sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

A Certeza Como Eixo do Conhecimento

 Charles Evaldo Boller

A pergunta sobre a origem da certeza atravessa toda a história do pensamento humano e constitui, ao mesmo tempo, um problema filosófico, científico, religioso e iniciático. O ensaio que lhe serve de base, debitado ao irmão Humberto Rohden, demonstra que a certeza não é um dado imediato, nem uma concessão da autoridade, mas uma conquista interior que exige disciplina intelectual, abertura intuitiva e retidão moral. Tal concepção encontra apoio profundo na filosofia maçônica, especialmente no Rito Escocês Antigo e Aceito, no qual o conhecimento não é transmitido como dogma, mas despertado por meio de símbolos que conduzem o iniciado da aparência à essência, do múltiplo ao Uno.

A experiência de Albert Einstein, ao reconhecer na ordem invisível da natureza um princípio mais confiável do que as construções teológicas ou políticas, ilustra exemplarmente esse itinerário. A bússola magnética que o impressionou na juventude pode ser compreendida como metáfora universal: uma agulha simples, obediente a um campo invisível, revela que forças não perceptíveis aos sentidos governam o mundo sensível. De modo análogo, a Maçonaria ensina que a vida humana deve orientar-se por princípios invisíveis, simbolizados pelo compasso e pelo esquadro, que não impõem direção pela força, mas pela harmonia.

A filosofia clássica oferece fundamentos sólidos para essa compreensão. Platão já distinguia o mundo sensível, instável e enganador, do mundo inteligível, onde residem as ideias permanentes. A certeza, para ele, não nasce da opinião, mas da contemplação do inteligível. Essa mesma intuição reaparece, sob outra forma, no pensamento de Baruch Spinoza, para quem Deus não é um ente separado, mas a própria substância do Universo, regida por leis necessárias e racionais. Conhecer, nesse contexto, é reconhecer a ordem imanente do real, e não projetar sobre ele desejos ou medos humanos.

A ciência moderna, longe de negar essa visão, acaba por confirmá-la em linguagem matemática. A física quântica demonstra que a realidade não é um mecanismo rígido e absoluto, mas um tecido de relações, probabilidades e interações, no qual o observador participa do fenômeno observado. Essa descoberta aproxima-se surpreendentemente da visão iniciática, segundo a qual o homem não é mero espectador do cosmos, mas cooperador consciente na obra universal. Edificar o Templo Interior significa, assim, alinhar pensamento, ação e intenção às leis que regem tanto a natureza quanto a consciência.

A filosofia crítica de Immanuel Kant contribui ao mostrar que o conhecimento humano resulta da interação entre estruturas racionais e experiência sensível, mas o ensaio avança ao enfatizar que a certeza última não se esgota nessa síntese. Há um momento em que o espírito deve ultrapassar a análise e alcançar a intuição racional, aquilo que Einstein chamou de "puro raciocínio". Tal passo não é irracional, mas suprarracional, assim como a iniciação não nega a razão, mas a eleva a um plano simbólico e ético mais amplo.

Nesse horizonte, Maçonaria, ciência e religião deixam de ser campos rivais e passam a ser linguagens complementares. A ciência descreve os fenômenos, a filosofia investiga seus fundamentos, a religião oferece sentido e valor, e a Maçonaria propõe um método simbólico para integrar essas dimensões na formação do ser humano. Quando uma dessas instâncias pretende tornar-se absoluta, surge o dogmatismo; quando dialogam, emerge a sabedoria. A certeza, então, não se manifesta como rigidez, mas como serenidade, fruto da coerência interior.

Pode-se comparar essa certeza a uma chama protegida de um lampião. Os fatos empíricos são o vidro que permite a observação, a razão é a estrutura que sustenta a lâmpada, e a intuição é o fogo que ilumina. Sem o vidro, a chama se apaga ao vento da fantasia; sem o fogo, o lampião é apenas objeto inerte. O conhecimento exige a integração de todos esses elementos, tal como ensina a tradição iniciática ao unir símbolo, reflexão e vivência ética.

Conclui-se, portanto, que a certeza não é fabricada, mas revelada; não é herdada, mas conquistada; não é imposta, mas reconhecida. Ela nasce quando o indivíduo assume a responsabilidade pelo próprio pensar e agir, orientando-se por uma bússola interior afinada com a ordem universal. Nesse sentido, a busca da certeza coincide com a própria finalidade da iniciação: transformar informação em sabedoria e conhecimento em virtude.

Bibliografia Comentada

1.      EINSTEIN, Albert. Como Vejo o Mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. Coletânea de reflexões nas quais o próprio Einstein explicita sua visão sobre ciência, valores e espiritualidade, iluminando o conceito de certeza abordado no ensaio;

2.      KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. São Paulo: Nova Cultural, 1999. Análise rigorosa dos limites e possibilidades do conhecimento humano, indispensável para situar razão, experiência e intuição;

3.      PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Texto fundamental da filosofia clássica que distingue opinião e conhecimento verdadeiro, oferecendo base para a noção de certeza como acesso ao inteligível;

4.      ROHDEN, Humberto. O Pensamento de Einstein. São Paulo: Martin Claret, s.d. Obra que interpreta a trajetória intelectual de Einstein sob perspectiva filosófica e espiritual, destacando a primazia da intuição racional sobre o empirismo ingênuo;

5.      SPINOZA, Baruch. Ética Demonstrada à Maneira dos Geômetras. São Paulo: abril Cultural, 1973. Obra central do racionalismo monista, essencial para compreender a ideia de Deus como Lei imanente e fundamento da ordem universal;

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