Charles Evaldo Boller
Na Maçonaria a razão não é concebida como instrumento
autossuficiente, mas como faculdade que necessita ser iluminada pela moral para
alcançar sua plenitude. A razão, quando isolada, pode tornar-se fria,
calculista e até mesmo perigosa; quando orientada por princípios éticos,
transforma-se em guia seguro da ação humana. Assim, não se trata de negar a
razão, mas de elevá-la, integrando-a a um horizonte de valores que lhe confiram
direção e sentido.
A modernidade exaltou a razão como critério supremo, promovendo
avanços significativos no campo científico e técnico. Contudo, essa exaltação,
quando desvinculada da moral, produziu também distorções. A história demonstra
que a inteligência pode ser utilizada tanto para construir quanto para
destruir. A razão, portanto, não garante por si só a retidão; ela precisa ser
orientada.
Essa compreensão encontra fundamento na filosofia de Immanuel
Kant, que distingue entre o uso teórico e o uso prático da razão. Para Kant, a
razão prática — aquela que orienta a ação — deve submeter-se à lei moral,
expressa no dever. A ação verdadeiramente racional é aquela que pode ser
universalizada, isto é, que respeita a dignidade de todos os seres humanos. A
moral, nesse sentido, não limita a razão, mas a eleva.
No simbolismo maçônico, essa integração é sugerida pelo uso
combinado dos instrumentos. O cinzel, associado à inteligência, não opera
sozinho; necessita do maço, expressão da vontade, e ambos devem ser orientados
por um propósito superior. A razão, isolada, pode cortar de forma imprecisa; iluminada
pela moral, atua com precisão e finalidade.
A metáfora da luz é particularmente esclarecedora. A razão pode
ser comparada a uma lâmpada: possui a capacidade de iluminar, mas precisa de
uma fonte de energia. A moral é essa fonte. Sem ela, a luz enfraquece ou se
apaga; com ela, torna-se clara e orientadora. A iluminação, portanto, não é
apenas cognitiva, mas também ética.
A tradição filosófica também reconhece essa necessidade de
integração. David Hume afirmava que a razão é escrava das paixões, indicando
que, na prática, o homem é movido por inclinações que a razão apenas organiza.
A tradição iniciática, contudo, propõe uma síntese mais elevada: não a
submissão da razão às paixões, mas sua orientação por princípios morais que
disciplinam essas mesmas paixões.
A razão iluminada pela moral também se manifesta na prudência. O
homem prudente não apenas conhece, mas julga adequadamente. Ele considera as
consequências de seus atos, avalia os meios e escolhe os fins com sabedoria.
Essa prudência não é indecisão, mas equilíbrio entre conhecimento e valor.
Além disso, essa integração protege o homem contra o relativismo
e o dogmatismo. A razão, sem moral, pode justificar qualquer coisa; a moral,
sem razão, pode tornar-se rígida e cega. A união de ambas permite uma ética
viva, capaz de adaptar-se sem perder seus princípios.
No contexto iniciático, essa iluminação é progressiva. O homem
não adquire de imediato uma razão plenamente orientada; ele a desenvolve ao
longo do tempo, por meio do estudo, da reflexão e da prática. Cada experiência,
cada erro, cada acerto contribui para esse refinamento.
A metáfora do arquiteto é novamente pertinente: a razão fornece
os cálculos, as medidas, o planejamento; a moral define a finalidade da
construção. Sem finalidade, o planejamento perde sentido; sem planejamento, a
finalidade não se realiza. A obra exige ambos.
Pode-se afirmar, em síntese, que a razão iluminada pela moral
constitui o fundamento da ação justa. Ela permite ao homem não apenas conhecer
o mundo, mas agir corretamente nele. É a união do saber com o dever, da
inteligência com a consciência, da luz com o propósito.
Bibliografia Comentada
KANT, Immanuel. Crítica da razão prática. Fundamenta a relação
entre razão e moral, essencial para compreender a orientação ética da ação.
HUME, David. Tratado da natureza humana. Analisa a relação entre
razão e paixões, contribuindo para o debate sobre os limites da racionalidade.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Introduz a prudência como virtude
intelectual prática, integrando razão e moral.
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Desenvolve a ideia de razão
iluminada pela lei moral, integrando filosofia e teologia.

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