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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Leitura do Livro da Lei

 Charles Evaldo Boller

Entre a Memória Cultural do Rito e a Dinâmica Evolutiva da Maçonaria Contemporânea

A Simbologia Original das Joias que Repousavam Sobre o Altar

A questão da leitura do livro da lei no Rito Escocês Antigo e Aceito revela muito mais do que um detalhe ritualístico: ela expõe a tensão profunda entre tradição e atualização que acompanha a Maçonaria desde seus primórdios. O ensaio investiga essa tensão ao revisitar a simbologia original das joias que repousavam sobre o altar, especialmente a Régua de Vinte e Quatro Polegadas, e demonstra como a substituição desse símbolo universal pelo livro da lei introduziu desafios culturais, religiosos e filosóficos que não existiam na estrutura primitiva do rito. Ao examinar fontes históricas, antropológicas e esotéricas, o texto mostra que o livro, inicialmente apenas presença simbólica, tornou-se leitura fragmentada, afetando a transmissão da memória cultural que o rito deveria preservar. A reflexão integra filosofia clássica, física quântica e ciência da consciência para revelar como pequenas alterações simbólicas podem alterar profundamente a atmosfera ritual. O leitor é convidado a refletir se o retorno ao símbolo original, ou a revisão do uso ritual do livro, poderia restaurar a universalidade iniciática desejada pelos Irmãos fundadores do Rito Escocês Antigo e Aceito. Uma análise provocativa e profundamente esclarecedora, capaz de despertar novas compreensões sobre o propósito oculto dos ritos e sobre o destino simbólico da Arte Real.

A Tensão Entre Tradição e Atualização

O maçom moderno se encontra diante de um paradoxo: é convocado a manter-se fiel às fontes simbólicas da Arte Real e, simultaneamente, deve responder ao chamado de um mundo em permanente mutação. O desafio é antigo: como transmitir um patrimônio ancestral a gerações que vivem sob outros ritmos tecnológicos, sociais e espirituais? Tal tensão se torna evidente quando o irmão se depara com declarações como a do Ritual de Aprendiz da Mui Respeitável Grande Loja do Paraná, que denuncia o desvirtuamento da Ordem como consequência da abertura indiscriminada de seus templos, acolhendo multidões heterogêneas que se distanciaram dos elevados princípios da instituição.

Essa crítica, recorrente em várias épocas da história maçônica, não pretende ser um ataque ao tempo presente, mas um apelo despertador, uma forma de retomar a bússola moral que conduz o iniciado. Toda instituição viva experimenta tensões internas; o problema não é mudar, mas perder a consciência da direção. A evolução sem Norte é mero deslocamento; com norte, é aperfeiçoamento. Nesse contexto, analisar a simbologia do livro da lei, da Régua de Vinte e Quatro Polegadas e da própria natureza ritualística do Rito Escocês Antigo e Aceito é essencial para compreender como tradição e mudança se equilibram para transmitir, como queriam os antigos, não apenas ideias, mas uma memória cultural.

Base Sociológica da Crise e do Esclarecimento

A crítica contida no ritual paranaense é sociologicamente pertinente. A Maçonaria, como qualquer instituição humana, sofre o efeito do "ruído antropológico": aquilo que os homens tocam, com o tempo, tende a perder sua forma original. A sociologia clássica, de Durkheim a Weber, nos lembra que instituições se desgastam quando sua função sagrada é esquecida e substituída por funções instrumentais. Quando uma fraternidade se torna sociedade de auxílio mútuo ou palanque político, rompe-se o pacto simbólico que a legitimava.

O Rito Escocês Antigo e Aceito, conforme o texto ritualístico, se propõe a recuperar "o mais alto apostolado da moralidade", a prática das virtudes, a liberdade sob a lei, a igualdade segundo o mérito e a fraternidade disciplinada. Aqui reside uma chave simbólica: o rito não deseja retroceder, mas reencontrar sua função. Assim como o compasso circunscreve o homem para que este encontre o centro, o rito circunscreve a instituição, lembrando-a de seu eixo moral.

A História do Livro da Lei: Entre o que se Lê e o que se Mostra

Uma análise histórica revela que a leitura do livro da lei não era originalmente prescrita. O ritual de 1928 apenas determina que o livro fosse aberto "na parte apropriada", sem indicar qual seria essa parte, nem afirmar que deve ser lido. O ritual de 1898, por sua vez, sequer menciona sua abertura. Os rituais franceses de 1804 e 1810, pilares do Rito Escocês Antigo e Aceito, igualmente não impunham leitura alguma.

Isso aponta para uma compreensão simbólica: o livro da lei não era objeto didático, mas um signo ritual, uma presença simbólica, semelhante ao lume que deve brilhar, não ao texto que se deve decifrar.

É importante compreender que o simbolismo original não está vinculado ao conteúdo literal de um texto, mas ao fato de que nele repousa um ideal moral. O livro da lei, qualquer que seja, não ensina por palavras, mas por presença. Assim como o silêncio do templo ensina mais que um discurso, o livro fechado, repousando sobre o altar, é mais poderoso que milhares de versículos.

A Régua de Vinte e Quatro Polegadas: a Ferramenta que se Tornou Livro

Há registros de que, nos primórdios da Maçonaria Especulativa, o conjunto das joias que repousavam sobre o altar era formado por:

·         Régua de vinte e quatro polegadas,

·         Esquadro,

·         Compasso.

Não havia bíblia. E a ausência não é acidental. Naquele contexto, bíblias eram raras, caras e proibidas ao leigo. Ter um exemplar poderia significar perseguição e até morte na fogueira inquisitorial.

Além disso, grande parte dos maçons não sabia ler, a transmissão era oral, como é característico de tradições iniciáticas. Assim, a régua cumpria simbolicamente a função do livro da lei:

·         Continha a noção de ordem,

·         Expressava medida e disciplina,

·         Oferecia o princípio do tempo organizado,

·         Representava o limite moral.

A régua é universal. O livro, não.

A medida é humana e objetiva; a escritura é cultural e subjetiva. O símbolo primitivo, portanto, preservava melhor a universalidade buscada pela Maçonaria. Por isso, substituir a régua pelo livro da lei introduziu uma limitação simbólica: o livro passou a depender da cultura da maioria presente.

O Problema da Fragmentação Simbólica

A régua é indivisível; seu significado é pleno, total. O livro da lei, como substituto, deveria igualmente ser tomado como totalidade simbólica. Mas quando se escolhe um único versículo, repetido sessão após sessão, cria-se uma fragmentação do símbolo, fragmentação que não estava prevista no espírito original do rito. Pegar um único pedaço da totalidade é como tentar compreender o Universo observando apenas um único átomo.

A física quântica nos ensina que um sistema não pode ser compreendido por uma fração isolada; o todo se manifesta no entrelaçamento. Similarmente, o rito não deve ser compreendido por partes desconexas, mas pela totalidade de seus símbolos. A repetição de um único versículo corre o risco de construir um novo rito, não previsto, baseado em microfragmentos textuais e não na força simbólica integral da liturgia.

A Incompatibilidade Religiosa e a Solução Simbólica

O uso da Bíblia Judaico-cristã como livro da lei decorre da origem cultural do Rito Escocês Antigo e Aceito. Assim, naturalmente, pessoas não-cristãs encontrariam dificuldade de ingressar plenamente no rito se exigido fosse o uso exclusivo desse livro. o que, em teoria, excluiria muçulmanos, budistas, hinduístas, espíritas, judeus e outras tradições.

Para resolver essa limitação, adotou-se o uso permutável do livro da lei: cada loja usa o livro sagrado da maioria. Mas isso só se tornou possível porque o símbolo original foi substituído. Se a régua ainda estivesse sobre o altar, o problema sequer existiria, pois ela é uma joia universal, desprovida de conotação religiosa.

Isso levanta uma provocação filosófica:

Será que a substituição da régua pelo livro não introduziu um desafio que não existia antes?

Memória Cultural e Antropologia do Rito

Antropólogos como Victor Turner e Clifford Geertz afirmam que ritos preservam uma memória cultural, transmitida não pelo raciocínio, mas pela percepção simbólica. O rito tem a função de recordar ao iniciado algo que ele não entende racionalmente, mas que, pela repetição ritualística, grava-se em seu inconsciente.

Se o rito original não exigia leitura do livro da lei, mas apenas sua presença simbólica, introduzir leituras específicas, especialmente leituras repetitivas, pode deformar aquilo que deveria ser memória simbólica e torná-lo conteúdo doutrinário. Um rito que vira doutrina perde sua universalidade, e o símbolo que vira catecismo deixa de servir ao iniciado e passa a condicioná-lo.

O ritual não existia para ensinar palavras, mas para despertar imagens internas. É pela imagem, não pela frase, que o inconsciente é transformado.

Maçonaria, Religião e o Perigo da Palavração

Se o livro da lei fosse lido e estudado integralmente, transformar-se-ia em catecismo. E, ao fazer isso, a Maçonaria perderia sua essência e tornar-se-ia religião. Assim, limitar-se a pequenos fragmentos é um modo de evitar o caminho religioso. Mas fragmentar também é perigoso. É preciso encontrar o ponto médio aristotélico, a harmonia entre presença simbólica e uso ritual.

A filosofia clássica recomenda esse equilíbrio:

·         Aristóteles falaria de justa medida.

·         Platão lembraria que a letra mata, mas a essência, o logos, vivifica.

·         Kant falaria da autonomia moral, não tutelada por textos, mas pela razão iluminada.

Ciência, Consciência e Simbolismo: uma Leitura Contemporânea

A física quântica ensina que o observador altera o fenômeno observado. Da mesma forma, o livro da lei não é neutro: o versículo escolhido gera um campo vibracional específico, uma "egrégora textual" que se projeta na sessão. A escolha repetitiva de um mesmo versículo produz uma onda ressonante que condiciona, sutilmente, a "cor emocional" das sessões.

A ciência da informação nos lembra que sinais repetidos criam padrões. A espiritualidade hermética diria que "o que é pensado se manifesta". A neurociência afirma que estímulos repetidos moldam circuitos neuronais.

Assim, repetir um único versículo é, em última instância, alterar a paisagem simbólica do rito. O símbolo deve ser dinâmico, não fixo; profundo, não literal.

Exemplos Práticos para Reflexão em Loja

·         Uma loja majoritariamente cristã adota a bíblia judaico-cristã como livro da lei.

·         Um visitante muçulmano é recepcionado. A troca do livro da lei permite a inclusão, mas cria um problema: qual é a base moral da sessão? A régua não teria esse problema.

·         Uma loja repete o mesmo versículo durante todo o ano.

·         Os aprendizes começam a associar a moral maçônica aos valores daquele versículo particular, não ao rito como um todo.

·         Uma loja decide não ler mais nenhum versículo.

·         A sessão ganha silêncio, profundidade e foco simbólico. O livro da lei se torna presença e não instrução.

·         Retorno da Régua de Vinte e Quatro Polegadas.

·         Ao recolocar a régua no altar, simbolicamente devolve-se o caráter universal ao rito, preservando tradição e evitando conflitos religiosos.

Mudança: Necessidade Vital da Maçonaria

A Maçonaria é formada por muitos ritos porque ela muda. A permanência da essência e a mutabilidade das formas constituem sua força. Assim como o Universo se expande, e assim como a consciência humana se refina, também o rito deve evoluir para permanecer vivo. Evoluir não é negligenciar o original, mas reencontrá-lo.

O retorno ao símbolo primitivo não significa regressão, mas recuperação da memória simbólica. E pode ser uma solução elegante para a tensão religiosa introduzida pela presença de livros sagrados culturalmente específicos.

Pode o Ritual Ser Modificado?

Sim. A história da Maçonaria é a história das adaptações. A pergunta é: a mudança é coerente com a essência? O retorno à simbologia da régua seria, paradoxalmente, uma mudança para preservar o original, um ato de fidelidade criativa, não de ruptura.

O rito existe para transformar consciências, não para manter tradições mortas. Sua força está na capacidade de conduzir o homem ao centro de si mesmo, e para isso o símbolo deve estar vivo e inteligível. Uma régua é inteligível em qualquer cultura; um livro sagrado não.

A solução, portanto, não é dogmatizar, mas harmonizar; não é fixar, mas compreender; não é repetir, mas sentir.

A Maçonaria, como a fênix, renasce quando o símbolo é compreendido e não apenas preservado.

Bibliografia Comentada

1.      ANDERSON, James. Constituições de Anderson. Londres, 1723. Obra fundadora da Maçonaria Especulativa, enfatiza o caráter moral e universal da instituição, sem prescrever textos religiosos específicos;

2.      BALESTRERI, Paulo. Símbolos Maçônicos: Função, História e Interpretação. São Paulo: Madras, 2014. Analisa profundamente o caráter universal dos símbolos, reforçando a tese da régua como instrumento original e intercultural;

3.      BELLINE, Robert. Histoire de la Franc-Maçonnerie Française. Paris: Dervy, 2002. Contextualiza o Rito Escocês Antigo e Aceito e seus primórdios na França pós-iluminista, mostrando que a presença da Bíblia variou historicamente;

4.      CARVALHO, Mário. Antropologia do Ritual Maçônico. Rio de Janeiro: Maçônica Editora, 2010. Investiga a função antropológica dos rituais, reforçando a importância da memória não racional, mas simbólica;

5.      GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008. Fundamenta a ideia de que o rito é um sistema de significados, não um conjunto doutrinário;

6.      KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Proporciona base filosófica para compreender a autonomia moral como independente de textos específicos;

7.      PLATÃO. A República. São Paulo: Edipro, 2019. Sua distinção entre essência e aparência ajuda a entender a força do símbolo sobre a palavra literal;

8.      TURNER, Victor. O Processo Ritual. Petrópolis: Vozes, 2013. Demonstra a função transformadora do rito como estrutura simbólica;

9.      WALKER, Benjamin. Foundations of Ritual Studies. New York: Routledge, 2016. Explora como rituais transmitem cultura através de símbolos e não principalmente por instrução verbal;

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

O Conceito Grande Arquiteto do Universo na Filosofia Maçônica

 Charles Evaldo Boller

Apenas uma Ideia

O conceito do Grande Arquiteto do Universo é a mais elevada expressão da filosofia maçônica. Ele não é deus nem dogma, mas ideia, símbolo e método: a ideia da ordem racional do cosmos, o símbolo da harmonia universal e o método de autotransformação pela razão e pela ética. No silêncio das colunas e na luz dos rituais, o maçom contempla não o rosto de um deus, mas o reflexo da inteligência cósmica que pulsa dentro de si.

Não é Nome de um Deus

O conceito do Grande Arquiteto do Universo é a mais alta expressão da filosofia maçônica. Não é nome de um deus, mas símbolo de um Princípio Criador que transcende todos os dogmas. A Maçonaria, deísta[1] por natureza, reconhece que o Universo é obra de uma inteligência ordenadora, mas se abstém de descrevê-la ou cultuá-la sob formas religiosas.

Ao chamá-lo de "Grande Arquiteto do Universo", o maçom invoca a razão que estrutura o cosmos, não a vontade caprichosa de um deus tribal. O arquiteto constrói pela medida, pela harmonia e pela proporção, e é exatamente isso que o símbolo representa: a ordem racional que governa a matéria e o espírito, o visível e o invisível.

Na filosofia clássica, Aristóteles chamava esse princípio de "Motor Imóvel"; Platão, de "Demiurgo", o modelador do caos segundo as Formas eternas. A Maçonaria, herdeira dessa sabedoria, compreende Grande Arquiteto do Universo como a síntese do pensamento criador, o Ser que É, conforme o Êxodo 3:14.

A epistemologia[2] maçônica ensina que o divino não se conhece pela revelação, mas pela razão iluminada. Cada iniciado é convidado a descobrir o sagrado através da reflexão, da vivência e do símbolo. O rito não impõe crença; propõe autoconhecimento. O Grande Arquiteto do Universo manifesta-se, então, como consciência ordenadora dentro do homem que pensa, sente e age com equilíbrio.

Essa visão libertadora rompe com o dogmatismo. Enquanto a religião busca dominar pela fé cega, a Maçonaria emancipa pela razão ativa. O maçom não teme o divino: compreende-o como lei, harmonia e amor universal. Ser livre é viver segundo essa ordem interior, retidão simbolizada pelo esquadro e justa medida representada pelo compasso.

Na dimensão ética, Grande Arquiteto do Universo inspira a construção do templo interior. Cada ação justa, cada palavra ponderada, é uma pedra polida nessa edificação invisível. Ao refletir a harmonia do cosmos em sua conduta, o maçom participa da própria obra da Criação.

Sob o olhar da filosofia da mente, Grande Arquiteto do Universo é também o arquétipo da totalidade, o Self jungiano, a centelha divina que organiza a psique humana. O templo simbólico é o cérebro, e o trabalho maçônico é mental: cada pedra ajustada é uma ideia alinhada, cada coluna erguida é um valor consolidado.

O ensino maçônico é andragógico: o adulto aprende pela experiência e pela reflexão. Por isso, Grande Arquiteto do Universo não se ensina, vivencia-se. Ele revela-se nas leis da natureza, na ética da razão e no amor fraternal.

Em última instância, Grande Arquiteto do Universo é o símbolo da unidade do Ser. Ele não pertence a nenhuma religião, mas a todos os homens que buscam a Verdade. É o centro imóvel do círculo, a Luz que habita o templo do coração humano.

Reconhecer o Grande Arquiteto do Universo é compreender que o Universo é razão, amor e harmonia, e que o templo a ser erguido é o da consciência.

Ensaio Filosófico e Maçônico

A expressão "Grande Arquiteto do Universo" é uma das mais emblemáticas e universais da Maçonaria. Nela reside uma síntese filosófica que, mais do que nomear um deus, simboliza um princípio ordenador, um pensamento organizador da existência. É um conceito que não se confunde com os deuses pessoais das religiões instituídas, pois não remete à imagem de um ente antropomórfico, ciumento ou vingativo, mas à ideia Metafísica de uma causa primeira racional, um Ser necessário que confere estrutura e sentido ao cosmos.

O termo "Grande Arquiteto do Universo" foi consagrado pela tradição maçônica moderna a partir das Constituições de Anderson (1723), no auge do Iluminismo. Essa época marcou o despertar do pensamento racional e científico que libertava o homem do jugo teológico e do medo imposto por doutrinas absolutistas. Assim, Grande Arquiteto do Universo tornou-se a ponte entre a fé e a razão, permitindo ao maçom manter a espiritualidade sem se tornar refém de dogmas.

A Maçonaria, ao adotar o Deísmo como fundamento filosófico, afirma a existência de um Princípio Criador, mas se abstém de descrevê-lo, nomeá-lo ou adorá-lo sob formas sectárias. Diferente do teísmo[3], que personaliza e institucionaliza o divino, o Deísmo maçônico reconhece o Criador como uma força racional imanente e transcendente ao mesmo tempo, cuja obra se revela na harmonia das leis universais, físicas, morais e espirituais.

O Princípio Criador como Ideia Filosófica

O Grande Arquiteto do Universo não é uma divindade pessoal, mas um conceito metafísico, que exprime a ordem racional do universo. A Maçonaria, enquanto escola filosófica, propõe que o homem, ao contemplar a beleza e a regularidade da Criação, reconheça um Princípio Inteligente. Todavia, ela não obriga ninguém a descrevê-lo, nem o limita a uma tradição cultural ou religiosa.

Na Metafísica clássica, Aristóteles concebeu o "Motor Imóvel" como a causa de todo movimento. Não era um deus no sentido popular, mas o ato puro que gera potência, a perfeição que move o Universo sem ser movida. Da mesma forma, o Grande Arquiteto do Universo não intervém, não pune, não recompensa, ele ordena, estabelece as leis que regem a harmonia cósmica.

Em Platão, encontramos no Timeu a figura do Demiurgo, o artesão divino que modela a matéria caótica segundo as formas ideais. Essa imagem, muito próxima do Grande Arquiteto do Universo, serviu de inspiração simbólica para a Maçonaria: o Universo é obra de um arquiteto cósmico que projeta e harmoniza o caos pela geometria da razão. Assim, o Compasso e o Esquadro tornam-se emblemas dessa racionalidade construtiva, representando a ordem universal aplicada à conduta humana.

Kant, em sua Crítica da Razão Pura, afirma que a razão humana tende naturalmente a buscar o absoluto, embora nunca o alcance de modo empírico. O conceito de Deus, portanto, é regulativo, orienta o pensamento moral e o sentido da existência, ainda que não se prove sua realidade fenomênica. A filosofia maçônica, nesse sentido, não exige prova da existência do Grande Arquiteto do Universo, mas o reconhece como necessidade racional e ética, fundamento da ordem moral e do dever.

A Epistemologia do Inefável

Se o Grande Arquiteto do Universo é um princípio e não uma pessoa, seu conhecimento não se dá pela revelação, mas pela razão iluminada pela experiência. A epistemologia maçônica rejeita o dogmatismo e também o ceticismo[4] extremo. Para o maçom, o saber é fruto de um processo gradual de iluminação interior, tal como o trabalho do Companheiro que lapida sua pedra bruta.

O conhecimento do Princípio Criador é, portanto, simbólico e iniciático. Ele não se adquire por doutrina, mas por vivência. É através dos ritos, símbolos e reflexões que o maçom compreende, não o que é o Grande Arquiteto do Universo, mas como Ele se manifesta na ordem natural e moral. Assim como a luz solar não pode ser apreendida, mas apenas percebida em seus efeitos, o Princípio Criador se revela no equilíbrio das leis cósmicas, na harmonia dos opostos e na consciência do próprio ser.

A Maçonaria suporta um método de ensino andragógica do sagrado. Não se ensina o que pensar sobre o divino, mas como pensar. O aprendiz é convidado a refletir, o companheiro a discernir e o mestre a interiorizar. Esse processo substitui a doutrinação pela autodescoberta. É o método de Sócrates, a maiêutica[5], aplicado à espiritualidade: o mestre não deposita verdades, mas ajuda o discípulo a parir o conhecimento que já traz em si.

Por isso, a discussão sobre "quem é Deus" se torna estéril no contexto maçônico. O que importa é a percepção ética e racional de que o Universo possui ordem, e que o homem é co-criador dessa ordem quando age segundo a razão, a justiça e o amor.

Ética e o Princípio da Liberdade

Na ética maçônica, o reconhecimento do Grande Arquiteto do Universo como princípio e não como dogma tem consequências profundas. O maçom é livre para crer segundo sua consciência. Essa liberdade espiritual o liberta do medo e da servidão mental impostas pelas religiões que exigem submissão.

A religião teísta afirma: "Deus revelou"; a Maçonaria deísta responde: "a razão intui". O teísmo promete a salvação pela fé; o Deísmo maçônico propõe a libertação pelo conhecimento. Aqui está a inconciliabilidade fundamental mencionada no texto base: a Maçonaria liberta pela razão o que a religião prende pela crença.

Contudo, essa liberdade não é anárquica. A liberdade maçônica é moralmente ordenada. O homem livre é aquele que conhece as leis naturais e morais e as respeita por convicção, não por temor. O Grande Arquiteto do Universo como símbolo da razão universal, é o arquétipo dessa ordem moral que o maçom deve reproduzir em sua conduta.

Assim como o arquiteto traça linhas exatas para erguer o templo, o maçom traça linhas éticas para edificar sua vida. O Esquadro representa a retidão moral, o Compasso simboliza a medida justa dos desejos e paixões. Seguir o Grande Arquiteto do Universo é viver segundo a geometria da virtude.

A Metafísica da Unidade

A noção de um Princípio Criador transcende o dualismo das religiões dogmáticas. O Grande Arquiteto do Universo é Uno, e no Uno se reconcilia toda polaridade: luz e trevas, espírito e matéria, bem e mal. Essa visão aproxima a Maçonaria de tradições esotéricas antigas, como o Hermetismo, o Neoplatonismo e o Taoísmo.

No Hermetismo, o axioma "o que está em cima é como o que está embaixo" expressa a correspondência entre o microcosmo e o macrocosmo. O homem, sendo imagem do universo, contém em si o reflexo do Grande Arquiteto do Universo. Conhecer-se é, portanto, conhecer o Princípio. Assim, a famosa inscrição do Templo de Delfos , "conhece-te a ti mesmo", reflete no coração da filosofia maçônica.

O Princípio Criador é também imanente, pois está presente em todas as coisas; e transcendente, pois as ultrapassa. Ele é a unidade subjacente à diversidade. Como diria Spinoza, "Deus sive Natura", Deus ou a Natureza, é uma só substância com infinitos atributos. O Grande Arquiteto do Universo é, portanto, a própria composição do ser.

A Lógica do Inefável

A razão humana, embora limitada, é a ferramenta que a Maçonaria utiliza para aproximar-se do mistério. O logos, termo grego que significa tanto razão quanto palavra, é o meio pelo qual o homem interpreta o universo.

A lógica maçônica, porém, não é cartesiana em sentido estrito. Ela admite o paradoxo, o símbolo, o mistério. O Grande Arquiteto do Universo é uma hipótese necessária, mas inefável. O raciocínio lógico chega até a fronteira do indizível, onde a intuição toma o lugar da demonstração.

A Maçonaria ensina o maçom a pensar por símbolos, pois o símbolo é a linguagem do transcendente. Quando o iniciado vê o triângulo radiante com o olho que tudo vê, ele não pensa em uma divindade vigilante, mas em uma consciência cósmica que observa, equilibra e ilumina.

A Filosofia da Mente e o Sagrado Interior

Sob o prisma da filosofia da mente, o conceito de Grande Arquiteto do Universo pode ser interpretado como arquétipo da totalidade da consciência. Jung denominaria essa dimensão de Self, o centro regulador do psiquismo que simboliza a integração do ser. A Maçonaria, ao falar do Grande Arquiteto do Universo está, de certo modo, evocando a presença do divino no interior do homem, a centelha que o une ao cosmos.

O templo maçônico é o símbolo do cérebro humano, e o trabalho do maçom é mental, não devocional. Cada pedra ajustada é uma ideia alinhada; cada coluna erguida, um valor consolidado. O Grande Arquiteto do Universo, enquanto arquiteto, age na mente como ordem, clareza e proporção. O caos interior se transforma em cosmos quando o homem aprende a pensar e sentir em harmonia.

Dessa forma, a Maçonaria propõe uma espiritualidade racional: a fé como confiança na razão universal e a razão como expressão da fé na harmonia cósmica.

Andragogia e o Ensino do Inefável

O ensino maçônico é essencialmente andragógico, pois se dirige ao adulto consciente, não ao discípulo submisso. O adulto aprende pela experiência, pela reflexão e pela interação com os pares. No contexto maçônico, o aprendizado do Grande Arquiteto do Universo não é teológico, mas vivencial.

A cada sessão, o maçom é convidado a revisitar o conceito de ordem universal nas discussões filosóficas, éticas e simbólicas. Ele aprende que o Grande Arquiteto do Universo não está fora, mas dentro, na coerência entre pensamento e ação, entre intenção e obra.

Malcolm Knowles, teórico da andragogia, afirma que o adulto aprende melhor quando percebe a aplicabilidade imediata do conhecimento. Assim, o maçom é levado a aplicar a ideia de Grande Arquiteto do Universo em sua vida cotidiana: ao agir com justiça, ao pensar com retidão, ao construir com amor. Cada ato ético é uma pedra colocada na construção do Templo Universal.

A Crítica à Intolerância Religiosa

A história humana está repleta de guerras santas e perseguições fundadas na propriedade do nome de Deus. A Maçonaria, ao propor o conceito de um princípio anônimo, rompe com o tribalismo espiritual. "Deus" não é posse de ninguém.

Albert Mackey, em seus Landmarks, adverte que o candidato à iniciação deve crer em um Criador, mas a Maçonaria não define quem ou o que seja esse Criador. Essa neutralidade é o que permite o encontro de homens de todas as crenças sob o mesmo teto.

A violência religiosa é produto da ignorância. Quando o homem acredita possuir a verdade absoluta, ele deixa de buscá-la. A Maçonaria, ao contrário, mantém o espírito da busca, o itinerário do iniciado é uma peregrinação infinita em direção ao conhecimento.

A Construção do Homem Universal

Grande Arquiteto do Universo é um modelo de método de ensino e civilizacional. O Grande Arquiteto do Universo constrói segundo proporções harmônicas; o maçom, inspirado por esse modelo, busca construir uma sociedade justa, equilibrada e fraterna.

Essa construção começa no indivíduo. O templo interior deve preceder o templo social. O homem que reflete a ordem do Grande Arquiteto do Universo em sua consciência torna-se agente de harmonia no mundo. A Maçonaria propõe, assim, um caminho de autoeducação ética e intelectual que se traduz em ação fraterna e política.

O conceito de Grande Arquiteto do Universo é o fundamento simbólico da missão maçônica: edificar a humanidade pela razão iluminada, pelo amor e pela justiça.

O Ser que É

Quando Moisés pergunta ao Criador seu nome, ouve: "Eu Sou o que Sou", Êxodo 3:14. Essa resposta é parte da filosofia maçônica: o Grande Arquiteto do Universo É o Ser que É, não o que se imagina, mas o que existe além de toda forma.

Grande Arquiteto do Universo é o mistério que o maçom contempla sem pretender definir. Ele é o ponto dentro do círculo, o centro imóvel em torno do qual tudo gira. É o símbolo da consciência suprema, da lei universal e do amor que estrutura a criação.

Em sua essência, o conceito do Grande Arquiteto do Universo é um convite à humildade intelectual e à grandeza moral. Ele recorda ao homem que o Universo é obra de inteligência, e que o dever do iniciado é participar dessa obra, aperfeiçoando-se a si mesmo e ao mundo.

A Maçonaria, portanto, não cria um novo deus, mas redescobre a divindade no próprio ato de pensar, construir e amar. O templo do Grande Arquiteto do Universo é o cosmos; o altar, a consciência humana; e o sacrifício, o ego superado pela razão e pela fraternidade.

Bibliografia Comentada

1.      ANDERSON, James. Constitutions of the Free-Masons. Londres, 1723. Documento fundador da Maçonaria Especulativa moderna, estabelece a crença em um "Grande Arquiteto do Universo" como princípio comum a todos os maçons, distinguindo a Ordem das religiões sectárias;

2.      ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola, 2002. Introduz o conceito de "Motor Imóvel", causa primeira de toda existência, que inspira o entendimento maçônico do G? A? D? U? Como princípio racional de ordem;

3.      HERMES TRISMEGISTO. Corpus Hermeticum. Madrid: Gredos, 2000. Texto basilar do Hermetismo, relaciona o microcosmo ao macrocosmo e reforça a ideia maçônica de correspondência entre homem e universo;

4.      JUNG, Carl G. Aion: Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 1988. Fundamenta a leitura psicológica do G? A? D? U? Como arquétipo da totalidade e da integração interior do homem;

5.      KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Lisboa: Edições 70, 1989. Explora os limites do conhecimento e a função regulativa das ideias metafísicas, influenciando a visão maçônica de Deus como conceito racional e ético;

6.      KNOWLES, Malcolm S. The Adult Learner: A Neglected Species. Houston: Gulf Publishing, 1980. Define os princípios da andragogia, aplicáveis à pedagogia maçônica que promove a aprendizagem autônoma e reflexiva do iniciado;

7.      MACKey, Albert G. An Encyclopedia of Freemasonry. New York: Masonic Publishing, 1873. Obra clássica da literatura maçônica, esclarece o sentido filosófico do termo "Grande Arquiteto do Universo" e a exigência de crença em um Princípio Criador, não dogmático;

8.      PLATÃO. Timeu. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995. O diálogo platônico que apresenta o Demiurgo, arquiteto do cosmos, fonte simbólica da ideia maçônica de um princípio construtor;

9.      SPENGLER, Oswald. A Decadência do Ocidente. Lisboa: Presença, 1993. Oferece uma crítica civilizacional que contextualiza a necessidade da Maçonaria como guardiã de valores espirituais universais acima dos credos;

10.  SPINOZA, Baruch. Ética Demonstrada segundo a Ordem Geométrica. São Paulo: Martins Fontes, 1993. Apresenta Deus como substância única, simultaneamente imanente e transcendente, em linha com o pensamento deísta da Maçonaria;



[1] Um deísta é uma pessoa que acredita na existência de um Deus criador, mas rejeita a ideia de que esse Deus intervém no mundo, interage com os seres humanos, ou age através de revelações divinas, milagres ou textos sagrados. Para os deístas, a razão é o principal meio de conhecer a divindade e o funcionamento do universo;

[2] Reflexão geral em torno da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, especialmente nas relações que se estabelecem entre o sujeito indagativo e o objeto inerte, as duas polaridades tradicionais do processo cognitivo; teoria do conhecimento;

[3] Doutrina comum a religiões monoteístas e sistemas filosóficos frequentemente inclinados ao fideísmo, caracterizada por afirmar a existência de um único Deus, de caráter pessoal e transcendente, soberano do Universo e em intercâmbio com a criatura humana;

[4] Ceticismo é uma corrente filosófica que questiona a possibilidade de alcançar a certeza absoluta sobre o conhecimento, defendendo a suspensão do julgamento para se obter tranquilidade e um pensamento mais reflexivo. Ele incentiva uma atitude de investigação e dúvida constante sobre crenças, opiniões e dogmas estabelecidos. No entanto, não se trata de negar tudo, mas de analisar e formar opiniões com base em evidências;

[5] Maiêutica é um método filosófico socrático que consiste em fazer perguntas para ajudar as pessoas a "dar à luz" suas próprias ideias e conhecimentos. O termo, que significa "arte de partejar", foi inspirado na profissão da mãe de Sócrates, uma parteira. Através de um diálogo que geralmente começa com a ironia socrática (o questionador finge não saber para desconstruir preconceitos), o interlocutor é levado a refletir, a reconhecer a contradição em seus próprios argumentos e, finalmente, a chegar a novas conclusões por si mesmo;

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Altar Maçônico

Porque existe um altar no templo da loja?

Charles Evaldo Boller


Nas diversas religiões, altares é lugar de sacrifício, expiação e comunhão com a divindade. Altares são normalmente encontrados em lugares sagrados, como santuários, templos e igrejas. Todas as grandes religiões como cristianismo, judaísmo, Budismo, hinduísmo, Xintoísmo, Taoísmo etc. Têm altares. Historicamente, um altar é um lugar elevado, pedestal ou estrutura ante aos quais são realizadas cerimônias religiosas ou sacrifícios são oferecidos a deuses. Tanto o altar como seus utensílios são considerados sagrados, e os sacerdotes usam coletes e lavam as mãos antes de tocá-los. Mesmo ao remover cinzas dele. As escrituras hebraicas e cristãs registram que os homens erigiram altares ao deus Jeová. O próprio Deus Jeová ordenara a construção de altares em diversas passagens das escrituras hebraicas e gregas. Naquelas ocasiões Jeová especificou o material, o tamanho e as ferramentas que poderiam ser utilizadas em sua construção.

O altar maçônico dentro de uma loja maçônica, sobre o qual repousa o livro da lei, é símbolo de lugar sagrado. Não tem a conotação das religiões: serve apenas como referência moral aceita por todos os irmãos que participam da sessão. Maçons cristãos usam a Bíblia Judaico-cristã, maçons judeus usam a Torá; pode ser qualquer livro símbolo que represente os valores morais respeitados pelos presentes. O lugar sagrado onde está o altar em loja maçônica não é local onde se faz presente o deus de cada um, apenas refere-se aos princípios morais exarados daquele código que repousa no altar. Se deus estivesse presente admitir-se-ia que a Maçonaria é religião; e isto ela não é! Maçonaria NÃO é religião.


Porque o local é sagrado?

Porque representa o interior do homem; tudo representa o homem dentro de um templo maçônico. O templo é o próprio homem que se oferece ao Grande Arquiteto do Universo; à grande obra de construção. O conteúdo do altar representa aquilo que cada presente aceita como o mais sagrado de si próprio; seu espírito ou sopro de vida; que alguns denominam alma.


Adora-se o homem dentro de um templo maçônico?

De forma alguma! O templo maçônico não é local de adoração, à semelhança de uma igreja. É o local sagrado onde o homem se lapida qual pedra. Simbolicamente ele é uma pedra. O objetivo do maçom é polir a pedra até que venha a refletir a luz que vem do Grande Arquiteto do Universo. A Iluminação chega a um ponto em que a pedra, que é o maçom, passa a emitir luz. Polidez significa erudição, conhecimento, comportamento adequado. O maçom é um homem que se poliu dentro do templo; adquiriu conhecimento que o arma de recursos para combater o obscurantismo e a escravidão na sociedade onde está imerso.

O altar maçônico dentro da loja maçônica representa simbolicamente a santidade do altar de incensos dentro do Santo dos Santos ou Sanctum Sanctorum, no templo do rei Salomão.

Na busca para comunicar-se com o Criador, mesmo sem possuir altar maçônico, o maçom busca ser agradável aos olhos do Grande Arquiteto do Universo e, portanto, digno como homem para receber suas bênçãos. Neste aspecto o maçom efetua religação com a divindade sem efetuar nenhum cerimonial de adoração no local. O ritual maçônico é diferente dos dogmas das igrejas, assim como os dogmas tratados nos templos religiosos são diferentes uns dos outros. O desejo de colher a abundância das bênçãos de deuses é universal. O maçom não é exceção. Como cada um dos antepassados, o altar maçônico é simbólico da busca para comungar com o Criador. Não é local de oferta, muito menos de sacrifícios.


Altar Maçônico

Todos os altares, incluindo o altar maçônico são mesas do Senhor.

Altares das religiões são lugares sobre os quais são oferecidos sacrifício, expiação e comunhão reverente para a divindade. O altar maçônico é apenas símbolo da comunhão reverente ante o Grande Arquiteto do Universo, o Olho que Tudo Vê.

Anexo a ele, o incenso é símbolo das orações de comunhão levantados ao Grande Arquiteto do Universo, sem Lhe prestar culto ou ato de adoração.

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Oposição à Maçonaria e Livros Antimaçônicos

Análise resumida da perseguição religiosa e política aos maçons pelo mundo e o que realmente se faz dentro dos templos da Maçonaria.

Charles Evaldo Boller


Inúmeras obras antimaçônicas foram escritas no passado. Algumas com consequências mortais, instigando a perseguição de parte dos fundamentalistas políticos e religiosos. São exemplos: a perseguição na Alemanha, por Adolf Hitler; na Espanha, Francisco Franco; diversos papas católicos e líderes de outras miríades de religiões fundamentalistas. Milhares de maçons foram assassinados em consequência destas obras escritas apenas para público profano desejoso de conhecer os "terríveis segredos da Maçonaria". Outros tinham por alvo disseminar mentira e instigar à discriminação racial, guerras ideológicas e sanguinárias, como no caso de "Os Protocolos dos Sábios de Sião".

Houve obras antimaçônicas que causaram até bem para a ordem maçônica porque trouxeram mais informação útil que alguns livros maçônicos escritos com o objetivo de auxiliar, ou registrar fundamentos, filosofias e sua história ou liturgia. Existem obras de autores maçônicos causadores de danos graves; são os escritos por pessoas de pouco ou nenhum conhecimento técnico histórico. Inventaram estórias e dados inconsistentes que, de tanto serem replicadas, alcançaram até status de verdade, mas alimentam as baterias dos detratores. Existem casos onde os fatos relatados têm mínima chance diante de uma pesquisa superficial; é pura ficção, de pouco ou nenhum suporte. Obras que não respeitam a inteligência dos antimaçons, e certamente, muito menos ainda, a dos maçons. O observador arguto deduz prontamente que, os piores inimigos estão dentro da Maçonaria, constituído de "irmãos" oportunistas e astutos na preparação de ardis, que à luz da pesquisa desmoronam, revelando sórdidos objetivos comerciais. Estes sim expõem a Maçonaria Universal a ridículo e perigo; geram a munição que os detratores da instituição maçônica buscam para carregar suas armas insidiosas.

Apenas um ano após a aparição da primeira constituição maçônica, quando, em 1724, foi escrito o Livro das Constituições de James Anderson, surgiu em Londres, de autor anônimo e edição de Willian Wilmont, um pequeno impresso com o título "Revelado o Grande Mistério dos Maçons". Tudo leva a crer que o autor foi um covarde maçom, cujo único objetivo foi vender informações maçônicas ao maior número de pessoas. Depois surgiu "Toda a Instituição Maçônica", revelando até sinais e palavras. Foram muitos os textos que surgiram na época, alguns até plágio dos primeiros, mas todos com o objetivo de fazer dinheiro à custa da curiosidade profana. A partir de 1730 surgiram obras antimaçônicas de vulto e impacto: "A Maçonaria Dissecada" de Samuel Prichard. Em 1744, o abade Perau publicou o livro: "A Ordem dos Franco-maçons Traída e Seus Segredos Revelados". Neste mesmo ano, Luiz Traveno publicou diversos livros versando sobre Maçonaria, sempre expondo assuntos internos, no claro objetivo de apenas vender livros e fazer dinheiro. Em 1760 foi editado um livro de autor desconhecido, "As Três Batidas Distintas". Em 1762 apareceu o livro "Jaquim e Boaz". Depois surgiu "Memórias do Jacobismo", do padre Augustinho Barruel, o qual é considerado, de fato, o pai da antimaçonaria, pois sua criatividade criou fábulas tão verossímeis que estas ainda hoje prejudicam os maçons.

De todos estes autores podemos aceitar até motivação por ódio e oportunismo comercial contra a Maçonaria, pois não eram maçons. Entretanto, o maior mestre do engodo, de todos os tempos, foi o aprendiz maçom Leo Taxil, este causou estragos terríveis à ordem maçônica. Depois deste "irmão" surgiu frei Boaventura em seu livro "A Maçonaria no Brasil", também pretendia contar os "segredos" dos homens que se reuniam a portas fechadas em confrarias fraternas.

O supremo campeão é sem dúvidas "Os Protocolos dos Sábios de Sião", obra ficcional na qual foram baseadas as invenções de alguns detratores e principalmente de parte do padre Barruel, dando conta de uma suposta "Conspiração Maçônica", e onde foram dramatizadas situações sem fundamento que muitos males causaram aos maçons ao longo do tempo; nem as dramatizações de Leo Taxil e todos os anteriores ao padre Barruel causaram tanto mal. Mesmo escrevendo diversos livros dos dramas e problemas proporcionados, não se esgota o assunto da antimaçonaria.

Na Internet encontram-se inúmeros sites contendo informações desencontradas da organização e ação da Maçonaria que carecem até de algum discernimento para perceber o engodo nelas contido. Em sua maioria são produções que usam os livros já citados e até da bíblia judaico-cristã como plataforma da calúnia e raciocínio falso. Todo extremismo, todo fundamentalismo religioso e político tem estas características; quando não consegue convencer pelo argumento lógico e claro, apela para a mentira e fantasia, torce o sentido das palavras de seus livros sagrados para denegrir qualquer obstáculo que lhes embarace o caminho aos negócios bilionários ou caça ao poder efêmero.

Felizmente a instituição maçônica provê abertura para debate de amplo leque. Maçonaria não se faz com templos, livros, grandes lojas, grandes orientes, sinais, palavras de passe ou palavras sagradas! Estas são apenas ferramentas, utensílios que facilitam o raciocínio, abrem o entendimento. Maçonaria se faz dentro da mente e no coração! Todo o resto é ilusão! Nem mágica ou Misticismo colaboram, antes denigrem e municiam os inimigos com argumentação para quebrar e hegemonia da Maçonaria Universal. Não fossem a pequenez e fragilidade humana, as ferramentas, obediências, ritos e locais de reunião seriam até desnecessárias! A Maçonaria seria dispensável! Tentar revelar os "segredos" da ordem maçônica é seguramente um vão esforço dos detratores de alcançarem o vento na corrida! Grandes pensadores já intuíram em tempos idos que, onde existirem pessoas que se tratam como irmãos e demonstram profundo amor entre si, com certeza ali estará o espírito do Grande Arquiteto do Universo e se pratica a verdadeira Maçonaria; independente se as pessoas forem ou não iniciadas. A iniciação verdadeira ocorre no coração. É dádiva divina! Resultado de sã racionalidade, lógica e espiritualidade, equilibrados.

Um dos mais fantásticos insights proporcionados pela Maçonaria é o autoconhecimento; "o conhece-te a ti mesmo", de Sócrates; a viagem interior que afasta da mente todo apego estrito à palavra escrita ou falada e revela a espiritualidade; o lugar onde está o Deus, onde cada um tem o Deus criado a partir de antropomorfismo que é característica do homem comum. O maçom sequer discute ou gera Deuses à sua imagem e semelhança, porque seres desta magnitude não cabe dentro da lógica e apenas gera separação e ranger de dentes, daí usar apenas do conceito de um Princípio Criador, ao qual denomina Grande Arquiteto do Universo. É a razão da paz encontrada entre as colunas das lojas dos maçons.

É o conhecimento da verdade relativa em todas as questões que conduz ao crescimento pessoal e espiritualidade avançada; o maçom que possui o conhecimento da Maçonaria em si não é idólatra, materialista ou medíocre. O fundamentalismo de qualquer espécie terá muito trabalho para manter a cegueira que subjuga por uns tempos, já que a evolução espiritual e do autoconhecimento do maçom promovem o discernimento que conduz à sabedoria e liberdade.

O livre pensador torna-se independente de intermediários na busca de sua espiritualidade. O Deus que busca está perto para o iniciado e muito longe ao cego escravizado, num hipotético céu, em virtude de estar submetido a dogmas e fantasias dos inimigos da liberdade. As religiões querem escravos do pensamento para manter seu poder temporal efêmero, algo do que a Maçonaria liberta seus homens e, devido a isto, as religiões odeiam a ordem maçônica criando mentiras. O mesmo faz o poder político absolutista, ditatorial.

Vencer aos detratores da Maçonaria é a razão do maçom cauterizar e envolver sua mente de forte couraça de aço. Aprende a usar da espada numa mão, que é sua língua manejada com maestria na derrubada das mentiras ou raciocínios ilógicos e, na outra mão, porta a trolha com a qual constrói e apazigua uma sociedade livre de obscurantismo.

O corpo do maçom, que constitui seu templo, o seu lugar de adoração sagrado, permanece puro, imaculado da perfídia imunda do obscurantismo gerados por religiões e ideologias políticas que conspurca a sociedade humana. Porque o Deus que reside no maçom é tão verdadeiro como aquele que reside em qualquer outra criação do Universo. A Maçonaria promove nos homens por ela treinados a mais ampla liberdade; a suprema liberdade do pensamento; é onde qualquer ser racional é absolutamente livre por característica de projeto devido ao Grande Arquiteto do Universo.


Bibliografia

1. BAYARD, Jean-Pierre, A Espiritualidade na Maçonaria, Da Ordem Iniciática Tradicional às Obediências, tradução: Julia Vidili, ISBN 85-7374-790-0, primeira edição, Madras Editora limitada., 368 páginas, São Paulo, 2004;

2. BOUCHER, Jules, A Simbólica Maçônica, Editora Pensamento, 1979;

3. CARVALHO, Francisco de Assis, O Avental Maçônico e Outros Estudos, número 6, primeira edição, Editora Maçônica a Trolha limitada., 160 páginas, Londrina, 1989;

4. FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de, Dicionário de Maçonaria, Seus Mistérios, seus Ritos, sua Filosofia, sua História, quarta edição, Editora Pensamento Cultrix limitada., 550 páginas, São Paulo, 1989;

5. PROBER, Kurt, História do Supremo Conselho do Grau 33 do Brasil, Volume 1, 1832 a 1927, primeira edição, Kosmos, 405 páginas, Rio de Janeiro, 1981;

6. WESTCOTT, William Wynn, Maçonaria e Magia, título original: Tha Magical Mason, tradução: Joaquim Palácios, ISBN 85-315-0384-1, primeira edição, Editora Pensamento Cultrix limitada., 240 páginas, São Paulo, 1983;

Liberdade e Espiritualidade

Espiritualidade e fanatismo.

Charles Evaldo Boller


O maçom que vive a Maçonaria adquire a capacidade de refrear os desejos e desregramentos, o que consiste numa expressão de liberdade. Ao dominar-se, determinar-se, faz aquilo que quer, e não o que determinam seus desejos tirânicos e descontrolados. Aprende que a razão domina os desejos, mas não os elimina; é uma luta que nunca acaba.

A sabedoria mais assentada sabe perfeitamente que não se deve baixar a guarda diante da força dos desejos selvagens. É por isto que ele evita empanzinar-se com excessos de comida e bebida e leva a vida com moderação. Sabe que a racionalidade sozinha não tem como lidar diretamente com os desejos.

Deduz, em seus estudos, que o homem não é só ventre e cabeça. O treinamento o leva a desenvolver forte espiritualidade. Não uma crença naquilo que não vê ou determinado pela fé em dogmas, mas a inspiração racional de que existe de fato uma Mente Orientadora, um Princípio Criador que dirige a dança da vida.

As religiões não estão dispostas a acordos ou negociações como é de se esperar numa sociedade que cresce vertiginosamente em termos de conhecimento tecnológico. O de mente aberta por sã racionalidade identifica a existência de um Grande Arquiteto em todas as obras de criação da biosfera e fora dela. Já os crentes nas palavras, tidas como escritas por inspiração divina, resultado de inspiração de deuses antropomórficos, não possuem tal liberdade e interpretam de forma absoluta os livros escritos por outros homens, impondo-os aos demais como verdades finais; não existe acordo com o fundamentalismo religioso.

O radicalismo fanático religioso é instrumento do sistema econômico mundial para matar e submeter os pobres ao Estado numa espécie de fornicação. Exemplo disso foi vivenciado durante a Segunda Guerra Mundial, quando padres e pastores, em ambos os lados das fronteiras, incitavam seus soldados: - "vão lá e matem em nome de Deus e do país" - estando do outro lado das trincheiras soldados que pertenciam às mesmas religiões. Aquelas instituições religiosas que se negaram, tiveram seus seguidores perseguidos e eliminados. Isto também aconteceu com os maçons, porque a eles foi dada a oportunidade de exercerem sua capacidade libertadora através do exercício do livre pensamento, do estudo diligente que conduz à liberdade com responsabilidade. Deduz-se que nem sempre o livre pensamento e o livre arbítrio exercido com responsabilidade, traz só felicidade, pode também propiciar a morte. Para tais momentos é importante o aporte de forte capacidade espiritual.

A Maçonaria oferece o desenvolvimento de espiritualidade desvinculada dos extremismos das religiões radicais; incentiva a prática da religião na medida em que propicie o nascimento da espiritualidade, dentro daquilo que a razão pode tratar e que liberte as pessoas da escravidão imposta pelo fundamentalismo. Encoraja a prática de uma religião como iniciadora de caminhada sem intermediação, uma espiritualidade flexível e disposta a acordos em sincronia com o fluxo da evolução científica e social.

É fato que os laboratórios farmacêuticos não têm a mínima vontade de efetuar investimentos para desenvolver pesquisas em medicamentos para os pobres. Muito menos em obter soluções simples e baratas para minimizar doenças. Não se investe pesado em saúde pública preventiva. Políticas de esterilização e contracepção são combatidas pelas religiões, sua hipocrisia aceita com mais facilidade a matança posterior imposta pelo sistema econômico mundial que prevenir a procriação desmedida.

Por outro lado, é financeiramente mais vantajoso matar depois de exaurir a capacidade produtiva por doenças, algumas naturais, outras fabricadas. A listagem de doenças é enorme. Algumas pragas para reduzir a população mundial: AIDS; Vírus Ebola, Lassa ou Marburgo; Doenças respiratórias como Covid; Sarampo; Cólera; Malária; Tuberculose; Gripe A; Aleitamento por mamadeira; e tantos outros. Adicionem-se drogas, falta de água potável, falta de espaço vital e outras necessidades e os quadros são dramáticos, dignos do inferno de Dante.

Os mecanismos de busca do equilíbrio estão em ação, matando os dispensáveis. Só alienados, aqueles que não pensam com isenção e razão, desapercebem a execução em massa. A liberdade só é obtida com pessoas saudáveis. Pobres e doentes são descartados para limitar a população dentro de parâmetros que garantam a sobrevivência daqueles que podem pagar o preço.

O que se vê é apenas um faz-de-conta nos investimentos em educação e saúde. É para o despertar disto que a Maçonaria cria o ambiente propício para trabalhar a mente de seus adeptos. Incentiva-os buscarem a liberdade pelo pensamento, dedicado a encontrar soluções para a humanidade sair desta situação terrível que vive, onde os pobres são mortos para propiciar a vida aos que podem pagar por isto.

A sedimentação de princípios para ajudar a humanidade a transpor o desequilíbrio pelo qual passa o sistema capitalista com o menor dano é maior onde se vê a prática de debates, palestras ou estudos em lojas, sejam elas de natureza filosófica, sociológica, antropológica, ou outra.

O maçom que estuda e age conforme o que aprende de seu relacionamento com outras pessoas, detentoras da mesma orientação mental, não é conivente com a mortandade que ocorre ao redor; antes, torna-se multiplicador de posturas que libertam o cidadão para a vida com felicidade, para situações onde não há necessidade de batismo de sangue, basta a atuação do pensamento orientado e livre. Já bastam os rios de sangue derramados pelas gerações anteriores. A liberdade advém do equilíbrio entre as necessidades materiais, emocionais e espirituais, e este equilíbrio é realizado no raciocínio claro e lógico, longe dos extremismos, da intolerância e da ignorância em todos os aspectos. É por inspiração nas obras criativas do Grande Arquiteto do Universo que se aprende a doar sem esperar nada em troca e esta é expressão da ação do amor fraterno, a única solução de todos os problemas da humanidade.


Bibliografia

1. ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de Filosofia, Dizionario DI Filosofia, tradução: Alfredo Bosi, Ivone Castilho Benedetti, ISBN 978-85-336-2356-9, quinta edição, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 1210 páginas, São Paulo, 2007;

2. GEORGE, Susan, O Relatório Lugano, Sobre a Manutenção do Capitalismo no Século XXI, título original: The Lugano Report, tradução: Afonso Teixeira Filho, ISBN 85-85934-89-1, primeira edição, Boitempo Editorial, 224 páginas, São Paulo, 1999;

3. MASI, Domenico de, Criatividade e Grupos Criativos, título original: La Fantasia e la Concretezza, tradução: Gaetano Lettieri, ISBN 85-7542-092-5, primeira edição, Editora Sextante, 796 páginas, Rio de Janeiro, 2003;

4. MASI, Domenico de, O Futuro do Trabalho, Fadiga e Ócio na Sociedade Pós-industrial, título original: Il Futuro del Lavoro, tradução: Yadyr A. Figueiredo, ISBN 85-03-00682-0, nona edição, José Olympio Editora, 354 páginas, Rio de Janeiro, 1999;

5. ROUSSEAU, Jean-Jacques, A Origem da Desigualdade Entre os Homens, tradução: Ciro Mioranza, primeira edição, Editora Escala, 112 páginas, São Paulo, 2007;