terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A Arte de Ascender no Mundo e em Si Mesmo

 Charles Evaldo Boller

Moral e Espiritualidade do Maçom

A espiritualidade maçônica não é fuga mística nem adorno filosófico, mas um método de lapidação interior capaz de transformar o homem comum em arquiteto consciente de sua própria existência. No mundo acelerado e fragmentado, onde a violência brota da falta de amor e da pobreza moral, a Maçonaria propõe um caminho de equilíbrio, autodomínio e lucidez. Seu objetivo não é salvar almas, mas despertar consciências, revelando a grandeza oculta no próprio ser. Através de símbolos, rituais e exercícios de pensar, o maçom aprende a domar paixões, disciplinar emoções e harmonizar razão e espiritualidade, tornando-se capaz de agir com firmeza sem cair na vingança, de exercer tolerância sem sucumbir à permissividade, de buscar justiça sem ser instrumento de despotismos. Entre filosofia clássica, física moderna e tradições esotéricas, o ensaio apresenta a Maçonaria como ponte entre o visível e o invisível, entre o eu e o cosmos, convidando o leitor a explorar a ética como construção diária e a espiritualidade como ciência da consciência. Ao descobrir o sentido profundo dos símbolos e do Grande Arquiteto do Universo como princípio universal, o leitor será conduzido a uma reflexão transformadora: ser maçom é, sobretudo, tornar-se um ser humano mais desperto, ativo e luminoso.

A Construção Interior como Horizonte da Vida Maçônica

A Maçonaria não nasceu para ser mais uma peça no complicado tabuleiro das instituições humanas, nem para funcionar como "refúgio psicológico" de homens cansados do caos social. Seu propósito primordial é mais ambicioso: despertar uma espiritualidade madura, lúcida e operativa, muito diferente daquela espiritualidade difusa, emocional ou supersticiosa que caracteriza grande parte da humanidade desorientada. A Ordem visa formar um tipo humano específico: um construtor de si mesmo, um sacerdote de sua própria consciência, um diplomata da paz, um guerreiro ético e um artesão do espírito.

A massa humana, entregue ao consumismo voraz, costuma mover-se como poeira ao vento, sem centro e sem eixo, girando em torno de valores líquidos e voláteis. A violência contemporânea, apesar de sua multiplicidade de causas sociológicas, manifesta sempre uma origem mais profunda: a ausência de amor e de moralidade autêntica, frutos diretos da baixa espiritualidade. A degradação moral antecede e alimenta o colapso social.

A espiritualidade maçônica, que não é religião, doutrina ou crença, é uma capacidade latente em todos os seres humanos, como uma semente adormecida que aguarda solo fértil. O trabalho maçônico não é "conceder" espiritualidade, mas revelar a espiritualidade inerente. Não se trata de impor dogmas, mas de retirar véus. Cada obreiro, ao tomar consciência dessa potência interior, passa a reorientar suas atitudes diante de si mesmo, de sua família, da sociedade e de toda a biosfera que chamamos Gaia.

A Ordem não concorre com religiões; tampouco as substitui. Mas reconhece que as formas religiosas, apesar de sua importância civilizatória, frequentemente fracassam em conduzir seus fiéis à maturidade moral. A espiritualidade maçônica, ao contrário, busca o exercício do amor mediante práticas simbólicas e filosóficas que convidam ao autodomínio, à interiorização, ao pensar crítico e ao serviço ao próximo.

A Ativação do Maçom: do Homem Passivo ao Homem Operante

A transformação espiritual e moral não ocorre por osmose. É preciso "ativar" o maçom, despertá-lo de sua condição humana inclinada ao prazer imediato, às paixões desordenadas, ao ego inflado e à impulsividade. O trabalho interior exige permanente vigilância. Quem não vigia cai.

A tradição maçônica, especialmente no Rito Escocês Antigo e Aceito, fornece instruções e técnicas de ensino sofisticadas. A certo altura do desenvolvimento, caminhando pelos 33 graus do Rito Escocês Antigo e Aceito, apenas a título de exemplo, adverte o maçom contra a tentação de assumir o papel de justiceiro, de querer impor sua verdade à força, de ceder ao instinto primitivo da vingança.

A vingança sempre é estéril: quem a pratica despe a si mesmo de racionalidade e regressa ao estado selvagem. A Maçonaria educa pelo método simbólico. As narrativas, lendas, alegorias e parábolas instruem o iniciado a desenvolver a virtude da tolerância, virtude complexa, difícil, sutil, sempre condicionada ao contexto. A tolerância não é aceitação irrestrita de tudo; é a firmeza de não devolver o mal com o mal, sem renunciar à defesa da justiça.

A abóbada de aço, por exemplo, não é apenas um símbolo estético: ela ensina que a justiça é escudo e espada, proteção aos leais e condenação aos pérfidos. Não se trata de intolerância pura e simples, mas da justa aplicação da lei moral. A espiritualidade não é sinônimo de mansidão ingênua; é inteligência moral que distingue entre tolerar o erro e consentir com o crime.

O maçom deve agir assemelhado a um cavaleiro medieval: defensor dos fracos, guardião da paz, escudo dos oprimidos. Os instrumentos da Oficina, régua, esquadro, compasso, malho e cinzel, traduzem princípios éticos. A régua recorda que há limites; o esquadro exige retidão; o malho simboliza a energia necessária para combater o mal; o compasso circunscreve os desejos e paixões.

O iniciado nunca toma a justiça com as próprias mãos, mas age para que a justiça prevaleça. Ele combate o mal, mas jamais se deixa contaminar por ele.

Intolerância, Fanatismo e a Espiritualidade Racional do Maçom

A grande tarefa da Maçonaria é transformar a indignação justa em sabedoria madura. A intolerância e o fanatismo, frutos de ignorância espiritual, devastaram continentes, incendiaram templos, dizimaram povos. A única forma de reduzi-los a níveis insignificantes é uma sociedade educada, racional e espiritualizada.

O maçom aprende que tolerância absoluta é autodestrutiva: tolerar os intolerantes conduz ao fim da tolerância. Portanto, a Ordem ensina o delicado equilíbrio entre acolher diferenças e impor limites éticos.

A Maçonaria nasceu no século XVIII para unir homens de diversas crenças, línguas e tradições em torno do exercício da razão, da liberdade e da fraternidade universal. Essa reunião só foi possível porque nenhum maçom pode reivindicar a posse da verdade absoluta. A verdade última, se existe, pertence somente ao Grande Arquiteto do Universo, que, de sua parte, é um conceito filosófico e não entidade religiosa.

O maçom espiritualizado dispensa intermediários entre si e sua divindade. Ele mesmo é seu templo. Ele mesmo acende sua Luz. Ele mesmo é sacerdote e oferenda.

Maçonaria, Religião e a Questão do Grande Arquiteto do Universo

A Maçonaria não é religião, mas é profundamente religiosa no sentido etimológico de "religare": reconecta o homem consigo mesmo, com o próximo e com a totalidade do cosmos. Mas não oferece dogmas, salvação, clero ou culto.

Grande Arquiteto do Universo é um conceito, não uma figura antropomórfica. É símbolo da ordem, da inteligência e da harmonia universal. Cada obreiro o interpreta à luz de sua própria tradição, cristão, judeu, muçulmano, budista, deísta ou panteísta.

A Ordem exige apenas duas crenças fundamentais (Landmarks 19 e 20):

·         A existência de um princípio supremo;

·         A imortalidade da alma ou sobrevivência espiritual.

Além disso, a Maçonaria explora elementos da filosofia clássica, especialmente o platonismo, para indicar que a realidade sensível é apenas sombra da realidade inteligível. Assim como o prisioneiro da caverna deve erguer-se em direção ao Sol, o iniciado deve ascender da ignorância à Luz.

Espiritualidade como Consciência da Unidade da Vida

A doutrina maçônica reconhece que toda vida é continuidade. O corpo morre, mas não a vida que habita em cada ser. Todos os organismos compartilham moléculas, estruturas e princípios fundamentais com a biosfera terrestre, e essa compreensão amplia o sentido espiritual.

A espiritualidade maçônica aproxima-se das concepções herméticas: "O que está em cima é como o que está embaixo". O espírito é a centelha divina que anima todas as criaturas e irmana todos os seres em uma grande teia cósmica. É por isso que o orgulho espiritual é contradição: ninguém é separado; ninguém é superior.

A vida é parte de um gigantesco organismo vivo, e cada indivíduo é célula participativa desse corpo universal.

O Caminho do Maçom: Ética, Liberdade e Autodomínio

Ser maçom não é ostentar títulos, graus ou insígnias. É incorporar virtudes. O maçom evoluído busca equilíbrio interior e exterior. Suas virtudes não provêm do medo da punição, mas do desejo profundo de bem agir.

Ele conhece suas paixões e não as elimina, mas disciplina-as. Sabe que o prazer existe para ser apreciado, não para escravizar. Sabe que a palavra é sagrada, e por isso fala com moderação e coragem. Sabe que a virtude é um exercício constante.

Sua espiritualidade manifesta-se em pequenas ações: na cordialidade, no trabalho, na família, na postura diante das injustiças. Contra fanatismo, intolerância e ignorância, sua posição é firme, porém sem ódio. Ele é bom, mas não ingênuo; é pacífico, mas não passivo.

A Tolerância: Virtude, Limite e Ferramenta

A Maçonaria não prega tolerância universal. Isso seria fraqueza. Ela prega tolerância criteriosa, inteligente, moralmente orientada.

A história fornece exemplos. No Brasil, o Marechal Deodoro da Fonseca, maçom, combateu a escravidão espiritual e mental característica do despotismo: instituiu o casamento civil, secularizou cemitérios, proibiu o ensino religioso nas escolas públicas e extinguiu a pena de morte em tempos de paz. Seu governo foi breve e imperfeito, mas representou a luta eficiente contra a tirania.

O maçom deve agir do mesmo modo: com equilíbrio, firmeza e coragem. Tolerância não é licenciosidade; Democracia não é fraqueza; liberdade não é caos.

·         Se tolerarmos o intolerável, destruímos a liberdade.

·         Se odiarmos o adversário, destruímos a fraternidade.

·         Se renunciarmos às discussões, destruímos a inteligência.

O maçom pratica a "tolerância com limites" porque sabe que sem limites a tolerância anula a si mesma.

Filosofar como Exercício de Liberdade

O maçom aprende a pensar em dicotomias, a apresentar argumentos múltiplos, a ouvir e a calar. Filosofar é pensar sem provas absolutas. É especular sem dogma. É examinar ideias por amor à Verdade e não por vaidade intelectual.

A prática ritualística, silenciosa, simbólica e meditativa, forma um ambiente no qual o homem pode exercitar sua própria razão, libertar-se da minoridade kantiana e criar uma consciência autônoma.

O maçom pensa para ser livre; é livre porque pensa.

Espiritualidade e Física Quântica: o Campo da Consciência

Ao relacionar espiritualidade com ciência, especialmente com a física quântica, não se pretende fazer pseudociência, mas explorar metáforas úteis. A física moderna demonstra que a realidade é mais interdependente, vibratória e sutil do que os sentidos captam.

O átomo é vazio da ótica como nossa vida de ilusão nos apresenta. A matéria é energia condensada. Tudo vibra. Tudo no Universo é composto de pequenos campos energéticos que se movimentam em velocidade tão vertiginosa e mantém entre si uma força de atração tão intensa que nos transmitem a ideia de que a matéria que tocamos é sólida.

A consciência, embora ainda um mistério científico, parece dialogar com realidades que transcendem o espaço-tempo clássico. Na cosmologia, nas teorias de campos e na neurociência, a ideia de interconexão universal ganha substância.

A espiritualidade maçônica entende o homem como ponto luminoso dentro de um grande círculo, uma estrela viva dentro da Criação. O compasso que delimita a ação moral pode ser comparado às forças que estruturam o cosmos. O esquadro que exige retidão pode ser comparado ao princípio da ordem que rege galáxias e partículas.

O Templo interior é, em certa medida, um microcosmo quântico: sutil, vibratório, simbólico, invisível, mas real.

Exemplos Práticos: a Espiritualidade na Vida Diária

·         No trabalho. O maçom não busca ser chefe, mas líder. Lidera pela integridade, pela ética e pela compaixão. Promove justiça sem autoritarismo e diálogo sem fraqueza.

·         Na família. É o eixo moral. Mantém a serenidade nos conflitos, orienta com amor e firmeza, e cuida para que a casa seja espaço sagrado de aprendizado e de paz.

·         Na sociedade. Participa da vida pública com responsabilidade. Não usa a Maçonaria como trampolim, mas como fonte de valores. Combate corrupção, fanatismo e injustiça com coragem, mas sem ódio.

·         Em si mesmo. Pratica meditação, estudo, silêncio, reflexão e autocrítica. Usa o compasso para medir suas ações e o esquadro para corrigir seus desvios.

O Maçom como Homem Novo

O propósito da Maçonaria é simples e gigantesco: construir um homem que pense, sinta e aja com espiritualidade ativa. Um homem que combina firmeza moral com delicadeza espiritual. Um homem que combate o mal sem se transformar nele. Um homem que irradia luz onde há trevas, amor onde há ódio e inteligência onde há ignorância.

·         A iniciação é interior.

·         O templo a ser construído é o coração.

·         O material de obra é a própria vida.

O maçom, quando desperto, torna-se não apenas um melhor cristão, judeu ou muçulmano, mas um melhor humano. E o mundo, por consequência, torna-se um pouco mais justo, mais sábio e mais iluminado.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2010. Obra clássica sobre a virtude, a moderação e o cultivo do caráter. Fundamenta a ética do equilíbrio que permeia a espiritualidade maçônica;

2.      BOHM, David. Wholeness and the Implicate Order. London: Routledge, 2002. Apresenta a ideia de interconexão universal no campo quântico, diálogo útil à metáfora da unidade espiritual presente na Maçonaria;

3.      CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1995. Explora mitos e arquétipos que iluminam as narrativas maçônicas de morte e renascimento iniciático;

4.      DESCARTES, René. Meditações Metafísicas. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2008. Inspira o racionalismo espiritual da Ordem, sobretudo na crítica ao dogmatismo;

5.      EINSTEIN, Albert. Meu Mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. Reflexões éticas e científicas que sustentam a relação entre espiritualidade e ciência;

6.      KANT, Immanuel. A Paz Perpétua. São Paulo: Martins Fontes, 2008. Indispensável para compreender a ideia de tolerância racional limitada, tão cara à filosofia maçônica;

7.      LOCKE, John. Ensaio sobre o Entendimento Humano. São Paulo: Editora Unesp, 2011. Base da visão deísta presente em parte da tradição da Maçonaria moderna;

8.      PLATÃO. A República. São Paulo: Vozes, 2012. Inspira a metáfora iniciática da ascensão da caverna para a luz, central na formação moral do maçom;

9.      SPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2017. Desenvolve a noção de liberdade pela razão, convergente com a espiritualidade ativa do maçom;

10.  STEINER, Rudolf. Ciência Oculta. São Paulo: Antroposófica, 2012. Aprofunda a ideia de evolução espiritual e conexão com o cosmos, dialogando com o simbolismo maçônico;

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