos na mediação entre o transcendente e o mundo sensível, esclarecendo o papel arquetípico do triângulo nas tradições religiosas e iniciáticas;

4.      KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução de Valério Rohden. São Paulo: abril Cultural, 1980. Obra decisiva para compreender os limites da razão humana, contribuindo para a reflexão sobre a unidade finita e consciente simbolizada pelo ternário;

5.      PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Texto central da filosofia clássica que desenvolve a tripartição da alma e a noção de justiça como harmonia, em profunda consonância com o simbolismo do triângulo e sua aplicação ética;

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