Charles Evaldo Boller
No contexto do rito maçônico, a formação do Caráter não é
compreendida como resultado espontâneo das circunstâncias, mas como obra
deliberada, construída com intenção, disciplina e consciência. O homem não
nasce pronto; ele se faz. E esse fazer não é casual, mas orientado por
princípios que devem ser escolhidos, cultivados e mantidos ao longo do tempo. O
caráter, assim, não é herança passiva, mas arquitetura ativa.
Desde o momento em que o neófito é recebido como pedra bruta,
estabelece-se uma premissa fundamental: há em cada homem uma matéria a ser
trabalhada. Essa matéria não é neutra, mas carregada de tendências,
inclinações, virtudes potenciais e imperfeições latentes. A formação do caráter
consiste precisamente em selecionar, fortalecer e ordenar essas forças internas,
de modo a produzir uma estrutura estável e coerente.
Na tradição filosófica, essa concepção encontra fundamento na
ética de Aristóteles, para quem o caráter é formado pelo hábito. Não se trata
de um conjunto de ideias abstratas, mas de disposições adquiridas pela
repetição de atos. Assim, o homem justo torna-se justo praticando a justiça; o
homem disciplinado torna-se disciplinado exercendo a disciplina. A virtude,
portanto, é prática antes de ser teoria.
No simbolismo maçônico, o maço e o cinzel representam esse
processo deliberado. O maço, expressão da vontade, executa; o cinzel, expressão
da inteligência, orienta. Sem vontade, não há ação; sem inteligência, a ação se
torna desordenada. A formação do Caráter exige a conjugação dessas duas forças,
operando de maneira coordenada sobre a própria natureza.
A metáfora da construção é particularmente adequada. Assim como
um edifício não se ergue ao acaso, mas segundo um plano, com materiais
selecionados e técnicas adequadas, o caráter também requer projeto e execução.
Cada decisão moral corresponde a um elemento estrutural; cada hábito
consolidado, a uma viga de sustentação. O resultado final não é produto do
improviso, mas da constância.
Entretanto, essa construção não ocorre sem resistência. O homem
encontra em si mesmo forças contrárias: impulsos, paixões, tendências ao
desvio. A formação do caráter implica confronto com essas forças, não para
negá-las completamente, mas para ordená-las. Como ensinava Sigmund Freud, a
vida psíquica é marcada por tensões entre diferentes instâncias. O caráter,
nesse sentido, é o resultado do equilíbrio alcançado entre essas forças.
A deliberação é elemento central nesse processo. Não basta agir;
é necessário escolher como agir. A escolha consciente diferencia o homem que se
constrói daquele que apenas reage. Cada decisão torna-se oportunidade de
afirmar ou negar os princípios adotados. Assim, o caráter é continuamente
reafirmado ou enfraquecido pelas escolhas diárias.
Há ainda uma dimensão temporal. O caráter não se forma instantaneamente,
mas ao longo da vida. É resultado de um processo cumulativo, onde pequenas
ações, repetidas, produzem grandes efeitos. A constância, portanto, é mais
importante que a intensidade ocasional. Um único ato virtuoso não constitui
caráter; é a repetição que o consolida.
No plano iniciático, a formação do caráter está intrinsecamente
ligada à ideia de responsabilidade. O homem não pode atribuir suas falhas
apenas às circunstâncias ou à natureza. Ele é chamado a assumir o papel de
construtor de si mesmo. Essa responsabilidade, embora exigente, é também
libertadora, pois confere ao indivíduo o poder de transformar sua própria
existência.
Pode-se afirmar, em síntese, que o caráter é a obra mais
importante que o homem pode realizar. Diferentemente das construções externas,
ele não se deteriora com o tempo, mas se fortalece. É a base sobre a qual se
apoiam todas as ações, a medida pela qual o homem se define e o legado que
deixa.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Fundamenta a
formação do caráter como resultado de hábitos virtuosos, essencial para a
compreensão do tema;
2.
FRANKL, Viktor. Em busca de sentido. Explora a
responsabilidade individual na construção da própria vida, alinhando-se à ideia
de caráter deliberado;
3.
FREUD, Sigmund. O ego e o id. Analisa as tensões
internas do psiquismo, contribuindo para a compreensão dos desafios na formação
do caráter;
4.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos
costumes. Apresenta a importância da deliberação moral e da autonomia na
construção ética;

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