Charles Evaldo Boller
No seio da Maçonaria emerge uma síntese de elevada densidade
filosófica: o homem é simultaneamente obra e obreiro, matéria e
artífice, fundamento e construção. Ele não apenas habita o mundo, mas participa
ativamente de sua edificação; não apenas existe, mas constrói a si mesmo no
próprio ato de viver. Essa dupla dimensão — interior e exterior — constitui o
núcleo da visão iniciática: toda transformação do mundo começa pela
transformação do homem.
Desde as primeiras instruções, o neófito é apresentado como
pedra bruta, símbolo de sua condição inicial. Contudo, diferentemente de uma
matéria passiva, essa pedra possui consciência e vontade. Ela é capaz de
intervir sobre si mesma, utilizando instrumentos que representam faculdades
internas: o maço como força da vontade, o cinzel como discernimento da
inteligência, a régua como medida do tempo e da ação. O homem, portanto, não é
apenas objeto de transformação, mas sujeito ativo do processo.
Na tradição filosófica, essa concepção encontra expressão na
reflexão de Jean-Paul Sartre, para quem o homem está condenado a ser livre,
isto é, responsável por aquilo que se torna. Não há essência pré-determinada
que o defina completamente; ele constrói sua identidade por meio de suas
escolhas. A iniciação, nesse sentido, não impõe um modelo, mas oferece
ferramentas para essa construção.
O simbolismo maçônico amplia essa perspectiva ao integrar a
dimensão individual à coletiva. O homem não constrói apenas a si mesmo, mas
contribui para a edificação do templo social. Cada ação individual possui
repercussão no conjunto, assim como cada pedra influencia a estabilidade do
edifício. A construção do mundo não é tarefa abstrata, mas resultado da soma
das ações conscientes de indivíduos comprometidos.
A metáfora do arquiteto é particularmente esclarecedora. O homem
é, ao mesmo tempo, arquiteto e operário de sua própria existência. Ele projeta
— por meio do pensamento —, executa — por meio da ação — e avalia
— por meio da consciência. Essa tríplice função exige responsabilidade,
pois erros no projeto ou na execução repercutem na estrutura final.
A filosofia clássica também reconhece essa dimensão construtiva.
Aristóteles afirmava que o homem se torna aquilo que pratica. A repetição de
ações molda o caráter, e o caráter orienta novas ações. Há, portanto, um ciclo
construtivo contínuo, no qual o homem é simultaneamente causa e efeito de si
mesmo.
No plano iniciático, essa construção não se limita ao indivíduo
isolado. O homem é chamado a atuar no mundo, contribuindo para a melhoria das
condições sociais, morais e espirituais. A construção do templo interior
encontra sua correspondência na construção do templo social. Uma sem a outra
permanece incompleta.
A metáfora da ponte pode ser evocada: o homem constrói a si
mesmo para tornar-se capaz de construir para os outros. Sua transformação
interior torna-se fundamento de sua ação exterior. Sem essa base, a ação carece
de solidez; com ela, torna-se eficaz e duradoura.
Há também uma dimensão ética fundamental. Construir implica
responsabilidade pelas consequências. O homem não pode alegar neutralidade
diante de suas ações, pois cada escolha contribui para a configuração do mundo.
A omissão, inclusive, é forma de construção — ou de ausência dela.
Além disso, essa visão confere sentido à existência. O
homem deixa de ser mero espectador e torna-se participante ativo da realidade.
Sua vida adquire propósito, na medida em que ele reconhece seu papel na obra
maior. Cada gesto, por menor que seja, integra-se a essa construção.
Pode-se afirmar, em síntese, que o homem, enquanto construtor de
si e do mundo, realiza a mais elevada vocação do processo iniciático. Ele
compreende que sua transformação pessoal não é fim em si mesma, mas meio para
uma obra mais ampla. Ao construir-se, ele constrói; ao construir, ele se
transforma.
Bibliografia Comentada
1.
ARENDT, Hannah. A condição humana. Analisa a
ação como elemento fundamental da construção do mundo humano;
2.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Apresenta a
formação do caráter como resultado da ação, contribuindo para a compreensão da
autoconstrução;
3.
SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um
humanismo. Fundamenta a ideia de que o homem se constrói por suas escolhas,
essencial para o tema;

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