Charles Evaldo Boller
O refrão da canção Epitáfio, da Titãs, uma banda de rock brasileira,
seduz pela promessa de uma proteção espontânea: "o acaso vai me proteger enquanto eu andar". Tal proposição,
embora poeticamente acolhedora, dissolve-se quando confrontada com a cosmovisão
maçônica, na qual a existência não se submete ao capricho do fortuito, mas se
organiza segundo uma ordem inteligível, regida pelo Grande Arquiteto do
Universo. A ideia de acaso, portanto, deve ser analisada não como um princípio
real, mas como um véu da teoria do conhecimento que encobre a ignorância das
causas.
No nível inicial de compreensão, o Acaso apresenta-se como aquilo
que ocorre sem finalidade. Trata-se de uma percepção ainda bruta, análoga à
pedra não lavrada do Aprendiz: os eventos simplesmente sucedem, sem
interrogação sobre sua origem ou direção. É o tempo vivido como fluxo
indiferenciado, onde as horas do dia não diferem em essência, pois falta ao
observador a Luz interior que distingue e ordena.
Depois há um despertar incipiente da consciência temporal. O
indivíduo começa a perceber relações, ainda que de forma fragmentária, entre
passado e presente. Contudo, sua reflexão é breve, como uma pausa na marcha,
logo abandonada em favor da distração. Aqui, a régua de vinte e quatro
polegadas ainda não foi plenamente aplicada: mede-se o tempo, mas não se
compreende seu valor moral e iniciático.
O próximo nível de entendimento, mais problemático, consiste na
crença absoluta no indeterminismo: a suposição de que algo possa ocorrer sem
qualquer relação causal. Tal posição, além de filosoficamente insustentável,
contradiz a própria estrutura simbólica da Maçonaria. Como já afirmava
Aristóteles, nada ocorre sem causa; e Tomás de Aquino reforça que toda
contingência remete a uma causa primeira necessária. Negar essa cadeia é
dissolver a inteligibilidade do cosmos.
Na tradição do Rito Escocês Antigo e Aceito, não há espaço para
o acaso absoluto. A crença no Grande Arquiteto do Universo implica reconhecer
uma ordem universal, na qual cada evento, ainda que aparentemente fortuito,
insere-se em um encadeamento de causas e efeitos. A semente que germina após o
fruto não é um acidente: ela carrega em si a memória da árvore e a promessa de
novas manifestações. Assim, o tempo não é um fluxo caótico, mas uma espiral de
significados.
Essa visão encontra eco na filosofia de Baruch Spinoza, para
quem tudo ocorre segundo a necessidade da natureza divina, e na reflexão de
Immanuel Kant, que identifica na razão a capacidade de reconhecer a ordem moral
subjacente aos fenômenos. Mesmo quando não compreendemos plenamente os
acontecimentos, isso não implica ausência de causa, mas limitação de nossa percepção.
A metáfora do maço e do cinzel ilustra essa dinâmica: o maço
representa a vontade que atua, enquanto o cinzel simboliza a inteligência que
orienta. Nenhum golpe é aleatório; cada impacto visa a um fim, ainda que o
Aprendiz não visualize imediatamente a forma final da pedra. Do mesmo modo, os
eventos da vida, mesmo os dolorosos, são golpes que esculpem o caráter.
O refrão dos Titãs, quando reinterpretado à luz da tradição
iniciática, revela-se não como verdade literal, mas como advertência poética.
Não é o acaso que protege, mas a ordem que sustenta; não é a distração que
salva, mas a consciência que ilumina. Aquele que "anda distraído" permanece na profanidade da existência; aquele
que "anda" com intenção
inicia-se na arte de viver.
Assim, as lamentações expressas na canção — "devia ter amado mais", "devia ter arriscado mais" — não são
acusações contra o acaso, mas reconhecimentos tardios da responsabilidade
individual. Como ensinava Sêneca, não é a falta de tempo que nos aflige, mas o
mau uso dele. A vida não falha por capricho do destino, mas por negligência do
agente.
Em última análise, a Maçonaria convida o iniciado a abandonar a
crença no acaso e a assumir a coautoria de sua existência. Sob a égide do
Grande Arquiteto do Universo, cada ação torna-se significativa, cada escolha
reverbera no tecido do ser. O Universo não é um jogo de dados, mas uma
construção viva, na qual cada maçom é simultaneamente pedra e construtor.
Bibliografia Comentada
1.
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo:
Loyola, 2005. Desenvolve a relação entre contingência e necessidade, oferecendo
base teológica para a compreensão de uma ordem universal;
2.
ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola,
2002. Obra fundamental para a compreensão da causalidade, especialmente a noção
de causa primeira, essencial para refutar a ideia de acaso absoluto;
3.
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática.
Lisboa: Edições 70, 2001. Explora a ordem moral e a capacidade racional de
compreender a estrutura ética da realidade;
4.
SÊNECA. Cartas a Lucílio. São Paulo: Penguin
Classics, 2014. Oferece reflexões práticas sobre o tempo e a responsabilidade
individual, alinhadas à ética maçônica;
5.
SPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte:
Autêntica, 2009. Apresenta uma visão determinista do universo, na qual tudo
ocorre segundo a necessidade da substância divina;

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