quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Nada e Tudo na Ordem Invisível do Real

 Charles Evaldo Boller

A ideia de que o Grande Arquiteto do Universo cria o Universo a partir do "nada" constitui uma das mais elevadas sínteses simbólicas já formuladas pelo pensamento humano. Esse "nada", longe de significar inexistência, representa o fundamento invisível de todas as coisas, aquilo que escapa aos sentidos, mas sustenta o que se manifesta como realidade. A Maçonaria, ao operar por símbolos, convida o espírito a ultrapassar a ilusão do mundo sensível e a reconhecer que o visível é apenas a superfície de uma ordem mais profunda, regida por leis universais que harmonizam matéria, energia e consciência.

A filosofia clássica antecipou essa intuição ao questionar a solidez do ser aparente. Quando Górgias afirma que o ser não existe, mas apenas o nada, não propõe o vazio absoluto, mas denuncia a inconsistência ontológica daquilo que nasce, muda e perece. O mundo percebido pelos sentidos é como a sombra projetada na parede da caverna platônica: necessária ao aprendizado inicial, mas insuficiente para quem busca a verdade. Já Parmênides, ao afirmar que o caminho da verdade é o caminho da razão, aponta para uma razão que discerne entre aparência e essência, não se limitando ao que é imediatamente dado.

A Maçonaria Especulativa integra essas heranças ao ensinar que o aperfeiçoamento do indivíduo exige o uso disciplinado da razão, aliado à intuição e à vivência simbólica. O esquadro, o compasso e o nível não são apenas instrumentos operativos, mas metáforas das leis que regem o cosmos. Assim como o arquiteto concebe a obra antes de erguê-la, o Grande Arquiteto do Universo ordena o real a partir de princípios invisíveis, transformando potencialidade em forma. O "nada" corresponde a esse plano potencial, comparável ao silêncio que antecede a música ou à tela em branco que contém todas as pinturas possíveis.

A ciência contemporânea, especialmente a física quântica, fornece linguagem técnica para intuições antigas. A matéria revelou-se energia organizada em padrões estáveis; o átomo, antes concebido como sólido, mostrou-se majoritariamente espaço vazio estruturado por campos de força. Nada surge do nada nem retorna ao nada, como já ensinava Anaxágoras, antecipando o princípio moderno da conservação da energia. O que se chama criação é, na verdade, transformação, passagem de um estado a outro dentro da mesma ordem universal.

Nesse horizonte, ciência e religião deixam de ser antagonistas. A ciência investiga os mecanismos da manifestação; a religião, quando depurada do dogmatismo, aponta para o sentido e a finalidade. A Maçonaria atua como ponte simbólica entre esses domínios, harmonizando razão científica, contemplação filosófica e intuição espiritual. Como observou Albert Einstein, o mais belo sentimento é o do mistério, pois é dele que nasce a verdadeira ciência e a verdadeira arte. O mistério não bloqueia o conhecimento; estimula-o.

A noção de espírito, compreendida como essência vibratória sutil, insere-se naturalmente nesse quadro. Assim como existem frequências sonoras e eletromagnéticas fora do alcance dos sentidos humanos, a consciência pode manifestar-se em níveis não perceptíveis pelos instrumentos atuais. A morte, nesse contexto, não é aniquilação, mas transição: a forma cessa, a essência se religa ao todo. Essa compreensão tem consequências éticas profundas, pois, se tudo participa da mesma origem, a fraternidade deixa de ser ideal abstrato e torna-se exigência lógica.

Tudo conduz a uma visão integrada do real, na qual nada e tudo são polos complementares de uma única ordem. O iniciado aprende que conhecer o Universo é, simultaneamente, conhecer a si mesmo, e que polir a própria consciência é contribuir para a harmonia do todo. O trabalho interior torna-se, assim, verdadeiro labor arquitetônico, realizado não com pedras materiais, mas com ideias, atitudes e virtudes.

Bibliografia Comentada

1.      ANAXÁGORAS. Fragmentos e testemunhos. Traduções diversas. Anaxágoras formula o princípio da continuidade do real, segundo o qual nada surge do nada nem se dissolve no nada, antecipando concepções modernas da conservação da energia;

2.      EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. As reflexões de Einstein revelam a abertura da ciência ao mistério e à dimensão filosófica do conhecimento, aproximando ciência, ética e espiritualidade;

3.      GÓRGIAS. Fragmentos. Traduções diversas. Os fragmentos atribuídos a Górgias oferecem uma crítica radical à consistência ontológica do mundo sensível, fornecendo base conceitual para a reflexão sobre o nada como fundamento e não como ausência;

4.      PARMÊNIDES. Sobre a natureza. Traduções diversas. A obra de Parmênides estabelece a razão como via privilegiada para a verdade, distinguindo o ser necessário das aparências mutáveis, sendo essencial à compreensão Metafísica do real;

5.      PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes. A alegoria da caverna oferece poderosa metáfora para a distinção entre aparência sensível e realidade inteligível, em plena consonância com o simbolismo iniciático;

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