sexta-feira, 5 de junho de 2026

O Homem como Construtor de Si e do Mundo

 Charles Evaldo Boller

No seio da Maçonaria emerge uma síntese de elevada densidade filosófica: o homem é simultaneamente obra e obreiro, matéria e artífice, fundamento e construção. Ele não apenas habita o mundo, mas participa ativamente de sua edificação; não apenas existe, mas constrói a si mesmo no próprio ato de viver. Essa dupla dimensão — interior e exterior — constitui o núcleo da visão iniciática: toda transformação do mundo começa pela transformação do homem.

Desde as primeiras instruções, o neófito é apresentado como pedra bruta, símbolo de sua condição inicial. Contudo, diferentemente de uma matéria passiva, essa pedra possui consciência e vontade. Ela é capaz de intervir sobre si mesma, utilizando instrumentos que representam faculdades internas: o maço como força da vontade, o cinzel como discernimento da inteligência, a régua como medida do tempo e da ação. O homem, portanto, não é apenas objeto de transformação, mas sujeito ativo do processo.

Na tradição filosófica, essa concepção encontra expressão na reflexão de Jean-Paul Sartre, para quem o homem está condenado a ser livre, isto é, responsável por aquilo que se torna. Não há essência pré-determinada que o defina completamente; ele constrói sua identidade por meio de suas escolhas. A iniciação, nesse sentido, não impõe um modelo, mas oferece ferramentas para essa construção.

O simbolismo maçônico amplia essa perspectiva ao integrar a dimensão individual à coletiva. O homem não constrói apenas a si mesmo, mas contribui para a edificação do templo social. Cada ação individual possui repercussão no conjunto, assim como cada pedra influencia a estabilidade do edifício. A construção do mundo não é tarefa abstrata, mas resultado da soma das ações conscientes de indivíduos comprometidos.

A metáfora do arquiteto é particularmente esclarecedora. O homem é, ao mesmo tempo, arquiteto e operário de sua própria existência. Ele projeta — por meio do pensamento —, executa — por meio da ação — e avalia — por meio da consciência. Essa tríplice função exige responsabilidade, pois erros no projeto ou na execução repercutem na estrutura final.

A filosofia clássica também reconhece essa dimensão construtiva. Aristóteles afirmava que o homem se torna aquilo que pratica. A repetição de ações molda o caráter, e o caráter orienta novas ações. Há, portanto, um ciclo construtivo contínuo, no qual o homem é simultaneamente causa e efeito de si mesmo.

No plano iniciático, essa construção não se limita ao indivíduo isolado. O homem é chamado a atuar no mundo, contribuindo para a melhoria das condições sociais, morais e espirituais. A construção do templo interior encontra sua correspondência na construção do templo social. Uma sem a outra permanece incompleta.

A metáfora da ponte pode ser evocada: o homem constrói a si mesmo para tornar-se capaz de construir para os outros. Sua transformação interior torna-se fundamento de sua ação exterior. Sem essa base, a ação carece de solidez; com ela, torna-se eficaz e duradoura.

Há também uma dimensão ética fundamental. Construir implica responsabilidade pelas consequências. O homem não pode alegar neutralidade diante de suas ações, pois cada escolha contribui para a configuração do mundo. A omissão, inclusive, é forma de construção — ou de ausência dela.

Além disso, essa visão confere sentido à existência. O homem deixa de ser mero espectador e torna-se participante ativo da realidade. Sua vida adquire propósito, na medida em que ele reconhece seu papel na obra maior. Cada gesto, por menor que seja, integra-se a essa construção.

Pode-se afirmar, em síntese, que o homem, enquanto construtor de si e do mundo, realiza a mais elevada vocação do processo iniciático. Ele compreende que sua transformação pessoal não é fim em si mesma, mas meio para uma obra mais ampla. Ao construir-se, ele constrói; ao construir, ele se transforma.

Bibliografia Comentada

1.      ARENDT, Hannah. A condição humana. Analisa a ação como elemento fundamental da construção do mundo humano;

2.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Apresenta a formação do caráter como resultado da ação, contribuindo para a compreensão da autoconstrução;

3.      SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Fundamenta a ideia de que o homem se constrói por suas escolhas, essencial para o tema;

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