Charles Evaldo Boller
A Maçonaria ensina que o homem não nasce pronto. Ele nasce como
pedra bruta destinada a um contínuo processo de aperfeiçoamento. Nesse trabalho
de construção interior, poucos símbolos possuem significado tão abrangente
quanto o nível e o prumo. Essas ferramentas, herdadas da antiga arte dos
construtores, transformam-se em instrumentos filosóficos capazes de orientar a
formação moral, intelectual e espiritual do iniciado.
O nível simboliza a horizontalidade da existência. Ele recorda
que todos os seres humanos compartilham a mesma condição fundamental diante das
leis universais. Independentemente de riqueza, posição social, cultura ou
conhecimento, todos participam da mesma aventura humana. Essa compreensão
encontra eco no pensamento de Marco Aurélio, para quem os homens são cidadãos
de uma mesma cidade cósmica governada pela razão universal.
O prumo, por sua vez, representa a verticalidade da consciência.
É o eixo da retidão moral, da busca da verdade e da elevação espiritual. Assim
como o construtor utiliza o prumo para verificar se uma parede cresce
corretamente em direção ao alto, o iniciado utiliza a consciência para
verificar se sua vida permanece alinhada aos princípios da justiça, da
honestidade e da sabedoria.
Sob uma perspectiva esotérica, o nível e o prumo representam
dois movimentos complementares da existência. O primeiro conduz o homem ao
encontro dos seus semelhantes. O segundo conduz o homem ao encontro de si mesmo
e do Grande Arquiteto do Universo. Um expande; o outro eleva. Um constrói a
fraternidade; o outro constrói a transcendência.
Podemos imaginar a vida como uma árvore. Suas raízes espalham-se
horizontalmente sob a terra, buscando estabilidade e nutrição. Ao mesmo tempo,
seu tronco cresce verticalmente em direção à luz. Se possuir apenas raízes,
jamais verá o céu. Se possuir apenas altura, será derrubada pelo primeiro
vento. Assim também ocorre com o ser humano. Necessita da horizontalidade do
nível e da verticalidade do prumo para alcançar plenitude.
Uma antiga parábola ilustra esse ensinamento. Certo mestre
conduziu dois discípulos a uma obra em construção. O primeiro admirou apenas as
fundações e declarou que a solidez era tudo. O segundo contemplou apenas as
torres e afirmou que a altura era o mais importante. O mestre sorriu e
respondeu: "Nenhum edifício permanece de pé apenas com alicerces ou apenas
com torres. A grandeza nasce do equilíbrio entre ambos." Da mesma forma, a
verdadeira sabedoria surge quando o homem harmoniza suas responsabilidades
terrenas com suas aspirações espirituais.
Essa visão encontra correspondência no pensamento de Platão, que
descrevia a vida filosófica como uma ascensão da alma em direção ao Bem, sem
abandonar as responsabilidades da cidade. Também se aproxima da tradição
pitagórica, que via na harmonia dos opostos o fundamento da ordem universal.
No simbolismo maçônico, o Templo representa o Cosmo e o próprio
ser humano. Cada virtude adquirida torna-se uma pedra perfeitamente ajustada
nessa construção. O nível verifica a harmonia entre as pedras; o prumo assegura
que a estrutura cresça corretamente em direção ao alto. O resultado não é
apenas um edifício simbólico, mas uma consciência mais lúcida, equilibrada e
iluminada.
Assim, o iniciado aprende que estar em nível e a prumo não
constitui apenas uma condição ritualística. Trata-se de uma disciplina
permanente da alma, um método de vida e uma filosofia prática. É o convite para
construir, dia após dia, um caráter firme como uma coluna, equilibrado como um
alicerce e elevado como uma torre que busca a luz das estrelas.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Atlas,
2009. Obra fundamental para compreender a formação das virtudes e o ideal do
equilíbrio moral, aspectos diretamente relacionados ao simbolismo do nível e do
prumo;
2.
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário
de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2023. Referência indispensável para
o estudo dos símbolos universais da verticalidade, horizontalidade, centro e
construção sagrada;
3.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São
Paulo: Martins Fontes, 2018. Analisa a relação entre espaço sagrado, ordem
cósmica e simbolismo do centro, fundamentais para a compreensão do Templo
maçônico;
4.
GUÉNON, René. O simbolismo da cruz. São Paulo:
Pensamento, 2018. Apresenta uma interpretação Metafísica dos eixos horizontal e
vertical da existência, oferecendo sólida base para a compreensão esotérica do
nível e do prumo;
5.
MACKEY, Albert G. O simbolismo da Maçonaria.
Londrina: A Trolha, 2014. Estudo clássico sobre os instrumentos operativos
transformados em símbolos morais e filosóficos dentro da tradição maçônica;
6.
WIRTH, Oswald. Os símbolos maçônicos. São Paulo:
Pensamento, 2019. Uma das obras mais importantes da literatura maçônica,
examinando o significado iniciático das ferramentas do construtor e sua
aplicação ao aperfeiçoamento humano;

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