A ideia de que o Grande Arquiteto do Universo cria o Universo a
partir do "nada" constitui
uma das mais elevadas sínteses simbólicas já formuladas pelo pensamento humano.
Esse "nada", longe de
significar inexistência, representa o fundamento invisível de todas as coisas,
aquilo que escapa aos sentidos, mas sustenta o que se manifesta como realidade.
A Maçonaria, ao operar por símbolos, convida o espírito a ultrapassar a ilusão
do mundo sensível e a reconhecer que o visível é apenas a superfície de uma
ordem mais profunda, regida por leis universais que harmonizam matéria, energia
e consciência.
A filosofia clássica antecipou essa intuição ao questionar a
solidez do ser aparente. Quando Górgias afirma que o ser não existe, mas apenas
o nada, não propõe o vazio absoluto, mas denuncia a inconsistência ontológica
daquilo que nasce, muda e perece. O mundo percebido pelos sentidos é como a
sombra projetada na parede da caverna platônica: necessária ao aprendizado
inicial, mas insuficiente para quem busca a verdade. Já Parmênides, ao afirmar
que o caminho da verdade é o caminho da razão, aponta para uma razão que
discerne entre aparência e essência, não se limitando ao que é imediatamente
dado.
A Maçonaria Especulativa integra essas heranças ao ensinar que o
aperfeiçoamento do indivíduo exige o uso disciplinado da razão, aliado à
intuição e à vivência simbólica. O esquadro, o compasso e o nível não são
apenas instrumentos operativos, mas metáforas das leis que regem o cosmos.
Assim como o arquiteto concebe a obra antes de erguê-la, o Grande Arquiteto do
Universo ordena o real a partir de princípios invisíveis, transformando
potencialidade em forma. O "nada"
corresponde a esse plano potencial, comparável ao silêncio que antecede a
música ou à tela em branco que contém todas as pinturas possíveis.
A ciência contemporânea, especialmente a física quântica,
fornece linguagem técnica para intuições antigas. A matéria revelou-se energia
organizada em padrões estáveis; o átomo, antes concebido como sólido,
mostrou-se majoritariamente espaço vazio estruturado por campos de força. Nada
surge do nada nem retorna ao nada, como já ensinava Anaxágoras, antecipando o
princípio moderno da conservação da energia. O que se chama criação é, na
verdade, transformação, passagem de um estado a outro dentro da mesma ordem
universal.
Nesse horizonte, ciência e religião deixam de ser antagonistas.
A ciência investiga os mecanismos da manifestação; a religião, quando depurada
do dogmatismo, aponta para o sentido e a finalidade. A Maçonaria atua como
ponte simbólica entre esses domínios, harmonizando razão científica,
contemplação filosófica e intuição espiritual. Como observou Albert Einstein, o
mais belo sentimento é o do mistério, pois é dele que nasce a verdadeira
ciência e a verdadeira arte. O mistério não bloqueia o conhecimento;
estimula-o.
A noção de espírito, compreendida como essência vibratória
sutil, insere-se naturalmente nesse quadro. Assim como existem frequências
sonoras e eletromagnéticas fora do alcance dos sentidos humanos, a consciência
pode manifestar-se em níveis não perceptíveis pelos instrumentos atuais. A
morte, nesse contexto, não é aniquilação, mas transição: a forma cessa, a
essência se religa ao todo. Essa compreensão tem consequências éticas
profundas, pois, se tudo participa da mesma origem, a fraternidade deixa de ser
ideal abstrato e torna-se exigência lógica.
Tudo conduz a uma visão integrada do real, na qual nada e tudo
são polos complementares de uma única ordem. O iniciado aprende que conhecer o
Universo é, simultaneamente, conhecer a si mesmo, e que polir a própria
consciência é contribuir para a harmonia do todo. O trabalho interior torna-se,
assim, verdadeiro labor arquitetônico, realizado não com pedras materiais, mas
com ideias, atitudes e virtudes.
Bibliografia Comentada
1.
ANAXÁGORAS. Fragmentos e testemunhos. Traduções
diversas. Anaxágoras formula o princípio da continuidade do real, segundo o
qual nada surge do nada nem se dissolve no nada, antecipando concepções
modernas da conservação da energia;
2.
EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira. As reflexões de Einstein revelam a abertura da ciência
ao mistério e à dimensão filosófica do conhecimento, aproximando ciência, ética
e espiritualidade;
3.
GÓRGIAS. Fragmentos. Traduções diversas. Os
fragmentos atribuídos a Górgias oferecem uma crítica radical à consistência
ontológica do mundo sensível, fornecendo base conceitual para a reflexão sobre
o nada como fundamento e não como ausência;
4.
PARMÊNIDES. Sobre a natureza. Traduções
diversas. A obra de Parmênides estabelece a razão como via privilegiada para a
verdade, distinguindo o ser necessário das aparências mutáveis, sendo essencial
à compreensão Metafísica do real;
5.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes.
A alegoria da caverna oferece poderosa metáfora para a distinção entre
aparência sensível e realidade inteligível, em plena consonância com o
simbolismo iniciático;

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