A pergunta sobre a origem da certeza atravessa toda a história
do pensamento humano e constitui, ao mesmo tempo, um problema filosófico,
científico, religioso e iniciático. O ensaio que lhe serve de base, debitado ao
irmão Humberto Rohden, demonstra que a certeza não é um dado imediato, nem uma
concessão da autoridade, mas uma conquista interior que exige disciplina
intelectual, abertura intuitiva e retidão moral. Tal concepção encontra apoio profundo
na filosofia maçônica, especialmente no Rito Escocês Antigo e Aceito, no qual o
conhecimento não é transmitido como dogma, mas despertado por meio de símbolos
que conduzem o iniciado da aparência à essência, do múltiplo ao Uno.
A experiência de Albert Einstein, ao reconhecer na ordem
invisível da natureza um princípio mais confiável do que as construções
teológicas ou políticas, ilustra exemplarmente esse itinerário. A bússola
magnética que o impressionou na juventude pode ser compreendida como metáfora
universal: uma agulha simples, obediente a um campo invisível, revela que
forças não perceptíveis aos sentidos governam o mundo sensível. De modo
análogo, a Maçonaria ensina que a vida humana deve orientar-se por princípios
invisíveis, simbolizados pelo compasso e pelo esquadro, que não impõem direção
pela força, mas pela harmonia.
A filosofia clássica oferece fundamentos sólidos para essa
compreensão. Platão já distinguia o mundo sensível, instável e enganador, do
mundo inteligível, onde residem as ideias permanentes. A certeza, para ele, não
nasce da opinião, mas da contemplação do inteligível. Essa mesma intuição
reaparece, sob outra forma, no pensamento de Baruch Spinoza, para quem Deus não
é um ente separado, mas a própria substância do Universo, regida por leis
necessárias e racionais. Conhecer, nesse contexto, é reconhecer a ordem
imanente do real, e não projetar sobre ele desejos ou medos humanos.
A ciência moderna, longe de negar essa visão, acaba por
confirmá-la em linguagem matemática. A física quântica demonstra que a
realidade não é um mecanismo rígido e absoluto, mas um tecido de relações,
probabilidades e interações, no qual o observador participa do fenômeno
observado. Essa descoberta aproxima-se surpreendentemente da visão iniciática, segundo
a qual o homem não é mero espectador do cosmos, mas cooperador consciente na
obra universal. Edificar o Templo Interior significa, assim, alinhar
pensamento, ação e intenção às leis que regem tanto a natureza quanto a
consciência.
A filosofia crítica de Immanuel Kant contribui ao mostrar que o
conhecimento humano resulta da interação entre estruturas racionais e
experiência sensível, mas o ensaio avança ao enfatizar que a certeza última não
se esgota nessa síntese. Há um momento em que o espírito deve ultrapassar a
análise e alcançar a intuição racional, aquilo que Einstein chamou de "puro raciocínio". Tal passo não é
irracional, mas suprarracional, assim como a iniciação não nega a razão, mas a
eleva a um plano simbólico e ético mais amplo.
Nesse horizonte, Maçonaria, ciência e religião deixam de ser
campos rivais e passam a ser linguagens complementares. A ciência descreve os
fenômenos, a filosofia investiga seus fundamentos, a religião oferece sentido e
valor, e a Maçonaria propõe um método simbólico para integrar essas dimensões
na formação do ser humano. Quando uma dessas instâncias pretende tornar-se absoluta,
surge o dogmatismo; quando dialogam, emerge a sabedoria. A certeza, então, não
se manifesta como rigidez, mas como serenidade, fruto da coerência interior.
Pode-se comparar essa certeza a uma chama protegida de um
lampião. Os fatos empíricos são o vidro que permite a observação, a razão é a
estrutura que sustenta a lâmpada, e a intuição é o fogo que ilumina. Sem o
vidro, a chama se apaga ao vento da fantasia; sem o fogo, o lampião é apenas
objeto inerte. O conhecimento exige a integração de todos esses elementos, tal
como ensina a tradição iniciática ao unir símbolo, reflexão e vivência ética.
Conclui-se, portanto, que a certeza não é fabricada, mas
revelada; não é herdada, mas conquistada; não é imposta, mas reconhecida. Ela
nasce quando o indivíduo assume a responsabilidade pelo próprio pensar e agir,
orientando-se por uma bússola interior afinada com a ordem universal. Nesse
sentido, a busca da certeza coincide com a própria finalidade da iniciação:
transformar informação em sabedoria e conhecimento em virtude.
Bibliografia Comentada
1.
EINSTEIN, Albert. Como Vejo o Mundo. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1981. Coletânea de reflexões nas quais o próprio
Einstein explicita sua visão sobre ciência, valores e espiritualidade,
iluminando o conceito de certeza abordado no ensaio;
2.
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. São
Paulo: Nova Cultural, 1999. Análise rigorosa dos limites e possibilidades do
conhecimento humano, indispensável para situar razão, experiência e intuição;
3.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes,
2006. Texto fundamental da filosofia clássica que distingue opinião e
conhecimento verdadeiro, oferecendo base para a noção de certeza como acesso ao
inteligível;
4.
ROHDEN, Humberto. O Pensamento de Einstein. São
Paulo: Martin Claret, s.d. Obra que interpreta a trajetória intelectual de
Einstein sob perspectiva filosófica e espiritual, destacando a primazia da
intuição racional sobre o empirismo ingênuo;
5.
SPINOZA, Baruch. Ética Demonstrada à Maneira dos
Geômetras. São Paulo: abril Cultural, 1973. Obra central do racionalismo
monista, essencial para compreender a ideia de Deus como Lei imanente e
fundamento da ordem universal;

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