O simbolismo do triângulo oferece uma das mais fecundas chaves
de leitura para harmonizar campos do saber que, à primeira vista, parecem
irreconciliáveis: Maçonaria, filosofia, ciência, religião e mesmo a moderna
física quântica. Longe de se tratar de mera figura geométrica, o triângulo
revela-se como um arquétipo universal da ordem, da manifestação e da unidade
possível no plano humano, funcionando como ponte entre o visível e o invisível,
o racional e o simbólico, o mensurável e o mistério.
Na tradição maçônica, o triângulo exprime a superação da
dualidade pela síntese consciente. A Unidade absoluta, incognoscível, permanece
além de qualquer definição; a dualidade introduz a diferença, o contraste e o
conflito; o ternário, porém, integra sem anular, harmoniza sem suprimir. Esse
movimento encontra notável paralelo na filosofia clássica. Em Platão, a justiça
nasce da harmonia entre as partes da alma; em Aristóteles, a virtude reside no
justo meio; em Pitágoras, o número é a estrutura secreta do cosmos. Em todos
esses sistemas, a perfeição não é excesso nem ruptura, mas proporção.
Quando a religião recorre ao ternário, como no dogma cristão da
Trindade ou nas tríades orientais do Logos, não o faz por convenção teológica,
mas por intuição simbólica: três é o menor número capaz de expressar relação
viva. Um é silêncio absoluto; dois é tensão; três é diálogo. A Maçonaria, ao
adotar o triângulo como símbolo central, preserva essa intuição e a traduz em
método iniciático e moral, afastando-se tanto do dogmatismo religioso quanto do
materialismo estreito.
A ciência moderna, especialmente a física quântica, oferece inesperadas
convergências com essa visão simbólica. O observador, o observado e o ato de
observação formam um ternário inseparável, rompendo com a antiga ilusão de um
mundo puramente objetivo. A realidade, como sugerem os físicos contemporâneos,
não se manifesta sem relação. Essa estrutura relacional ecoa o simbolismo do
triângulo, no qual nenhuma linha existe isoladamente e a forma só surge quando
o conjunto se fecha. A metáfora é clara: a realidade não é ponto, nem linha,
mas superfície relacional.
Nesse contexto, o triângulo pode ser comparado a um campo de
forças estável. Assim como na física um sistema atinge equilíbrio quando forças
opostas se compensam por meio de uma terceira resultante, na vida moral e
espiritual o homem encontra estabilidade quando integra razão, sentimento e
vontade. O maçom, ao trabalhar simbolicamente esse arquétipo, aprende que o
aperfeiçoamento não consiste em negar partes de si, mas em ordená-las segundo
uma medida justa.
Essa medida, central no ritual e na ética maçônica, não é
arbitrária. Ela nasce do reconhecimento dos limites humanos diante do infinito.
O homem não se torna absoluto, mas torna-se consciente. Como ensinava Immanuel
Kant, a razão humana deve reconhecer seus limites para alcançar sua verdadeira
dignidade. O triângulo simboliza exatamente isso: uma unidade construída,
finita, porém verdadeira, capaz de refletir, na matéria e na ação, a ordem do
princípio universal.
A metáfora final talvez seja a mais simples e a mais profunda: o
triângulo é uma ponte. Uma ponte entre ciência e religião, porque permite
pensar o mistério sem negar a razão; entre filosofia e simbolismo, porque
traduz conceitos abstratos em imagens vivas; entre o indivíduo e o Todo, porque
ensina que a unidade interior é condição da harmonia exterior. Assim, o
simbolismo maçônico não se opõe ao saber moderno, mas o completa, lembrando que
todo conhecimento, para ser plenamente humano, deve também ser sabedoria.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de
Antônio C. A. Gomes. São Paulo: Martin Claret, 2001. Obra fundamental para a
compreensão da virtude como justo meio, oferecendo base conceitual sólida para
o entendimento da medida, da proporção e do equilíbrio moral presentes no
simbolismo ternário maçônico;
2.
CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. Tradução de
Newton Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 1983. Obra que estabelece
pontes entre a física moderna e as tradições filosóficas e espirituais,
auxiliando na harmonização entre ciência contemporânea e simbolismo metafísico;
3.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. Tradução
de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Estudo essencial sobre a
função dos símbolos na mediação entre o transcendente e o mundo sensível,
esclarecendo o papel arquetípico do triângulo nas tradições religiosas e
iniciáticas;
4.
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução
de Valério Rohden. São Paulo: abril Cultural, 1980. Obra decisiva para
compreender os limites da razão humana, contribuindo para a reflexão sobre a
unidade finita e consciente simbolizada pelo ternário;
5.
PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da
Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Texto central da
filosofia clássica que desenvolve a tripartição da alma e a noção de justiça
como harmonia, em profunda consonância com o simbolismo do triângulo e sua
aplicação ética;

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