Charles Evaldo Boller
Entre os elementos discretos que sustentam a vida ritual da
Loja, o balaústre ocupa um lugar aparentemente secundário. Trata-se, em termos
simples, do registro escrito das deliberações e acontecimentos ocorridos
durante os trabalhos. No entanto, como frequentemente sucede na linguagem
simbólica da Maçonaria, aquilo que parece simples revela uma profundidade
inesperada. O balaústre é muito mais do que um documento administrativo: ele
é a memória viva da Loja, a testemunha da verdade e o guardião
da justiça.
Toda comunidade humana necessita de memória para existir. Sem
memória, não há continuidade; sem continuidade, não há identidade. A Loja, como
organismo moral, não poderia subsistir sem um registro fiel de seus atos. O
balaústre cumpre exatamente essa função: ele preserva a história do trabalho
coletivo, permitindo que o passado ilumine o presente e oriente o futuro. Assim
como as pedras de uma catedral conservam as marcas das gerações que as
colocaram, o balaústre conserva as marcas intelectuais e morais das decisões
tomadas pelos irmãos.
A filosofia antiga sempre reconheceu a importância da memória.
Platão, em seu diálogo "Teeteto",
descreve a mente humana como uma espécie de tábua de cera onde as experiências
deixam suas impressões. Quando essas impressões são claras e bem ordenadas, o
conhecimento torna-se confiável. Quando são confusas, surgem o erro e a ilusão.
O balaústre desempenha função semelhante no âmbito da Loja: ele fixa os
acontecimentos de maneira clara e ordenada, impedindo que a lembrança se
deturpe com o passar do tempo.
Esse registro possui também uma dimensão ética. A verdade é um
dos pilares da vida iniciática. Quando as palavras e decisões de uma assembleia
são registradas com fidelidade, estabelece-se um compromisso coletivo com a
transparência moral. Kant afirmava que a veracidade é uma obrigação fundamental
da razão prática, pois sem ela a confiança entre os homens se dissolve. O
balaústre torna-se, nesse sentido, um instrumento de responsabilidade. Cada
decisão tomada em Loja sabe que será registrada e preservada, e essa
consciência incentiva a prudência e a honestidade.
Além disso, o balaústre desempenha uma função de justiça. Em
qualquer comunidade organizada, podem surgir divergências, interpretações
diferentes ou disputas de memória. O registro escrito atua como árbitro
silencioso dessas situações. Ele não fala com emoção nem com parcialidade;
apenas apresenta o que foi deliberado. Dessa forma, contribui para preservar a
equidade entre os irmãos e impedir que a paixão momentânea substitua o
julgamento equilibrado.
Essa função aproxima o balaústre de um princípio fundamental do
direito. Desde a Roma antiga, os juristas compreenderam que a estabilidade das
instituições depende da documentação das decisões. Cícero afirmava que a
história é testemunha dos tempos e mestra da vida. A Maçonaria, ao registrar
cuidadosamente seus trabalhos, aplica essa mesma sabedoria: o passado torna-se
mestre quando é preservado com fidelidade.
Existe também um simbolismo mais profundo nessa prática. A
escrita sempre foi considerada um instrumento de transmissão do conhecimento.
Na tradição hermética, o livro representa a preservação da sabedoria ao longo
das gerações. O balaústre pode ser visto como um pequeno livro da Loja, onde se
gravam as experiências coletivas de aprendizado. Cada linha escrita é como um
traço na prancheta do arquiteto: contribui para a construção do edifício moral
da fraternidade.
O papel do secretário, responsável por esse registro, adquire
assim uma dignidade particular. Ele não é apenas um escriba; é o Guardião da
Memória da Loja. Sua tarefa exige atenção, imparcialidade e respeito pela
verdade. Assim como o historiador deve narrar os fatos sem distorcê-los, o
secretário deve registrar os acontecimentos sem acrescentar ou omitir aquilo
que possa alterar seu significado.
Também no plano simbólico individual, o balaústre possui uma
lição importante. Cada ser humano possui sua própria "memória moral", composta pelas ações que realizou ao longo da
vida. Essas ações formam uma espécie de registro invisível que define o
caráter. O iniciado é convidado a imaginar que cada gesto seu é inscrito nesse
livro interior. Essa consciência pode orientar suas decisões, lembrando-lhe que
cada ato contribui para a história de sua própria existência.
Marco Aurélio, refletindo sobre a vida, aconselhava a agir de
tal modo que cada dia pudesse ser considerado completo em si mesmo. Essa
atitude corresponde ao espírito do balaústre. Cada sessão em Loja produz um
registro que não pode ser alterado depois de escrito. Da mesma forma, cada momento
da vida humana torna-se parte permanente da história pessoal.
Assim, o balaústre não é apenas um instrumento administrativo.
Ele representa a memória consciente da fraternidade, a fidelidade à verdade e a
garantia de justiça nas decisões coletivas. Ao registrar as palavras e atos dos
irmãos, ele lembra que toda construção moral exige continuidade e
responsabilidade.
Quando o iniciado compreende esse simbolismo, percebe que a
verdadeira obra não se limita às paredes do templo. Ela se estende ao tempo, gravando-se
na memória coletiva e na história pessoal de cada maçom. Dessa maneira, o
balaústre torna-se uma pedra invisível do edifício espiritual que a humanidade
procura erguer sob a inspiração do Grande Arquiteto do Universo.
Bibliografia Comentada
1.
CÍCERO. Da República. São Paulo: Edipro, 2011.
Apresenta reflexões sobre justiça, memória histórica e organização da vida
pública, úteis para compreender o valor institucional da preservação dos
registros;
2.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos
Costumes. Lisboa: Edições 70, 2007. Explora o princípio da veracidade e da
responsabilidade moral, fundamentais para interpretar o balaústre como
compromisso com a verdade;
3.
MARCO AURÉLIO. Meditações. São Paulo: Cultrix,
2002. Reflexões estoicas sobre responsabilidade pessoal e consciência moral,
que dialogam com a ideia de um registro interior das ações humanas;
4.
PLATÃO. Teeteto. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 2005. O diálogo discute a natureza do conhecimento e da memória,
oferecendo uma analogia filosófica importante para compreender o valor do
registro e da lembrança ordenada;
5.
WIRTH, Oswald. O Simbolismo Maçônico. São Paulo:
Madras, 2008. Análise aprofundada dos símbolos e funções da Loja, incluindo a
importância da memória e da tradição na continuidade da ordem iniciática;

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