Charles Evaldo Boller
Entre todas as virtudes humanas, poucas parecem tão simples e,
ao mesmo tempo, tão profundas quanto a polidez. Frequentemente confundida com
mera etiqueta, ela representa muito mais do que fórmulas de cortesia ou
discursos civilizados. A polidez é o caráter ou qualidade daquele que aprendeu
a dominar impulsos, suavizar palavras e tratar o próximo com respeito. Sob a
ótica filosófica e maçônica, ela constitui uma das primeiras pedras do edifício
moral.
A virtude não é natural. Ninguém nasce prudente, justo, corajoso
ou temperante. Toda virtude é construída ao longo do crescimento individual. A
criança aprende antes a obedecer do que a compreender; antes a agir
corretamente do que a amar verdadeiramente o bem. Por isso, antigos métodos
educativos colocavam o jovem para refletir em silêncio ou até mesmo "de castigo na biblioteca". Ainda
que discutíveis, tais práticas lembram uma verdade: o aperfeiçoamento exige
disciplina.
Do ponto de vista moral, a polidez é virtude. As quatro virtudes
cardeais — justiça, prudência, temperança e coragem — seriam de pouca utilidade
se o indivíduo fosse grosseiro, arrogante ou incapaz de respeitar os outros.
Sem educação e respeito, nenhuma outra virtude encontra terreno fértil para
florescer.
Na Maçonaria, o simbolismo do maço e do cinzel ilustra essa realidade.
De que servem as ferramentas simbólicas ao obreiro que não aprendeu
afabilidade, civilidade e delicadeza? Em nenhuma circunstância instrumentos são
colocados nas mãos do inexperiente sem treinamento. Da mesma forma, o
aperfeiçoamento interior exige que a alma seja educada antes de ser
transformada.
Uma antiga parábola conta que dois escultores receberam blocos
idênticos de mármore. O primeiro possuía grande técnica, mas era rude e
impaciente; o segundo trabalhava com serenidade e respeito pelo material. Ao
final, ambos produziram estátuas belas, mas somente a segunda parecia viva.
Questionado sobre o segredo, o escultor respondeu: "Não esculpi apenas a pedra; esculpi também meu caráter." Assim
acontece com o maçom: quem deseja polir a pedra bruta precisa, antes, polir a
si mesmo.
A polidez dirige o pensamento. Ela anima a meditação daquele
que, no silêncio da consciência, busca a verdade. Associada à lógica, favorece
discernimento, receptividade intelectual e independência de julgamento. A
inteligência isolada pouco constrói; porém, quando guiada pela cortesia e pela
reflexão, revela soluções ocultas e destrói os sofismas do erro.
O filósofo francês André Comte-Sponville observou que a polidez
é a primeira das virtudes porque torna possível o aprendizado das demais. Já
Confúcio ensinava que a cortesia harmoniza a convivência humana. Ambos
compreenderam que a delicadeza é a flor da humanidade.
As cerimônias variam entre povos e culturas, mas a verdadeira
cortesia é universal. A Terra tornar-se-ia inabitável se cada pessoa deixasse
de fazer por polidez aquilo que ainda não consegue fazer por amor. E o mundo
aproximar-se-ia da perfeição se cada um realizasse por amor o que hoje realiza
apenas por educação.
O coração humano assemelha-se à cera: naturalmente rígida,
torna-se moldável quando aquecida. Assim também a polidez. Um pouco de
amabilidade conquista os obstinados; uma palavra gentil desarma hostilidades.
Quem mais poliu o próprio coração vê mais longe. As formas invisíveis da
verdade manifestam-se na proporção da claridade interior. Afinal, a cortesia
faz a pessoa parecer por fora aquilo que, um dia, deverá tornar-se por dentro.
Bibliografia Comentada
1.
COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno Tratado das
Grandes Virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 2009. Obra fundamental para
compreender a polidez como a primeira das virtudes morais, destacando seu papel
formativo no desenvolvimento ético do indivíduo.
2.
CONFÚCIO. Os Analectos. São Paulo: Edipro, 2012.
Reúne ensinamentos sobre respeito, cortesia e harmonia social, mostrando a
importância da civilidade para a construção da ordem moral.
3.
MACKSEY, Charles. A Enciclopédia da Maçonaria.
São Paulo: Madras, 2008. Apresenta princípios éticos e simbólicos da tradição
maçônica, auxiliando na compreensão da polidez como elemento indispensável ao
aperfeiçoamento do caráter.
4.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Claret,
2019. Investiga a formação das virtudes e a educação moral, oferecendo bases
filosóficas para compreender a construção gradual do comportamento virtuoso.
5.
RUSSELL, Bertrand. A Conquista da Felicidade.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014. Demonstra como atitudes de consideração,
gentileza e equilíbrio favorecem relações humanas mais saudáveis e produtivas.

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