terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Formação do Ambiente para Reconstrução Interna


Charles Evaldo Boller

Sinopse: A espiritualidade necessária para obtenção da liberdade. Ferramentas utilizadas na construção de templos internos.

Com relação à proposta da Maçonaria de reconstruir o interior de um templo feito de carne e ossos, sendo este extensão ou parte de todas as partículas do Universo animadas com a mesma força ativa, usa-se do exemplo da reconstrução do templo de Jerusalém, em forma de lenda, uma alegoria. A constante reconstrução é com respeito a capacidades racionais, psicológicas, emocionais, valores, princípios e a metafísica do ser espiritual que cada homem desenvolvido é. O homem é um ser material com uma componente espiritual. A reconstrução diz respeito a uma reedificação interna constante devido à destruição efetuada por vícios e paixões desenfreadas, bem como, para relembrar valores adormecidos na memória. Este templo interior pode ser reconstruído indefinidas vezes, dependente apenas de constância na atividade. O local ideal para esta reconstrução interna deve constar de usufruto de amor e paz, porque é só na tranquilidade de um ambiente fraterno e amoroso que o homem se desenvolve para o bem. Esta construção interna, devidamente orientada, resulta no acumulo de inestimáveis tesouros que levam o homem a somar para a perenização da prevalência do bem no meio social em que vive.

Um ambiente cheio de angústia e terror quase impossibilita a reconstrução; apenas homens com alta capacidade de concentração progridem onde existe desorganização e agressividade. Num ambiente hostil e de alta concorrência o homem também não tem oportunidade para se reconstruir internamente. No mundo externo da Maçonaria, o aviltante sistema humano de escravidão drena toda a força ativa até sobrar apenas bagaço. A ordem maçônica tem como modificar esta realidade por provocar o maçom a efetuar reiteradas reconstruções de seu templo interior com vistas a libertá-lo dos grilhões da alienação do trabalho que escraviza e desvirtua a vida natural. Não que venha a partir de então a não trabalhar, mas o conscientiza das outras necessidades que dão sentido para a vida como: presença na família, diversão comedida, amizades e principalmente as necessidades internas de satisfação com a vida.

São provocações no campo intelectual e das sensibilidades, que despertam no indivíduo conhecimentos e percepções que ele já sabe, mas não aplica por estarem adormecidas. Estudiosos concluíram que é impossível levar educação de fora para dentro, daí a ênfase dada pela Maçonaria ao "conhece-te a ti mesmo", de Sócrates (468 a. C. - 399 a. C.). Pode-se introduzir conhecimento de fora para dentro, mas isto é impossível na educação das necessidades internas; aquelas que despertam potenciais internos sensitivos, emocionais e espirituais; esta informação já está lá, na assinatura genética, e só pode ser despertada.

Para Platão (428 a. C. - 347 a. C.) foi difícil definir aquilo que denominava alma inferior, ou os desejos e inclinações que levam à escravidão ao sensível, que de sua ótica levam sempre ao erro; na alma superior a racionalidade deveria desenvolver a capacidade de controlar paixões e desejos, senão seria impossível desenvolver comportamento moral, ou despertar o bem; é a noção de educação do homem naquilo com que a natureza já o proveu. O maçom já possui todas as características que dele fazem um homem moral, mas carece de aperfeiçoamento; é o que ele desenvolve nas constantes reconstruções de seu eu interior. Na ausência de valores na circunvizinhança, para não perecer ou submeter-se aos vícios e perigos, o homem que deseja reconstruir seu Universo interior tem praticamente impossibilitada a atividade de reconstrução interna porque precisa usar de toda a atenção e força para defender-se de ataques externos.

Quando o predador, o inimigo, está perto, toda atenção é dispensada para impossibilitar sua nefasta atuação. Situação vivida no dia-a-dia do trabalhador, onde no local de trabalho a concorrência e a maldade são permanentes caçadores de vítimas ao abate, para que outros possam beneficiar-se do espaço que ocupa. E existem aqueles que trabalham tanto que quase nada sobra para a convivência familiar, ou usufruir das coisas boas da vida no tempo certo e sem exageros.

O maçom usa de ferramentas na reconstrução. Uma delas é a trolha; pequena pá em forma triangular com a qual se assentam tijolos. A trolha é símbolo do trabalho honesto. Mas como usar uma trolha de pedreiro para reedificar internamente o homem? Tomada simbolicamente, esta pá de pedreiro tem um papel importante na reconstrução interna porque sem a utilização simbólica dela não é possível edificar o ambiente fraterno necessário para que cada um possa trabalhar em si. Daí o maçom designar o seu lugar de reunião de templo, um lugar de respeito onde trabalha em si mesmo e em seus relacionamentos apaziguados com a trolha e outras ferramentas. Mesmo o mais ingênuo não conspurca um local tão sagrado como o templo onde se reúne com outros irmãos e todos trabalham em seus templos, construindo e reconstruindo. Ao estender este raciocínio para o templo interior de cada um - o proprietário do mesmo nunca o sujaria! Apenas um louco ou afetado faria qualquer coisa para prejudicar o harmonioso funcionamento de seu templo. E destes existem multidões de desinformados, principalmente no que afeta a cultura e os valores.

Apesar deste raciocínio, mesmo numa loja maçônica existem atritos e tensões entre irmãos; todos são homens bons, mas imperfeitos; os mais sábios já reconstruíram diversas vezes seus templos internos; são os que estão na dianteira e iluminam o caminho aos menos experientes usando da trolha com maestria. Este instrumento de trabalho é o símbolo da tolerância e indulgência para com os erros dos irmãos; pequenas querelas que sempre acorrem entre os homens; principalmente onde se analisam questões sensíveis da dinâmica da sociedade. Normalmente estas discussões estão no plano das ideias e visando o bem da comunidade da loja. A trolha é usada simbolicamente para desconsiderar as pequenas imperfeições dos iguais. Ao "passar a trolha" por sobre as imperfeições de seus irmãos o maçom está trabalhando igualmente em seu templo interior e passa sobre eventual ofensa. Perdoa, esquece a injúria e elimina o ressentimento.

No usar da trolha o exercício espiritual é intenso, ainda mais que perdoar é característica de corajosos e não de fracos. O perdão é definitivo e não um exercício de dissimulação que quando uma oportunidade surgir, se existirem resquícios de ressentimento, estes eclodem em vingança. Ao "passar a trolha" o maçom obtém um locar fraterno onde reunir-se, em sendo homem bom, passa a permanentemente retrabalhar seu mundo interior afastado do mundo exterior onde um sistema aviltante o escraviza. Desenvolvendo virtudes como paciência e afabilidade criam-se ambientes propícios ao desenvolvimento espiritual, é a busca do amor fraterno, a única solução de todos os problemas da humanidade, conforme foi dito pelos grandes iniciados através dos tempos. Perdoar de fato é ato de heroísmo e o resplandecer do amor, é o desenvolvimento da nobreza da abnegação; de negar a si mesmo vantagens em nome do bem comum.

Ao invés da vingança, o ser espiritualizado julga o próximo com complacência e sem ódio, sabendo que também pode cometer os mesmos erros daquele que eventualmente ofendeu. Consciente de sua imperfeição corre em auxílio do próximo com mão de apoio e pratica a caridade. Com o despertar para a constante reconstrução interna glorifica a criação e destaca o poder e a glória da humanidade. Num mundo perfeito seria fácil usar da trolha para alisar os próprios defeitos e os dos semelhantes, mas a realidade não é assim.

Quem desenvolve seu mundo interior carece também de andar armado. Não para o ataque, mas para a defesa. Para reconstruir o templo interior é necessário fazer frente a terríveis e insidiosos inimigos. Cabe neste mundo real usar a trolha numa das mãos, enquanto na outra se porta uma arma de defesa.

O pior inimigo somos nós mesmos, que nos sabotarmos em resultado de vícios e paixões desenfreadas, e seguidamente destruímos nosso templo interior; daí a necessidade de permanentes ações de reconstrução. Aos inimigos externos até não é difícil combater; basta isolar-se daquela influência, mas não deixam de ser perigosos porque usam de nossas fraquezas para nos derrubar e enfraquecer. Normalmente são aqueles que estão mais perto, os amigos e familiares, que exploram nosso coração, instintos e emoções e nos fazem cair reiteradas vezes em erro. Como combater tais inimigos?

Sendo versátil. Numa mão a trolha e na outra a espada. É o trabalho em si com a trolha e ao mesmo tempo combater o mal que nos é imposto à convivência por influência do meio em que vivemos. Contra invejosos, insidiosos e traiçoeiros usa-se simbolicamente da espada da justiça, para os que erram contra nós usamos abnegada e carinhosamente da trolha; dois instrumentos muito importantes para a busca da paz social.

Trabalhar a pedra é bom quando suas faces são lisas e não causam atrito quando em contato com outras pedras. Por outro lado, como é natural e a maioria das pedras possuem asperezas, não assentando corretamente em seu espaço, invadindo o espaço que não lhes pertence, entra em ação a trolha. Aplica-se a massa da tolerância entre as duas pedras, o que reduz bastante o atrito com aqueles que ainda não obtiveram o grau de discernimento e postura adequados para não friccionar suas asperezas nos que estão próximos e desejam conviver para progredir na sua edificação interna. E se uma pedra insiste em prejudicar a outra, entra em ação a espada, que empunhada e movida com maestria, aplica a justiça e a diplomacia, o que espanta ou impede que as asperezas de terceiros abusados prejudiquem o brilho da pedra de cada um. Dizem que se as asperezas de uma pedra atritam a outra, e ambas persistem nesta provocação, então, ao invés de uma pedra cúbica e bem esquadrejada, o resultado será um pedra rolada de fundo de rio; sem forma definida e de comportamento que não adquire estabilidade; rola ao sabor dos eventos aleatórios em direção ao usufruto de uma vida vazia e sujeita a surpresas de chocar-se continuamente até sobrar apenas um pedregulho; isto se não dispersar em forma de areia, resultando um ser nulo, insignificante. A filosofia da Maçonaria possui cabedal de ideias para obtenção do ambiente propício ao desenvolvimento interno do construtor social; favorece o ambiente propício e calmo para trabalhar em paz o templo interior da pedra que reconhece que o Grande Arquiteto do Universo certamente muniu o homem com discernimento de avaliar a vantagem de praticar o amor fraterno em todas as instâncias da vida.

Bibliografia:

1. ANTISERI, Dario; REALE, Giovanni, História da Filosofia, do Humanismo a Kant, Volume 2, título original: Il Pensiero Occidentale Dalle Origini Ad Oggi, ISBN 85-349-0163-5, sexta edição, Paulus, 950 páginas, São Paulo, 1990;

2. ASLAN, Nicola, Instruções para Capítulos, para o 15º ao 18, ISBN 85-7252-218-2, quarta edição, Editora Maçônica a Trolha Ltda., 114 páginas, Londrina, 2006;

3. CAPRA, Fritjof, O Ponto de Mutação, A Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente, título original: The Turning Point, tradução: Álvaro Cabral, Newton Roberval Eichemberg, primeira edição, Editora Pensamento Cultrix Ltda., 448 páginas, São Paulo, 1982;

4. COMTE-SPONVILLE, André, O Espírito do Ateísmo, título original: L'esprit de L'théisme, tradução: Eduardo Brandão, ISBN 978-85-60156-66-5, primeira edição, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 192 páginas, São Paulo, 2007;

5. MAQUIAVEL, Nicolau, O Príncipe, Comentado por Napoleão Bonaparte, tradução: Fernanda Pinto Rodrigues, segunda edição, Publicações Europa-américa, 182 páginas, 1976;

6. MICHEL, Oswaldo da Rocha, O Sentido da Vida e a Maçonaria, ISBN 978-85-7252-275-5, primeira edição, Editora Maçônica a Trolha Ltda., 208 páginas, Londrina, 2010;

7. RIGHETTO, Armando, Maçonaria, uma Esperança, primeira edição, Editora Maçônica a Trolha Ltda., 160 páginas, Londrina, 1992.

Biografia:

1. Platão ou Platão de Atenas, filósofo de nacionalidade grega. Também conhecido por Aristócles Platão de Atenas. Nasceu em Atenas em 428 a. C. Faleceu em Atenas em 347 a. C. Considerado um dos mais importantes filósofos de todos os tempos;

2. Sócrates ou Sócrates de Atenas, filósofo de nacionalidade grega. Nasceu em Atenas em 468 a. C. Faleceu em 399 a. C. Um dos mais importantes pensadores de todos os tempos.

Data do texto: 02/02/2010

Sinopse do autor: Charles Evaldo Boller, engenheiro eletricista e maçom de nacionalidade brasileira. Nasceu em 4 de dezembro de 1949 em Corupá, Santa Catarina. Com 61 anos de idade.

Loja Apóstolo da Caridade 21 Grande loja do Paraná

Local: Curitiba

Grau do Texto: Aprendiz Maçom

Área de Estudo: Educação, Espiritualidade, Filosofia, Justiça, Maçonaria, Moral, Tolerância

Um comentário:

LOurival disse...

Charles, Meu Ir.'.!
Eu estava agora procurando uma Luz para desenvolver uma Peça de Arquitetura, já tinha lido várias mas, nada que me comovesse ou que me Iluminasse...
Agradecido Meu Ir.'., achei neste seu Trabalho, a linha a ser seguida. Agora vou prá Prancheta desenvolver meu Projeto porque tenho que apresentá-lo hoje na Sessão... Um TFA, Lourival Ramos M.'.M.'.