sábado, 15 de agosto de 2026

As Colunas J e B e o Equilíbrio da Existência

 Charles Evaldo Boller

Entre os símbolos mais conhecidos do Grau de Aprendiz Maçom encontram-se as Colunas J e B, posicionadas à entrada do templo. Para muitos observadores, elas podem parecer simples elementos decorativos ou referências históricas relacionadas ao Templo de Salomão. Contudo, sua importância ultrapassa amplamente a dimensão arquitetônica. Sob a perspectiva filosófica, esotérica e simbólica, as colunas representam os princípios do equilíbrio, da estabilidade e da harmonia que devem sustentar a construção do templo interior.

Nenhuma grande construção permanece de pé sem sólidos alicerces. Antes de erguer paredes, telhados ou ornamentos, o construtor preocupa-se com a estabilidade da estrutura. Da mesma forma, a Maçonaria ensina que o aperfeiçoamento humano exige fundamentos morais consistentes. O desenvolvimento intelectual, espiritual ou social torna-se frágil quando não está apoiado em princípios sólidos.

As colunas representam precisamente esses fundamentos.

Uma antiga alegoria conta que dois construtores receberam a missão de edificar uma torre. O primeiro preocupou-se apenas com a aparência externa. Utilizou materiais belos e ornamentações impressionantes. O segundo dedicou meses à preparação dos alicerces antes de iniciar a elevação das paredes. Quando vieram as tempestades, a primeira torre desmoronou rapidamente. A segunda permaneceu firme. Os viajantes que passavam pelo local admiravam sua resistência sem perceber que sua verdadeira força se encontrava escondida sob a terra.

Assim ocorre com o ser humano. Muitos dedicam enorme esforço à aparência, ao prestígio ou às conquistas exteriores, mas negligenciam a formação do caráter. Outros trabalham silenciosamente sobre seus valores, princípios e virtudes. Quando surgem as dificuldades inevitáveis da existência, a diferença torna-se evidente.

Aristóteles ensinava que a virtude consiste em encontrar o justo equilíbrio entre os excessos. A coragem, por exemplo, situa-se entre a covardia e a imprudência. A generosidade encontra-se entre a avareza e o desperdício. As colunas simbolizam essa busca permanente pelo equilíbrio.

Sob a perspectiva esotérica, elas representam forças complementares presentes em toda a criação. Luz e sombra, razão e emoção, firmeza e compaixão, ação e reflexão. Nenhuma dessas forças deve eliminar a outra. O objetivo consiste em harmonizá-las.

A natureza oferece inúmeros exemplos desse princípio. O dia alterna-se com a noite. As estações sucedem-se continuamente. O coração alterna contração e relaxamento para sustentar a vida. O equilíbrio não significa imobilidade, mas harmonia entre forças diferentes.

Carl Gustav Jung observava que o amadurecimento psicológico depende da integração dos opostos existentes na personalidade. O indivíduo equilibrado não elimina suas contradições; aprende a compreendê-las e administrá-las. As colunas recordam exatamente essa necessidade de integração.

Podemos imaginar a consciência como uma ponte suspensa. Se um dos pilares enfraquece, toda a estrutura torna-se instável. Da mesma forma, a vida humana exige equilíbrio entre conhecimento e sabedoria, liberdade e responsabilidade, direitos e deveres.

Ao passar simbolicamente entre as colunas, o Aprendiz é convidado a refletir sobre seus próprios fundamentos. Quais valores sustentam suas decisões? Quais princípios orientam suas escolhas? Sua construção interior repousa sobre bases sólidas ou sobre opiniões passageiras?

As Colunas J e B permanecem como guardiãs simbólicas da entrada do templo porque lembram uma verdade universal: nenhuma obra duradoura pode ser construída sem equilíbrio. O verdadeiro iniciado compreende que a grande tarefa da existência não consiste apenas em crescer, mas em crescer de forma harmoniosa. Somente então o templo interior poderá elevar-se com estabilidade, beleza e permanência.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Nova Cultural, 1991. Obra fundamental para a compreensão da virtude como equilíbrio entre excessos e deficiências, oferecendo sólida base filosófica para a interpretação simbólica das colunas como representação da harmonia moral.

2.      CASSIRER, Ernst. Filosofia das formas simbólicas. Tradução de Marion Fleischer. São Paulo: Martins Fontes, 2001. Desenvolve a compreensão dos símbolos como instrumentos de organização da experiência humana e da construção da consciência.

3.      JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Tradução de Maria Lúcia Pinho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. Explica a integração dos opostos psicológicos e o papel dos símbolos no desenvolvimento da personalidade.

4.      MARCO AURÉLIO. Meditações. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2019. Oferece reflexões sobre equilíbrio interior, autodomínio e estabilidade moral diante das circunstâncias da vida.

5.      PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Fundamenta a busca da ordem interior e da harmonia da alma como requisito para uma vida virtuosa.

6.      SÊNECA. Cartas a Lucílio. Tradução de J. A. Segurado e Campos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2014. Desenvolve importantes reflexões sobre moderação, prudência e fortalecimento do caráter.

7.      WILKINSON, Robert. Maçonaria e simbolismo. São Paulo: Madras, 2012. Apresenta explicações acessíveis sobre os principais símbolos maçônicos, incluindo as colunas e seus significados filosóficos e iniciáticos.

8.      YATES, Frances A. A arte da memória. Campinas: Editora da UNICAMP, 2007. Estuda a tradição simbólica ocidental e contribui para a compreensão das estruturas simbólicas utilizadas na transmissão do conhecimento iniciático.

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