quinta-feira, 25 de junho de 2026

Acaso e Providência na Arquitetura do Ser

 Charles Evaldo Boller

O refrão da canção Epitáfio, da Titãs, uma banda de rock brasileira, seduz pela promessa de uma proteção espontânea: "o acaso vai me proteger enquanto eu andar". Tal proposição, embora poeticamente acolhedora, dissolve-se quando confrontada com a cosmovisão maçônica, na qual a existência não se submete ao capricho do fortuito, mas se organiza segundo uma ordem inteligível, regida pelo Grande Arquiteto do Universo. A ideia de acaso, portanto, deve ser analisada não como um princípio real, mas como um véu da teoria do conhecimento que encobre a ignorância das causas.

No nível inicial de compreensão, o Acaso apresenta-se como aquilo que ocorre sem finalidade. Trata-se de uma percepção ainda bruta, análoga à pedra não lavrada do Aprendiz: os eventos simplesmente sucedem, sem interrogação sobre sua origem ou direção. É o tempo vivido como fluxo indiferenciado, onde as horas do dia não diferem em essência, pois falta ao observador a Luz interior que distingue e ordena.

Depois há um despertar incipiente da consciência temporal. O indivíduo começa a perceber relações, ainda que de forma fragmentária, entre passado e presente. Contudo, sua reflexão é breve, como uma pausa na marcha, logo abandonada em favor da distração. Aqui, a régua de vinte e quatro polegadas ainda não foi plenamente aplicada: mede-se o tempo, mas não se compreende seu valor moral e iniciático.

O próximo nível de entendimento, mais problemático, consiste na crença absoluta no indeterminismo: a suposição de que algo possa ocorrer sem qualquer relação causal. Tal posição, além de filosoficamente insustentável, contradiz a própria estrutura simbólica da Maçonaria. Como já afirmava Aristóteles, nada ocorre sem causa; e Tomás de Aquino reforça que toda contingência remete a uma causa primeira necessária. Negar essa cadeia é dissolver a inteligibilidade do cosmos.

Na tradição do Rito Escocês Antigo e Aceito, não há espaço para o acaso absoluto. A crença no Grande Arquiteto do Universo implica reconhecer uma ordem universal, na qual cada evento, ainda que aparentemente fortuito, insere-se em um encadeamento de causas e efeitos. A semente que germina após o fruto não é um acidente: ela carrega em si a memória da árvore e a promessa de novas manifestações. Assim, o tempo não é um fluxo caótico, mas uma espiral de significados.

Essa visão encontra eco na filosofia de Baruch Spinoza, para quem tudo ocorre segundo a necessidade da natureza divina, e na reflexão de Immanuel Kant, que identifica na razão a capacidade de reconhecer a ordem moral subjacente aos fenômenos. Mesmo quando não compreendemos plenamente os acontecimentos, isso não implica ausência de causa, mas limitação de nossa percepção.

A metáfora do maço e do cinzel ilustra essa dinâmica: o maço representa a vontade que atua, enquanto o cinzel simboliza a inteligência que orienta. Nenhum golpe é aleatório; cada impacto visa a um fim, ainda que o Aprendiz não visualize imediatamente a forma final da pedra. Do mesmo modo, os eventos da vida, mesmo os dolorosos, são golpes que esculpem o caráter.

O refrão dos Titãs, quando reinterpretado à luz da tradição iniciática, revela-se não como verdade literal, mas como advertência poética. Não é o acaso que protege, mas a ordem que sustenta; não é a distração que salva, mas a consciência que ilumina. Aquele que "anda distraído" permanece na profanidade da existência; aquele que "anda" com intenção inicia-se na arte de viver.

Assim, as lamentações expressas na canção — "devia ter amado mais", "devia ter arriscado mais" — não são acusações contra o acaso, mas reconhecimentos tardios da responsabilidade individual. Como ensinava Sêneca, não é a falta de tempo que nos aflige, mas o mau uso dele. A vida não falha por capricho do destino, mas por negligência do agente.

Em última análise, a Maçonaria convida o iniciado a abandonar a crença no acaso e a assumir a coautoria de sua existência. Sob a égide do Grande Arquiteto do Universo, cada ação torna-se significativa, cada escolha reverbera no tecido do ser. O Universo não é um jogo de dados, mas uma construção viva, na qual cada maçom é simultaneamente pedra e construtor.

Bibliografia Comentada

1.      AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2005. Desenvolve a relação entre contingência e necessidade, oferecendo base teológica para a compreensão de uma ordem universal;

2.      ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola, 2002. Obra fundamental para a compreensão da causalidade, especialmente a noção de causa primeira, essencial para refutar a ideia de acaso absoluto;

3.      KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática. Lisboa: Edições 70, 2001. Explora a ordem moral e a capacidade racional de compreender a estrutura ética da realidade;

4.      SÊNECA. Cartas a Lucílio. São Paulo: Penguin Classics, 2014. Oferece reflexões práticas sobre o tempo e a responsabilidade individual, alinhadas à ética maçônica;

5.      SPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. Apresenta uma visão determinista do universo, na qual tudo ocorre segundo a necessidade da substância divina;

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